Demografia

Até 2032, Brasília terá mais idosos que jovens, segundo a Codeplan

Com menos filhos nas famílias, projeção da Codeplan aponta envelhecimento populacional do DF em 10 anos

Ana Isabel Mansur
postado em 06/05/2022 06:00
Patrícia tem um filho e não pretende engravidar novamente -  (crédito: Fotos: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
Patrícia tem um filho e não pretende engravidar novamente - (crédito: Fotos: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Em 10 anos, a população do Distrito Federal será composta, majoritariamente, por idosos. Em 2032, 17,1% dos habitantes do DF terão entre 0 e 14 anos, enquanto os moradores com 60 anos ou mais somarão 17,75%. Será o primeiro ano em que a proporção dessa faixa etária na capital do país ultrapassará a porcentagem de jovens. Hoje, o contingente populacional do DF é composto por 12,3% de idosos e 19% de jovens.

E a tendência, para as próximas décadas, é de que a distância se amplie ainda mais. Em 2060, o DF terá 32,8% de indivíduos acima de 60 anos entre os moradores, mas a quantidade de pessoas de até 14 anos será de apenas 12,6%. A título de comparação, a população brasileira, em 2022, é composta por 20,5% de jovens e 15,13% de idosos. Daqui a 10 anos, as proporções serão, respectivamente, 18,5% e 19,6%. O Brasil terá mais habitantes idosos um ano antes do DF. 

Como consequência do envelhecimento, a idade média dos habitantes do Distrito Federal passará de 34,24 anos, em 2022, para 38,34, em 2032. Os números são do estudo Projeções Populacionais para as Regiões Administrativas do Distrito Federal 2020-2030, elaborado pela Companhia de Planejamento do DF (Codeplan), com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O trabalho da Codeplan foi divulgado ontem. A pesquisa define as pessoas de 0 a 14 anos como jovens; entre 15 e 59 anos, os indivíduos estão em idade ativa; e acima de 60 anos, são idosos. A idade média no Brasil vai crescer de 34,2 anos, em 2022, para 38,1, 10 anos depois.

As mudanças nos padrões etários dos habitantes da capital do país são explicadas pela queda da taxa de fecundidade que o DF vem percebendo nos últimos anos. O índice, que era de 2,07 filhos por mulher em 2010, está em 1,66 neste ano, de acordo com dados do IBGE. O resultado do Brasil em 2022 permaneceu o mesmo de 2010: 1,75. 

A alteração na quantidade de herdeiros de cada brasiliense, contudo, não deve ser avaliada sob juízos de valor. É o que explica Julia Modesto, gerente de Pesquisas e Estudos Quantitativos de Políticas Sociais da Codeplan. "Não é bom nem ruim. (A diminuição da taxa de natalidade) é consequência das transições demográficas. Está acontecendo no mundo inteiro", observa a pesquisadora, ao destacar que o envelhecimento da população não é explicado pelo aumento na expectativa de vida, mas, sim, pela queda dos nascimentos. O nível de reposição populacional, valor mínimo considerado por especialistas para compensar as mortes, é de 2,1.

Henrique Salmazo, professor de psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB), justifica o cenário com base nas conquistas sociais obtidas pelas mulheres ao longo dos anos. "Elas estão optando por ter menos filhos por conta da maior inserção no mercado do trabalho, do aumento da profissionalização e das mudanças nos contratos de nupcialidade e nos acordos conjugais. É uma tendência de queda contínua e expressiva", completa o professor.

Decisão

"Para mim, já deu. Fechei a fábrica", diz Patrícia Lins, 37 anos, sobre a ideia de ter mais filhos. A paternidade do único herdeiro da moradora de Sobradinho, de 12 anos, fica a cargo do típico "pai brasileiro" — nas palavras dela. O genitor é ausente e não ajuda em nenhuma conta do menino, com quem os gastos só aumentam. A secretária de um escritório odontológico reclama que o custo de vida está alto e tende a crescer ainda mais. "É muito difícil proporcionar boa educação para um filho, a gente tem que ter dinheiro. Na minha concepção, ou você trabalha ou você cria bem o filho", desabafa.

A escolha de ter poucos herdeiros — ou mesmo nenhum — não é exclusiva das mulheres, apesar de a maior parte da carga de gerar filhos recaia sobre elas. Do mesmo modo, os homens estão abrindo mão da prole para focar em outros aspectos pessoais, além de também apontarem as questões financeiras como um grande entrave. É o caso de Leandro Eusébio, 21, que trabalha como instrutor em uma rede de fast food. Ele não planeja ter filhos tão cedo. "É dinheiro demais, além do que dá muito trabalho", conta o morador de Samambaia Sul. Lilia Helena Silva, 26, também não pensa em ter filhos. "É muito caro. Então, tanto agora como a longo prazo, não me vejo sendo mãe", relata a moradora do Paranoá e trabalhadora de serviços gerais.

Aos 21 anos, Leandro Euzébio não quer filhos tão cedo
Aos 21 anos, Leandro Euzébio não quer filhos tão cedo (foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

A atual situação de instabilidade do país é outro motivo que aparece na lista dos que pensam duas vezes antes de colocar mais bebês no mundo. Prestes a completar 21 anos, Maria Eduarda Pereira cita a possibilidade de, um dia, gerar rebentos em outro local. "Se eu pudesse ter um filho, seria na Irlanda. No Brasil ou em Brasília, jamais", enfatiza a estudante de odontologia do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF). A moradora de Planaltina não se mantém esperançosa acerca do futuro da nação. "A gente sabe como está a situação hoje em dia, e não é legal. Precisava, pelo menos, ter uma perspectiva de que o Brasil vai melhorar — e eu não tenho", lamenta.

Mudanças

Para reverter o quadro de envelhecimento populacional, segundo Julia Modest, seria necessário elevar a quantidade de crianças geradas. "Ainda assim, demoraria uns 40 anos para começar a apresentar resultados. Os países que conseguiram conter a queda da taxa de fecundidade, como Noruega e Finlândia, possuem políticas públicas que incentivam as mulheres a terem filhos, como licenças-paternidade longas, compartilhadas entre o pai e a mãe, e creches públicas", compara a gerente da Codeplan.

Os resultados do envelhecimento podem influenciar a oferta de políticas públicas voltadas aos habitantes do DF. "Na saúde básica, precisaremos de mais acompanhamento às doenças crônicas não transmissíveis, que serão maiores com uma grande população idosa. Teremos de repensar, também, a locomoção pela cidade. Além de calçadas com problemas, no DF, onde temos quase tanto carro quanto gente, como vai ser dirigir depois dos 60 anos?", exemplifica Julia Modesto.

Geriatra do Hospital Brasília, Luis Fernando Rangel acrescenta a importância de investir em aparelhos urbanos de infraestrutura. "Pensando nos mais saudáveis, são necessários equipamentos públicos de suporte a idosos para atividade física, convívio social e desenvolvimento de novas habilidades para promoção do envelhecimento saudável. Mais pessoas hoje chegam a idades avançadas com boa saúde", sugere.

Com o novo perfil etário do DF, os brasilienses vão perceber mudanças também no cenário produtivo, conforme destaca Jackson de Toni, professor de economia do Ibmec Brasília. O surgimento de setores em áreas como lazer e saúde fará novos mercados serem dinamizados. "Por outro lado, os aposentados tendem a receber menos do que os trabalhadores da ativa da mesma carreira, o que pode afetar o consumo", pondera o professor.

Ao citar os serviços públicos, ele acrescenta que serão necessários mecanismos de novos financiamentos no aspecto previdenciário. O grande desafio do envelhecimento da população do DF, porém, estará no mercado de trabalho. "Teremos de incentivar novas funções ocupacionais para pessoas da terceira idade, tanto na iniciativa pública quanto na privada. A depender de como será essa espiral de envelhecimento, talvez sejam necessárias políticas de atração de jovens e migrantes, além de incentivo fiscal e financeiro para que os casais aumentem a taxa de fecundidade", completa o economista.

Colaborou Ana Luisa Araujo

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