O primeiro beijo

Correio Braziliense
postado em 06/05/2022 00:01

Com a internet, as informações viajam com uma velocidade vertiginosa e nos deixam atônitos. Confesso que não consigo acompanhar tudo que me mandam. No ano passado, ocorreu um apagão nas redes sociais e uma representante da vanguarda do atraso fez uma ameaça apocalíptica para defender o voto impresso: "Já pensou se isso ocorre durante a eleição com urnas eletrônicas?".

Se fosse verdadeira a lógica da moça, teríamos de renunciar aos aviões a jato e nos movermos de carroça, pois sempre haveria o risco de uma pane. Eu estava devaneando, erraticamente, sobre essas questões quando recebi um vídeo produzido pelo Instituto Moreira Salles sobre o marceneiro Jaime Vilaseca.

Ele se envolveu e se viu envolvido em um lance de acaso e mistério. Foi chamado para construir uma estante de livros para Clarice Lispector. Ela ficava calada quase o todo tempo, sempre observando o movimento.

No entanto, em um átimo, disse para o marceneiro que ele estava fadado a fazer molduras de quadros. Jaime ficou assustado, achou engraçado e reagiu com descrença. Considerou o vaticínio completamente absurdo, destituído de qualquer fundamento. Todavia, Clarice fez umas encomendas e, logo em seguida, o levou a um encontro com vários artistas plásticos.

Jaime iniciou um convívio com artistas, se tornou um aprendiz e depois um mestre das molduras muito requisitado. A profecia de Clarice, uma mulher de radares de sensibilidade poderosos, se cumpriu fielmente. Além disso, me chamou a atenção uma história contada por Jaime, que se transformou no belíssimo conto O primeiro beijo, narrativa ficcional no limiar da poesia.

Tenho muita curiosidade sobre a gênese das canções, dos poemas, dos romances, dos filmes e dos contos. Vamos à história. Jaime viajava com o pai numa subida de serra para Niterói quando o carro aqueceu muito e tiveram de parar em um acostamento. Hoje, é mais raro um carro, razoavelmente novo, apresentar problema mecânico, mas, naquela época, era muito comum.

O então adolescente sentiu uma sede terrível e buscou, desesperadamente, água para se saciar. Jaime contou a história para Clarice e ela recriou tudo no conto. Acompanhemos a narrativa sob o olhar de Clarice: "O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos".

E continua: "De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos. Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água".

Olhou para a estátua nua. Ele a havia beijado: "Até que, vinda da profundeza do seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...Ele se tornara homem".

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