Mais que sofrência

Correio Braziliense
postado em 09/05/2022 00:01

Talvez a prova mais concreta e palpável da necessidade do amor — ou das relações de afeto — em nossas vidas seja a produção artística. Romances, filmes, telas e esculturas estão aí, como testemunho desse fato existencial. Mas é na música que essa verdade se encontra, quem sabe, de maneira mais democrática e eclética. Rock, pop, sertanejo, country, funk, rap, ska… Acho que nem a música eletrônica escapa de imitar as batidas de um coração apaixonado.

A dor de cotovelo vira clássico quando conta a frustração do cliente a trocar confidências com o garçom na mesa do bar; desdenhando "uns 50 reais" ao flagrar os amantes em plena traição; na batida gostosa do soul ou R&B de Adele, Whitney ou Amy; entre passos de dança acanhados, no bolero "dois pra lá, dois pra cá" de Elis; e até em obras-primas de Gil, Caetano e Jorge Ben; no rock de Eric Clapton ou nas canções inesquecíveis dos Beatles. "Something in the way she moves…"

A sofrência até virou estilo musical, mas a verdade é que ela tem lugar cativo em todos os corações, não importa o ritmo escolhido. A própria paixão pelo artista favorito, a vontade de gritar e estar perto em show, concerto ou encontro inesperado no aeroporto dá o tom dos sentimentos que emergem dessa relação visceral.

Toda a vibe de amor e sofrência vem na onda desse Dia das Mães. Como a data passou e foi comemorada ontem, achei que ficar falando só disso poderia se tornar cansativo e entediar o leitor. E foi justamente ouvindo algumas de minhas músicas preferidas no domingo, já que o dia "era meu", que pensei que a produção musical dificilmente sobreviveria ou perderia boa parte de seu poder de cativar e arrastar multidões não fosse esse sentimento tão nobre e, por vezes, banalizado.

Mas como mãe não sai de moda — a não ser, talvez, naquela fase da adolescência que geralmente se estende até o início da vida adulta — ouso usar o restinho de crônica para compartilhar um poema de Alice Ruiz que resume bem o que vivo nesse momento. É engraçado se enxergar tão claramente em um jogo de palavras simples, porém preciso. Quando nos achamos assim, é sinal de que carregamos mesmo o sentimento do mundo — por falar em obras de arte sobre o amor.

"Enchemos a vida / de filhos / que nos enchem a vida / um me enche de lembranças / que me enchem / de lágrimas / uma me enche de alegrias / que enchem minhas noites / de dias / outro me enche de esperanças / e receios / enquanto me incham / os seios".

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