O premiado escritor Julián Fuks, um dos maiores talentos da literatura brasileira na atualidade, é também um cronista. Em exercício metalinguístico a que muitos de nós recorremos para buscar inspiração e fazer um pouco de propaganda desse gênero que nos cativa, ele escreveu recentemente sobre a própria crônica e seu destino cruel.
Em tom melancólico, Fuks praticamente decreta a morte desse estilo literário. A poesia contida em suas linhas, porém, faz o bom entendedor logo perceber a ironia e a tentativa perspicaz do escritor de driblar a sentença que ele mesmo decreta. Não, Julián, você não me enganou.
Concordo que a página impressa, a folha amarelada ou cinza, manchada pela tinta no papel jornal, talvez sejam o abrigo mais adequado para as palavras escritas com a intenção pura e simples de sugerir ao leitor um suspiro em meio à aridez das notícias — no caso de Brasília, algo quase literal diante dos baixíssimos níveis de umidade do ar.
Mas acredito que essa irmã pobre do conto, prima do romance e gestada nas máquinas de escrever de tantos e brilhantes autores ainda não esteja com os dias contados. Primeiro porque é de histórias que sobrevivemos. O tal engajamento nas redes sociais não me deixa mentir. Contar nas timelines e feeds — para usar estrangeirismos do momento — relatos impactantes das vidas das pessoas é uma das fórmulas para o sucesso.
Muita futilidade decorre desse tipo de comportamento também, mas as boas notícias ainda têm um poder transformador, e a narrativa que as acompanha importa. Mesmo que em vídeo, a música, os efeitos, o enquadramento e a escolha da paleta de cores sejam elementos essenciais para atrair o olhar de quem navega ou rola para cima a tela do celular ou do tablet.
O amigo leitor e colega cronista Danilo Carlos Gomes também embasa esse meu argumento. Longe das trincheiras das redes sociais encontra-se uma corrente de escritores que resiste e insiste em reverenciar a crônica. Todas as semanas ele compartilha comigo e com tantos outros os textos de cronistas que ocupam assentos nas academias de letras e outros "amadores" como eu.
Foi difícil chegar ao fim do texto de Julián Fuks. Afinal, mesmo diante dos indícios postos até aqui, a análise dele é precisa e avassaladora. Mas o vencedor do Jabuti guardou um presente para quem resistiu, e tomo a liberdade de compartilhar também com você as últimas linhas da crônica. Ele avisa "que todas as formas que morrem, o soneto, a pintura, o romance, ainda podem ser praticadas com liberdade e leveza, em absoluta paz, pelos sonhadores e os distraídos".
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