Obituário

Morre a jornalista Donalva Caixeta, pioneira de Brasília

Pequena na estatura, enorme no talento, a jornalista Donalva Caixeta tinha o bom texto nas veias

Não sei quem chegou primeiro: se fui eu ou a Donalva Caixeta, vinda de Minas. Formamos o grupo de mulheres (na época meninas) do Correio Braziliense no final da década 1960. Depois de estrear em Cidades, que é a editoria que cuidava dos assuntos locais, fui ser setorista na Esplanada, na área de ministérios, enquanto Donalva se especializou em cultura.

Ela e Valdiria Bezerra eram as prima-donas do Caderno 2. Assinavam grandes matérias de capa, não só sobre assuntos culturais, mas também outros temas importantes do país e da cidade, que vivia seus primeiros anos com sua geografia ainda incompleta. Para ter uma ideia, só a Asa Sul estava pronta. Na Asa Norte, onde havia bons restaurantes, como o Xangô de culinária baiana, que ocupava uma construção na cor roxa, e o Rei do Frango, ou coisa parecida, na cor laranja, com cozinha especializada na ave assada. Todas as edificações eram de madeira. Parecia o faroeste.

Numa semana santa, o editor de Cultura, José Helder de Souza (pai da fotógrafa Zuleika de Souza), que era escritor e poeta, encomendou a Donalva a matéria de capa para a sexta-feira santa. Meticulosa, a jornalista pesquisou a história cristã e trouxe à tona a origem judia do Salvador, a partir de Moisés, o libertador dos hebreus no Egito.

Correio Braziliense/Reproducao -
Correio Braziliense/Reproducao -
Correio Braziliense/Reproducao -
Arquivo CB/D.A Press -

Com base no texto, Helder pediu ao arquivo ilustrações para fechar a matéria. Já era no meio da tarde e não subia nenhuma, quando o secretário exasperado ligou para cobrar do departamento, que funcionava no subsolo. “Moiséis de quê, seu Helder? ’’ De Soiza’’, respondeu o editor. Donalva, que trabalhava no turno da manhã, já tinha ido embora e só no dia seguinte eu pude lhe contar, aos risos, a história sobre a edição da matéria dela.

Por inúmeras vezes formamos dobradinha para cobrir eventos na cidade, como na primeira e única visita da Rainha Elizabeth II ao Brasil, no começo de novembro de 1968. Acompanhadas pelo fotógrafo Alencar Monteiro, estivemos em toda a programação real. Foi Donalva quem escreveu sobre a visita à Escola-Classe da 308 Sul, quadra modelo da cidade, onde muita gente se aglomerou para ver a Rainha e o Príncipe Philip. “Pena que não houvesse um intérprete para dizer à rainha como funcionava a escolinha, o que as crianças tentavam dizer, para fazê-la compreender o grau de simpatia e até mesmo de forte entusiasmo que ela despertou entre o povo brasiliense”, registrou Donalva.

Pequena na estatura, enorme no talento, Donalva tinha o bom texto nas veias. Ao sair do Correio continuou fazendo jornalismo em assessoria de imprensa e no Projeto Rondon. Um brilho que não se apaga.

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