Paulo Cesar Marques, professor de engenharia de tráfego na Universidade de Brasília (UnB)
A multa, por si só, tem caráter educativo ou o brasiliense já a incorporou como um 'custo' de se ter um carro?
Nenhuma medida será capaz de dar boas respostas isoladamente. Multas e outras medidas de penalização precisam ser acompanhadas de medidas de educação, mas é preciso qualificar adequadamente as ações educativas. Em geral, não devem ser ações destinadas a instruir usuários, como o senso comum costuma compreendê-las, mas iniciativas que visem a sensibilizar a população, inclusive criando um ambiente que leve ao constrangimento social de quem insiste em infringir as regras de conduta.
Fatores como pressão por produtividade, estresse e longas jornadas de trabalho, pensando em motociclistas, por exemplo, podem impactar nessa rotina de falta de cuidados no trânsito?
Sim, esse é um aspecto que precisa ser tratado de forma mais efetiva. Há normas que regem os mercados de trabalho e a prestação de serviços de transporte de carga e de passageiros, mas o crescimento de modalidades menos formalizadas, como o motofrete e a oferta de serviços via plataformas, conhecidos como transporte por aplicativos, é um desafio para o qual as respostas ainda não são satisfatórias. Temos assistido à proliferação de modalidades que, na prática, em nome da competitividade, apostam do desrespeito às normas do trânsito seguro.
Também temos, cada vez mais, congestionamentos. Esse fator pode influenciar em possíveis multas de trânsito?
Pode haver um efeito secundário dos congestionamentos, provocando a perda de paciência por parte dos condutores. Mas seria mesmo um efeito secundário. A saturação do sistema viário é um fenômeno decorrente do excesso de veículos em circulação, que não será superado com o desrespeito às regras, e isso também deve ser matéria de campanhas educativas.