Um crime
previsível
Por Larissa Guedes, advogada especialista em direitos das mulheres e mestra em Estado, governo e políticas públicas
Crimes como esse continuam acontecendo porque a violência de gênero contra mulheres e meninas no Brasil não é um episódio excepcional. Essa violência é estrutural, é previsível, é enraizada nas relações sociais e familiares. Os homens entendem que os nossos corpos pertencem a eles. Quando falamos de um padrasto que estupra e mata uma adolescente, isso é o resultado extremo de uma lógica que ainda tolera o controle, a dominação, a violência do corpo feminino, principalmente, quando esse corpo é de uma menina.
A violência intrafamiliar segue sendo invisibilizada e naturalizada. É um espaço que deveria ser de proteção, mas ainda é, para muitas mulheres e meninas, um lugar de grande risco. Essas desigualdades de poder dentro das famílias somam-se ao medo, à dependência financeira, à dependência emocional e à ausência de escuta. Isso produz silêncios prolongados. O crime não acontece só no dia do assassinato, ele se constrói por meio de abusos, ameaças, silenciamentos, sinais de alerta que não são identificados ou levados a sério.
Infelizmente, a atuação do Estado é sempre tardia, fragmentada. Falta articulação nas escolas, na área da saúde, na assistência social e no sistema de Justiça. As mulheres seguem sendo revitimizadas nesses espaços. Falta capacitação contínua das equipes para reconhecer violência sexual e psicológica, investimento, prioridade política para proteção à infância e proteção de gênero às mulheres.
O Brasil tem boas leis, mas a implementação é falha e desigual. Existem instrumentos institucionais que precisam funcionar de forma efetiva. Os canais de denúncia precisam ser acessíveis, os conselhos tutelares precisam ser fortalecidos, o sistema de Justiça precisa ter uma resposta mais rápida e uma rede de proteção que atue antes da morte. A gente não precisa morrer para tentar salvar a outra. Nenhuma mulher se protege sozinha dentro de uma estrutura de violência. A proteção real depende de políticas públicas permanentes e a responsabilização efetiva dos agressores.
Se continuarmos tratando casos como esse como exceções monstruosas e não como resultado de uma violência que é cotidiana, previsível e evitável, vamos continuar contabilizando mortes.
Salvar nossas vidas e dar dignidade para as mulheres precisa ser prioridade no Brasil.