Elisabeth Maria Campelo do Lago Leal, 61 anos, deixou os corredores do Hospital Anchieta, em Taguatinga, na madrugada de 18 de novembro de 2025, agradecendo aos médicos pelo esforço para salvar o marido. João Clemente Pereira, 63, servidor da Companhia Ambiental de Saneamento do DF (Caesb), estava internado desde 4 de novembro na unidade de terapia intensiva (UTI) para tratar um coágulo na cabeça e morreu após sofrer uma parada cardiorrespiratória. Na semana passada, Elisabeth recebeu a notícia de que a morte do marido é investigada como um possível assassinato cometido por três técnicos de enfermagem — todos presos pela Polícia Civil.
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João não tinha histórico de doenças graves, segundo os filhos Eduardo Leal, 37 anos, e Valéria Leal, 29. Submetia-se a exames periódicos, mas a dor de cabeça persistente o levou a procurar atendimento médico. Em 3 de novembro, trabalhou normalmente no cargo de supervisor de manutenção da Caesb. No dia seguinte, deu entrada no Anchieta.
Às 13h03 do dia 4, Eduardo recebeu uma mensagem do pai: “Estou internado. Tem um pequeno coágulo na cabeça e a cirurgia é hoje.” A família reuniu-se no hospital. Estavam todos com um “nó na garganta”. “Ficamos com medo, mas mantivemos a calma e a fé”, disse Valéria ao Correio.
Antes da cirurgia, João não demonstrou preocupação e poupou declarações de despedida. Disse apenas ao filho: “Leva meu carro para casa”. O procedimento seguiu sem intercorrências, mas ele permaneceu em coma induzido para tratar complicações pulmonares após a extubação. No dia 17, sofreu a primeira parada cardíaca. A família foi chamada e encontrou os médicos tentando reanimá-lo. “Eles (médicos) acharam uma obstrução pequena, mas que, eles mesmos disseram, isso não justificaria”, contou o filho.
Àquela altura, a esposa e os filhos receberam a notícia de que as chances de óbito eram grandes. Na madrugada do dia 18, veio a segunda parada cardíaca, que levou à morte do servidor. Os três saíram do hospital transtornados, mas agradecendo às equipes pelos cuidados prestados. Cuidados que, dias depois, passariam a ser questionados pela investigação.
A notícia
Em 16 de janeiro, Elisabeth recebeu uma ligação inesperada do hospital. Imaginou que se tratasse de alguma pendência financeira do plano de saúde. A direção a chamou pessoalmente e contou sobre a investigação da Polícia Civil que identificou a atuação dos técnicos de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, 24 anos, Marcela Camilly Alves da Silva, 22, e Amanda Rodrigues de Sousa, 28. Os três são suspeitos de aplicar uma alta dosagem de uma substância química na veia de três pacientes, incluindo João. As mortes ocorreram entre novembro e dezembro do ano passado.
“Meu pai era uma pessoa que sempre estava feliz. Por onde passava, contagiava. Gostava de viajar, de fazer churrasco e chamar a família toda. O que queremos é justiça para ele e todas as outras vítimas que eles fizeram. O hospital também precisa ser responsabilizado. Nos avisar foi o mínimo que poderiam fazer”, desabafou Valéria, filha de João Clemente.
Além de João, as vítimas são Marcos Moreira, 33, servidor dos Correios; e Miranilde Silva, uma professora da rede pública de 75 anos. Segundo nota do Sindicato dos Professores (Sinpro-DF) publicada em novembro do ano passado, a docente atuou na Regional de Ensino de Ceilândia, lecionando a disciplina de atividades, na Escola Classe 03. "Sua dedicação, sensibilidade e cuidado marcaram a trajetória de inúmeras crianças e fortaleceram a escola pública como um espaço de afeto, aprendizagem e cidadania", ressaltou a entidade.
A investigação do caso que abalaria três famílias aleatórias começou na véspera de Natal de 2005. A PCDF foi procurada pelo Hospital Anchieta e informada que a Comissão de Óbitos havia identificado a possibilidade de três homicídios terem ocorrido nos leitos da UTI da instituição. Por meio do acesso a prontuários e a imagens de câmeras de segurança, foi detectado o comportamento suspeito dos três técnicos de enfermagem na ocasião em que dois pacientes internados morreram de forma suspeita.
Diante da suspeita, o hospital passou a investigar outras mortes ocorridas nesse mesmo padrão e detectou, em 1º de dezembro, um terceiro óbito. Finalizada a auditoria interna, a instituição comunicou o caso à polícia. A investigação se tornou prioritária no momento em que a equipe foi informada que Marcos — demitido do Anchieta — estava trabalhando na UTI neonatal de um hospital infantil, também em Taguatinga.
Em uma força-tarefa entre a Coordenação de Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP), o Instituto Médico Legal (IML) e o Instituto de Criminalística, foram expedidos os mandados de busca e apreensão, em 12 de janeiro, e, três dias depois, os envolvidos foram presos temporariamente em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas (GO). Marcos, o principal investigado, era quem injetava as substâncias nas veias dos pacientes. Também estudante de fisioterapia, trabalhou em vários hospitais, públicos e privados, durante cerca de cinco anos. Há um ano estava no Anchieta.
"A presença de câmeras nos leitos, algo que não é muito comum, foi fundamental para constatar os fatos", ressalta o delegado Wisllei Salomão, coordenador da CHPP. O trio está preso temporariamente por 30 dias e, agora, a investigação vai apurar se outras pessoas contribuíram para esses crimes e se ocorreram mortes com o mesmo perfil nos outros hospitais onde eles trabalharam.
Os três serão indiciados por homicídios dolosos qualificados por meio insidioso, visto que as vítimas não sabiam estar recebendo a substância, tampouco poderiam se defender, considerando que estavam acamadas. A pena varia de 12 a 30 anos. Enquanto o técnico vai responder pelos três crimes, Marcela e Amanda responderão por coautoria em apenas dois, pois não estavam presentes em uma das ocorrências.
Frieza
Durante o interrogatório, Marcos negou inicialmente os fatos, afirmando que tinha apenas seguido a receita passada pelo médico. Porém, após ser confrontado com as imagens — desde ele sentado no computador do médico até a aplicação do medicamento —, confessou o crime. “Até estudantes de enfermagem e medicina, e técnicos ainda em nos primeiros anos de curso sabem que não se aplica essa substância dessa forma”, destaca o delegado.
Os três investigados foram “extremamente frios” durante os interrogatórios. “Quando passamos os vídeos, eles não manifestaram surpresa nem choque. Também não demonstraram arrependimento”, completa Salomão. Marcela também negou o crime, afirmando não saber o que Marcos aplicava nos pacientes. Diante dos vídeos, ela contou ter se arrependido de não impedir o ato nem avisar a equipe do hospital, além de confirmar saber que a substância utilizada poderia matar se aplicava de forma indevida.
Amanda, por outro lado, negou os fatos e afirmou achar que Marcos estava apenas aplicando medicamentos corriqueiros, apesar de as imagens mostrarem ela vigiando a porta enquanto o suspeito injetava as substâncias nas vítimas. Confrontada, ela manteve-se em silêncio. Nenhum dos três elucidou a motivação do crime. “Agora vamos analisar os celulares aprendidos e os demais computadores dos autores, a fim de entender o porquê dessa barbaridade”, afirma o delegado.
Segundo Leandro Oliveira, perito do Instituto de Criminalística, todas as informações coletadas estão em fase de exame. Sobre a suspeita de terem ocorrido mais mortes, ele comenta: “Nós vamos solicitar os dados dos hospitais, fazer um cruzamento e verificar se houve mortes com esse mesmo padrão. São mais de 20 laudos em andamento nesse formato de regime prioritário”, declara.
Nenhum dos três tinha antecedentes criminais. E a investigação não demonstra que os suspeitos agiram para praticar os crimes a pedido da própria vítima ou dos familiares. Segundo o perito, as famílias ficaram chocadas com a informação sobre o crime. “Elas (as famílias) já tinham passado pelo luto da morte e, agora, tomando conhecimento que foram vítimas de crimes, estão sofrendo novamente pela morte dos seus entes”, pontua.
Segredo de justiça
Por nota oficial, o Hospital Anchieta informou que, ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos ocorridos em sua Unidade de Terapia Intensiva, instaurou, por iniciativa própria, "em cumprimento ao seu dever civil, ético e ao seu compromisso com a transparência", comitê interno de análise e conduziu investigação célere e rigorosa. De acordo com a unidade, em menos de 20 dias foi possível identificar as evidências envolvendo ex-técnicos de enfermagem.
"Com base nessas evidências, fruto da investigação interna realizada pela instituição, o próprio Hospital requereu a instauração de inquérito policial, bem como a adoção das medidas cautelares cabíveis, inclusive a prisão cautelar dos envolvidos os quais já haviam sido desligados da Instituição, prisões as quais foram cumpridas pelas autoridades nos dias 12 e 15 de janeiro de 2026. Pautado pela transparência de seus processos e pela confiança nos protocolos internos que norteiam sua atuação, o Hospital entrou em contato com as famílias envolvidas, prestando todos os esclarecimentos necessários de forma responsável e acolhedora. Reitera, ainda, que o caso tramita em segredo de justiça, o que impossibilita a divulgação de informações adicionais bem como a identificação das partes envolvidas".
O hospital continuou em nota: "O Hospital entende que o segredo de justiça é imprescindível à preservação da apuração, à proteção das partes envolvidas e ao regular exercício das atribuições das autoridades competentes, o qual deve ser estritamente observado de acordo com os limites impostos pela decisão judicial. O Hospital, enquanto também vítima da ação destes ex-funcionários, solidariza-se com os familiares das vítimas, e informa que está colaborando de forma irrestrita e incondicional com as autoridades públicas, reafirmando seu compromisso permanente com a segurança dos pacientes, com a verdade e a justiça", finalizou.
O Conselho Regional de Enfermagem do DF (Coren-DF) também se posicionou. Esclareceu que acompanha o caso e adotou as providências cabíveis no âmbito de sua competência legal. "Ressalta-se que o caso também está sob investigação das autoridades competentes e tramita na esfera judicial. Dessa forma, neste momento, não é possível emitir juízo de valor ou qualquer conclusão definitiva, devendo ser respeitados o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa dos envolvidos. O Conselho segue compromissado com a segurança do paciente, a ética profissional e a defesa de uma enfermagem qualificada, responsável e comprometida com a vida", pontuou.
