A capacidade de sobreviver, resistindo a intempéries, doenças, predadores e a outras eventualidades da vida terrena é intrínseca a qualquer ser vivo que habita este planeta Terra. Mas ando achando que estamos em uma fase (talvez de novo ou ainda) de enfrentamento aos sentimentos espúrios. Somos sobreviventes do ódio.
Não consigo entender ou me conformar com tamanha violência: a que levou à morte com requintes de crueldade o cão Orelha; a inadmissível agressão que deixou em coma um adolescente de 16 anos e o assassinato de três pacientes com injeção letal em hospital aqui em Brasília. Quanto ódio e descontrole cabem em uma pessoa para chegar a esse ponto? Impensável, revoltante, aterrador.
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Tem gente que anda pelo mundo e se sente sujeito de direitos, mas se esquece de que também temos deveres. Os limites das nossas vontades são evidentes. Quem tem o mínimo de letramento social e de empatia sabe que não se faz com o outro o que não se deseja para si. Crença, religião e moral ajudam a reforçar os princípios básicos, mas essa simples percepção é suficiente.
Brasília coleciona histórias de barbáries que chocaram seus moradores. Crimes que nos envergonham. Ana Lidia, Marquinho, Isaac, Maria Cláudia, Honestino, João Miguel. Relembramos para não deixar o tempo ignorar a dor de seus parentes e amigos e também para evitar que se repitam. Essa memória não chega a ser suficiente em alguns casos, afinal a maldade é tão humana quanto o altruísmo, mas para sobreviver ao ódio precisamos alimentar dentro de nós uma revolta que se engaje e se transforme em proteção.
Se os pilotis livres simbolizavam integração, a Brasília de hoje cambaleia ao tentar honrar esse legado. A brincadeira ainda é livre em grande parte deles, mesmo tendo que batalhar por respeito com vizinhos que insistem em cobrar um silêncio ensurdecedor. Em algumas ocasiões, testemunham também crimes bárbaros, como o que assustou moradores da Asa Norte, no que consideram o ataque uma crônica anunciada, após reclamações recorrentes junto à segurança pública.
Para sobreviver ao ódio, precisamos semear a bondade e o respeito, mas confesso, e talvez compartilhe com muitos brasilienses, certo cansaço diante desses relatos selvagens. Não se trata de obediência cega. Nossos poetas da Legião Urbana e de outros grupos artísticos mostraram a importância de resistir e de não perder a capacidade de se revoltar. É essa revolta, no entanto, que agora urge e se torna sentimento de impotência.
Outros cantos do país e do mundo não escapam. O adoecimento é assustadoramente democrático. Mas Brasília teve muitas chances de ser exemplo. Aproveitamos algumas e ainda temos a oportunidade de seguir o caminho de pioneirismo também moral, só que outras tantas foram igualmente desperdiçadas. Agora não temos tempo a perder.
