ENTREVISTA | Getúlio Morato Filho | Médico

'IA é uma ferramenta consultiva', afirma médico no CB. Saúde

Ao CB.Saúde, professor de medicina disse que a ferramenta pode auxiliar bons profissionais, tornando as consultas mais ágeis e precisas, mas que em caso de erro toda a responsabilidade é do médico

A Resolução CFM nº 2.454/2026, que normatiza o uso de Inteligência Artificial (IA) na Medicina foi o tema discutido, ontem, no programa CB.Saúde — parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília. Aos jornalistas Sibele Negromonte e Roberto Fonseca, o professor de Medicina do Centro Universitário de Brasília (Ceub) Getúlio Morato Filho falou sobre a importância da autonomia do médico na hora de tomar decisões, os usos práticos de IA e como ela pode ajudar a reduzir erros. Ele também avaliou que, no futuro, médicos com má formação podem ser substituídos por essa ferramenta. Confira, a seguir, os principais pontos.

A resolução que o Conselho Federal de Medicina soltou deve entrar em vigor a partir de agosto. O que o senhor destaca sobre essa norma? 

Ela foi muito feliz, muito bem construída. A IA generativa, que é o que a gente acaba tratando como IA, está disponível desde 2022, com a chegada do Chat GPT. Desde então, houve um crescente uso dessas ferramentas na Medicina sem uma norma que o regulamentasse. Gostaria de elogiar essa norma, porque ela é muito atual. Ela reforça o papel do médico na decisão final. O profissional precisa, apesar de ter respostas levantadas pela IA, dar a palavra final. Então, ter autonomia para refutar um resultado da IA é o bom uso dessa ferramenta na prática médica.

Se a IA conduzir o médico a um erro, de quem é a responsabilidade? 

A responsabilidade sempre é do médico. A ferramenta serve como algo consultivo. Posso pedir uma opinião para um colega médico e ele estar errado. No final, a decisão é minha. Quem toma a decisão é responsável pela conduta do paciente. Você pode consultar o livro e ele estar errado, mas a decisão sempre é do médico. A gente também não pode jogar fora uma ferramenta que pode ajudar. As IAs, no futuro, vão reduzir muito o erro, porque a gente erra na prática clínica, não por desconhecimento, mas, às vezes, por cansaço. Há milhões de momentos em que a gente pode errar e a IA consegue detectar isso.

O doutor pode dar exemplos de como a IA está presente no dia a dia? 

Ela registra a consulta, por exemplo. O médico não fica mais conversando com o paciente com a tela na frente. Hoje, ele conversa com o paciente e isso é registrado com alguma forma de captar o áudio e transcrevê-lo. A IA, eventualmente, corrige algum erro. Ao final da consulta, o médico verifica se foi exatamente aquilo que ele falou e toma a decisão. De novo, a decisão continua sendo dele, mas melhora muito o registro prontuário.

Existem ferramentas utilizadas no sentido de detectar o que humano não consegue ver? 

Existem inúmeras ferramentas na parte de radiologia e patologia. Essas são áreas em que essa tecnologia está participando bastante. A gente aumenta a capacidade de perceber uma coisa que eu não consigo identificar. O papel do especialista é perceber se aquilo que está sendo mostrado é realmente o que está aparecendo. Se eu pegar só o resultado da IA, posso criar o que a gente chama de falso positivo. Então, o especialista entra num segundo momento para notar uma coisa que a IA não percebeu e, no final, a responsabilidade é de quem está laudando. Se o médico abrir mão do seu processo decisório, vai ser sempre um mau uso da IA.

O doutor consegue, hoje, ver a IA daqui a cinco ou dez anos?

A gente consegue visualizar em poucos meses, na verdade. Em outros países, como na China, existem cabines em que o paciente passa, o médico verifica e já sai a receita. Acho que, em algum momento, médicos vão ser substituídos, principalmente os ruins. Houve um aumento muito grande no número de faculdades de Medicina. Várias não têm a menor estrutura. Vimos o resultado no Enamed. A gente precisa formar bons médicos e, para isso, é preciso uma formação longa. Também precisamos de boas ferramentas que dêem suporte a esses bons profissionais. Quando a gente começa a trazer uma quantidade absurda de médicos mal formados, o que vai acontecer é que, naturalmente, vão ter ferramentas que vão substituir esses médicos, porque é melhor que se acerte do que entregar a população a médicos ruins, que vão errar diagnóstico e tomar condutas inapropriadas. Nosso foco sempre tem que ser o paciente. Brinco que a gente vai perder alguma habilidade no longo prazo, igual a um piloto de avião. Talvez o piloto de 1940 saiba pilotar um avião muito melhor que o de hoje, que tem um piloto automático. Mas eu prefiro que tenha um piloto automático e o avião não caia  do que eu depender o tempo inteiro de um piloto.

*Estagiária sob supervisão de Márcia Machado 

 

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