COTIDIANO

Crônica da cidade: Um ode à flanagem

Andar sem a pressão do tempo (e da atividade física), longe do celular, com uma única missão: espiar o povo, fuxicar sem dar muita bandeira, adivinhar a partir de vislumbres

Além da poesia maldita, devemos ao francês Charles Baudelaire a arte de flanar. Foi ele quem popularizou o andarilho moderno em suas Flores do Mal. Aquele que caminha sozinho, observando os passantes nas ruas apinhadas das metrópoles, reconhecendo indivíduos na multidão. Obrigada, Baudelaire. Não sou particularmente fã de seus poemas, admito. Mas, se tem uma coisa que amo fazer, é encarnar a figura do flâneur. 

Andar sem a pressão do tempo (e da atividade física), longe do celular, com uma única missão: espiar o povo, fuxicar sem dar muita bandeira, adivinhar a partir de vislumbres. Perder-se por aí. Às vezes, literalmente. (De tanto flanar em uma passagem coberta parisiense, a Passage du Grand Cerf, não percebi que fecharam o portão tarde da noite e tive de apelar para um nada simpático lojista.)

Mas não é preciso estar na terra de Baudelaire para se tornar um flâneur. Qualquer lugar urbano mais movimentado é o cenário perfeito do andarilho. Em Brasília, amo particularmente entrar no subsolo dos prédios comerciais. Ver lojas que sabia existir, observar gente circulando nos labirintos subterrâneos, imaginar histórias para os que, por um motivo ou outro, chamam-me mais atenção.

Anos atrás, fiz uma reportagem sobre a vida em Brasília enquanto estamos dormindo. Acompanhamos, o fotógrafo Ricardo Borba e eu, a rotina de gente cujo dia começa quando o nosso está prestes a terminar ou há muito acabou. Vigias noturnos, prostitutas, profissionais de TI, feirantes, padeiros, enfermeiros, motoristas das linhas corujão. Encerramos a pauta nos subterrâneos do Conic que, naqueles tempos, praticamente funcionava 24 horas, todos os dias da semana. Ah, que deliciosa flanagem! 

Ruas e parques abertos e ensolarados também são um convite ao caminhar despretensioso, porém atento. No domingo passado, fui sozinha ao Bosque do Sudoeste — não para malhar, mas para flanar vagarosamente. Os instrumentistas que dão uma palha pela manhã tocavam um chorinho animado. Parei para olhar uma mulher que usava véu e vestido longo de manga comprida e que se exercitava em um equipamento daquelas academias ao ar livre. Conforme o compasso da música acelerava, ela balançava com mais intensidade, de um lado para outro, numa alegria que talvez pensou ser só sua, mas da qual acabei compartilhando. 

É bom avisar: nem sempre o flâneur testemunhará apenas cenas pitorescas. Em uma cidade tão desigual quanto a nossa Brasília, muitas vezes a poesia é substituída pela indignação. Ainda assim, sempre vale a pena. Na sociedade das telas, caminhar, olhar e ver não é só uma atividade prazerosa. Também é resistir.

 


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