Pesquisadores do Rio encontram substância que neutraliza o novo coronavírus

Pesquisadores brasileiros obtêm até 50 vezes mais moléculas de defesa contra o Sars-CoV-2 usando soro extraído a partir do plasma de cavalos. Em testes de laboratório, a proteína consegue impedir a replicação do vírus causador da covid-19

Paloma Oliveto
postado em 14/08/2020 06:00
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(foto: "O experimento com o plasma dos cavalos permite que o tratamento seja produzido em grande escala. Os animais não sofrem com a retirada de plasma%u201D Adilson Stolet, presidente do Instituto Vital Brazil e um dos pesquisadores envolvidos)

Com base em uma técnica patenteada há 101 anos pelo imunologista brasileiro Vital Brazil — a do soro antiofídico —, pesquisadores do Rio de Janeiro conseguiram obter uma substância que neutraliza o Sars-CoV-2 e poderá ser usada como tratamento de pacientes com covid-19. Em vez de veneno de animais peçonhentos, o produto é o resultado de uma proteína desenvolvida em laboratório, que estimula a fabricação de anticorpos específicos contra o vírus. O resultado do estudo, ainda não publicado, surpreendeu os cientistas. Eles conseguiram obter até 50 vezes mais agentes de defesa contra o coronavírus, comparado ao plasma de pessoas que tiveram doença.

O soro foi obtido a partir do plasma de cavalos, animais utilizados frequentemente para a produção de substâncias antiofídicas. Para que o organismo dos equinos reconhecessem o Sars-CoV-2 sem a necessidade de eles serem infectados, os pesquisadores produziram uma proteína semelhante à spike. Essa estrutura, em formato de espinho, fica na parte externa do vírus e é uma peça-chave na infecção porque, ao se ligar a um receptor na membrana da célula hospedeira, facilita a entrada do micro-organismo no núcleo, onde ele começa a se reproduzir. Por isso, a spike é um dos principais alvos de vacinas e tratamentos para a covid-19.

No Laboratório de Engenharia de Cultivos Celulares do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), uma equipe coordenada por Leda Castilho conseguiu produzir uma proteína — a S —, que se assemelha à spike. “Ela mostrou-se muito efetiva para estimular a produção de anticorpos em cavalos, com uma quantidade muito maior do que a encontrada em humanos que já contraíram a covid-19”, conta a cientista. De acordo com a pesquisadora, como ainda não há tratamento específico para a doença, os anticorpos produzidos pelos animais representam uma esperança de terapia para os pacientes.

Os testes, que envolveram pesquisadores de diversas instituições do Rio e tiveram financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), começaram em 27 de março, na Fazenda Vital Brazil, em Cachoeiras de Macacu, no interior fluminense. Cinco cavalos foram inoculados com a proteína S e, a cada semana, os cientistas faziam exames de sangue para detectar os níveis de anticorpos produzidos. O presidente do Instituto Vital Brazil, órgão do governo do Estado do Rio, e um dos pesquisadores, Adilson Stolet, conta que o processo é seguro e não coloca os equinos em risco. “Já fazemos o soro contra a raiva, por exemplo, que também é um vírus”, exemplifica. “O experimento com o plasma dos cavalos permite que o tratamento seja produzido em grande escala. Os animais não sofrem com a retirada de plasma”, afirma.


Jerson Lima, presidente da Faperj e um dos autores do estudo, apresentou, ontem à noite, o resultado aos colegas da Academia Nacional de Medicina. No evento, transmitido on-line, ele disse que, depois do sétimo dia de inoculação, a resposta imune dos cavalos foi pouca. “Após a segunda inoculação, aumentou e, à medida que as semanas se passaram, foi algo impressionante. No 42º dia, havia perto de 1 milhão (de anticorpos produzidos). Fiquei com inveja porque tive covid-19 e nunca produzi anticorpos”, brincou.

Testes clínicos

O experimento durou 70 dias. “O próximo passo era verificar se esses anticorpos se mantinham depois que o plasma fosse processado”, relatou. Ao ser retirado dos animais, o sangue tem de ser purificado, e os anticorpos, isolados, um processo que pode perder parte das proteínas produzidas. “Vimos que, mesmo com o plasma processado, conseguimos quantidades acima de 100 mil.” Segundo Lima, a “questão de um milhão de dólares” foi saber se essas substâncias conseguiriam neutralizar o vírus. “Foi surpreendente verificar a alta capacidade de inativação do Sars-CoV-2”, comemorou.

Assim como Vital Brazil fez há 101 anos, a equipe de pesquisadores já patenteou a tecnologia e está em fase de organização dos testes clínicos, que dependem da aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Ministério da Saúde. O cientista contou que a capacidade de produção dos anticorpos e do soro é alta. Atualmente, há 10 cavalos para essa pesquisa no Instituto Vital Brazil. Enquanto o órgão pode processar grandes quantidades de plasma, o Coppe da UFRJ também fabrica a proteína S em larga escala.

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