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Covid-19: Queda dos índices de testosterona pode explicar gravidade da doença

Pacientes com covid grave apresentam baixos níveis do principal hormônio sexual masculino, mostra estudo da Turquia. Trabalho revela ainda perda da libido em 65% dos infectados. Segundo autores, descobertas abrem portas para terapias mais individualizadas

Vilhena Soares
postado em 29/09/2020 06:00 / atualizado em 29/09/2020 06:24
 (crédito:  AFP / Ozan KOSE)
(crédito: AFP / Ozan KOSE)

Uma série de pesquisas científicas mostra que homens apresentam piores prognósticos quando infectados pelo coronavírus, quando comparados às mulheres. Mas as razões que explicam essa diferenciação são pouco conhecidas. Um estudo feito por cientistas turcos traz uma possível explicação para o fenômeno. Os pesquisadores observaram níveis mais baixos do hormônio testosterona nos pacientes em estados mais graves da covid-19, além de perda da libido em grande parte dos analisados. Os autores do trabalho, publicado na última edição da revista The Aging Male, acreditam que os dados podem ajudar a aprimorar o tratamento de indivíduos com esse perfil.

Os cientistas analisaram um grupo de 221 homens, todos com covid-19 confirmada por meio do exame PCR. Os analisados foram divididos em três grupos: pacientes assintomáticos (46), sintomáticos internados em unidades de cuidados intermediários (129) e pacientes assistidos em unidades de terapia intensiva (46). Todo o grupo foi submetido a um levantamento detalhado do histórico clínico, além de exame físico completo e estudos laboratoriais e de imagem radiológica. O material foi verificado e revisado por dois médicos.

Com base nas informações coletadas, os pesquisadores observaram uma relação entre níveis mais baixos de testosterona e um estado agravado da infecção pelo Sars-CoV-2. “Em nossas análises, observamos que a testosterona total média diminuiu conforme a gravidade do covid-19 aumentou. O nível médio de testosterona total foi significativamente menor no grupo de UTI do que no grupo assintomático e no dos submetidos a cuidados intermediários”, explica, em comunicado, Selahittin Çayan, professor de urologia da Universidade de Mersin, na Turquia, e um dos autores do estudo.

Os pesquisadores observaram também que 65,2% dos 46 pacientes assintomáticos tiveram perda de libido. Do grupo total, 51,1% (113) foram diagnosticados com hipogonadismo — condição em que o corpo não produz testosterona suficiente. Durante a pesquisa, 11 pacientes (4,97%) morreram. “Essas pessoas tinham testosterona total média significativamente mais baixa do que os pacientes que estavam vivos”, afirma Selahittin Çayan.

O cientista explica que o principal hormônio sexual masculino está associado ao sistema imunológico dos órgãos respiratórios. “Baixos níveis de testosterona podem aumentar o risco de infecções respiratórias. Também estão associados à hospitalização relacionada à infecção de qualquer tipo e à mortalidade para praticamente todas enfermidades em pacientes atendidos na UTI”, detalha.

Para a equipe, avaliar os níveis do hormônio durante o primeiro atendimento de infectados pelo coronavírus pode ser uma medida positiva. “Acreditamos que uma boa recomendação aos médicos é que, no momento do diagnóstico dessa enfermidade, os níveis de testosterona também sejam testados. Em homens com baixos níveis de hormônios sexuais com teste positivo para a covid-19, um tratamento com base na testosterona pode ser indicado, com grandes chances de melhorar o prognóstico. Mas é claro que acreditamos que mais pesquisas são necessárias sobre esse tema”, pondera Selahittin Çayan.

Envelhecimento

Thiago Napoli, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional de São Paulo (SBEM-SP), avalia que o estudo turco apresenta dados interessantes, mas que peca ao usar um grupo de pacientes reduzido e com faixa etária ampla. “Foi analisada uma quantidade pequena de homens, e vemos também que a diferença de idade é grande. No grupo de assintomáticos, temos pessoas na casa dos 40. Na UTI, temos homens beirando os 70 anos. Isso nos faz acreditar que a questão do envelhecimento pese mais, até porque homens mais velhos apresentam também uma redução da testosterona que ocorre naturalmente”, explica.

O médico brasileiro acredita que mais pesquisas precisam ser feitas, principalmente análises que considerem outro fator que também está relacionado à possível associação entre a covid-19 e a testosterona. “O vírus usa a enzima ECA2 e uma proteína, também produzida pelo organismo humano, para infectar o corpo. E essa proteína é estimulada pela testosterona. Digamos que a primeira é a porta e a segunda, a maçaneta. Essa pode ser uma das explicações do por que os homens sofrerem com formas mais graves da covid-19 do que as mulheres”, diz.

Segundo o endocrinologista, os estudos e a prática clínica têm mostrado que muitas glândulas sofrem com a covid-19, como a tireoide e o pâncreas. “Por isso, a relação entre essa enfermidade e os hormônios é algo que precisa ser melhor estudada. Principalmente no caso da testosterona, já que, para perceber alterações relacionadas à ela, é bem mais difícil do que um caso de diabetes”, compara. “Outro ponto a ser observado é se existe uma redução dos níveis de testosterona também após a alta dos pacientes com covid-19. Esse problema pode ser uma espécie de efeito colateral”, cogita.

» Para saber mais

Reações distintas

Em julho, um estudo publicado na revista Nature, com dados de 17 milhões de britânicos, trouxe detalhes sobre a ligação entre gênero e mortalidade por covid-19. Desses pacientes, 10.926 morreram. Nas análises, os pesquisadores mostraram que homens têm risco até 1,59 vezes maior de falecer em decorrência da infecção causada pelo coronavírus.

Um estudo chinês divulgado em abril trouxe resultados semelhantes. A pesquisa, publicada na revista Frontiers in Public Health, analisou 1.056 casos de infectados. A equipe observou que a taxa de morte entre homens era 2,5 vezes maior. Outro estudo pulicado na Nature, em agosto, mostra que homens e mulheres têm reações imunes distintas à covid-19. Ao observar dados de 98 pessoas, pesquisadores da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, viram que as do sexo feminino tinham uma resposta maior das células de defesa do corpo.

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