ENTREVISTA

Ganhadoras do Nobel serão vitrine para as próximas gerações, diz pesquisadora brasileira

Elisa Souza Orth aponta a importância do trabalho de Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna

Paloma Oliveto
postado em 08/10/2020 06:00
 (crédito: Arquivo Pessoal                )
(crédito: Arquivo Pessoal )

Reconhecida em 2016 pelo Prêmio L’Oreal-Unesco para Mulheres na Ciência pelo trabalho que desenvolve como jovem cientista, Elisa Souza Orth, 36 anos, conheceu, na ocasião, as duas laureadas ontem, no Nobel de Química. “Elas são incríveis, fantásticas”, diz. Professora e pesquisadora da Universidade Federal do Paraná e uma das coordenadoras do Núcleo Mulher da Sociedade Brasileira de Química, a química espera que a Real Academia Sueca abandone a tradição de não premiar mulheres. “A gente precisa ter essas mulheres em posição de destaque porque elas vão ser vitrine para as futuras gerações, vão ser vitrine para a nossa sociedade.”

Como a pesquisa premiada tem revolucionado a ciência? Além da medicina, quais outras áreas são beneficiadas pela edição genética?

Essa técnica de tesoura genética é muito interessante porque permite fazer modificações precisas no DNA. Já existem técnicas para a terapia genética, ou seja, mudar nosso DNA para eliminar doenças. Mas nunca se conseguiu fazer de forma tão precisa. Idealmente, para doenças genéticas, como câncer, poderíamos reparar o defeito no DNA. Mas o problema é a falta de técnicas precisas: nem sempre conseguimos chegar à região do DNA com defeito, às vezes, acaba-se chegando à sadia, o que cria um defeito, uma nova doença. Essa é a inovação da técnica. Elas conseguiram criar uma tesoura genética que permite ir exatamente onde tem o defeito no DNA, cortar e reparar aquele defeito. A técnica está sendo usada na fibrose cística e no tratamento de câncer, por exemplo.


O Nobel não tem tradição de premiar mulheres. A senhora acha que a escolha de três (incluindo Andrea Ghez, em física, na segunda-feira) sinaliza para uma mudança de postura da Academia?

Realmente, o Nobel não tem tradição de premiar mulheres, muito menos na área de exatas. Atualmente, no Prêmio de Química, temos 3,76% de mulheres laureadas. Isso significa sete em 186 laureados. Com certeza, é um grande avanço ter recebido essa notícia. Nos dá muita esperança. Primeiro, porque elas merecem, e, segundo, porque a gente precisa dar cada vez mais esse reconhecimento às mulheres. Tem muita mulher fazendo trabalhos fantásticos. Sinaliza, sim, para uma mudança de postura, as pessoas estão percebendo a importância de olhar para todo mundo. Não é questão de privilegiar, é dar o conhecimento que elas merecem. A gente precisa ter essas mulheres em posição de destaque porque elas vão ser vitrine para as futuras gerações, vão ser vitrine para nossa sociedade.


Qual o cenário da mulher na ciência no Brasil?

Pelo menos na área de química, podemos dizer que temos muitas cientistas. Saiu um estudo da Elsevier mostrando que 40% dos cientistas no Brasil são mulheres, um número muito alto comparado aos de outros países. Recentemente, participei de um trabalho em que a gente levantou números na área de química. Percebemos que aquilo de dizer que mulheres não gostam de exatas é uma lenda. Mostramos que, na pós-graduação, 52% dos estudantes são mulheres. O que acontece é que, quando vai subindo na carreira, essa porcentagem vai diminuindo. Quando chega a ocupar um cargo na universidade, cai para 40%; publicar artigo científico, cai para 20%; ter representantes em entidades, como sociedades científicas, Capes e CNPq, temos um cenário assustador. A Academia Brasileira de Ciências e o CNPq nunca tiveram uma mulher presidente.

Então, ainda há muito preconceito no meio?

Tem muito preconceito. A gente vê histórias horrorosas de pessoas que sofrem assédio. Ainda hoje encontramos situações desse tipo, de alunas relatando assédio. Um mecanismo que as sociedades científicas estão desenvolvendo são os grupos de estudo para discutir essas questões de paridade de gênero. Criamos o Núcleo Mulher na Sociedade Brasileira de Química justamente para monitorar ações, como indicar mulheres para a diretoria e colocar mulheres palestrantes.

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