Coronavírus

Risco de morte dobrado

Pacientes com insuficiência cardíaca infectados pelo Sars-CoV-2 têm taxa de mortalidade elevada, mostra estudo britânico com 238 voluntários. Segundo os autores, o resultado enfatiza a importância de reforçar a proteção de indivíduos com comorbidades

Correio Braziliense
postado em 06/01/2021 22:19
 (crédito: Allison Dinner/AFP)
(crédito: Allison Dinner/AFP)

Pacientes com insuficiência cardíaca aguda praticamente dobram o risco de morrer se contraírem a covid-19, de acordo com pesquisa publicada na ESC Heart Failure, um jornal da Sociedade Europeia de Cardiologia. O estudo, que incluiu 238 pacientes internados no Hospital North Bristol NHS Trust, na Inglaterra, destaca a necessidade de pessoas com essa condição preexistente tomarem precauções extras para evitar serem infectadas pelo Sars-CoV-2.

“Nossos resultados apoiam a priorização de pacientes com insuficiência cardíaca para a vacinação contra a covid-19 no início das campanhas de imunização”, diz o pesquisador principal do estudo, Amardeep Dastidar, cardiologista intervencionista consultor do North Bristol NHS Trust e do Instituto do Coração de Bristol. “Enquanto isso, pacientes com insuficiência cardíaca de todas as idades devem ser considerados um grupo de alto risco e aconselhados a manter distância social e a usar máscara facial para prevenir infecções”, acrescenta.

A insuficiência cardíaca refere-se ao enfraquecimento progressivo da função de bombeamento do coração e inclui sintomas como falta de ar, inchaço do tornozelo e fadiga. A piora súbita e grave desses sinais é chamada insuficiência cardíaca aguda — uma emergência médica que requer internação hospitalar para medicação intravenosa e monitoramento intensivo.

O estudo divulgado ontem analisou as taxas de encaminhamento para a insuficiência cardíaca aguda durante a pandemia, assim como a mortalidade pela doença, em 30 dias. Dois terços dos pacientes tinham insuficiência cardíaca crônica e apresentavam deterioração aguda. A data da primeira morte por coronavírus no Reino Unido, 2 de março de 2020, foi o ponto de corte para definir dois grupos: antes da covid-19 (de 7 de janeiro a 2 de março, oito semanas) e após a covid (de 3 de março a 27 de abril, oito semanas).

Isolamento

Houve queda substancial, mas estatisticamente não significativa, nas admissões por insuficiência cardíaca aguda durante a pandemia. Um total de 164 pacientes foram admitidos nas oito semanas antes da pandemia, em comparação com 119 pessoas após o primeiro caso de covid-19 — uma redução de 27%.

“Essa descoberta pode refletir as preocupações do público sobre o distanciamento social no início do lockdown nacional, relato tardio de sintomas e ansiedade em relação ao atendimento hospitalar”, diz Dastidar. “Em consonância com essas explicações, nossos dados demonstram um aumento nos atendimentos durante as últimas semanas de bloqueio, em linha com os relatos da mídia britânica, que encorajam os pacientes a procurarem atendimento médico se necessário.”

A taxa de mortalidade em 30 dias de pacientes com insuficiência cardíaca aguda quase dobrou durante a pandemia. Cerca de 11% das pessoas incluídas no grupo antes da covid morreram em um mês, em comparação com 21% do grupo após a covid — um risco relativo de 1,9. Os pesquisadores examinaram quais fatores podem ter sido responsáveis pela alta taxa de mortalidade.

Mais testes

Idade avançada e admissão durante a pandemia foram associadas à morte após o ajuste para outros fatores que poderiam influenciar essa relação, com taxas de risco de 1,04 e 2,1, respectivamente. Quando os pacientes com teste positivo para a covid-19 foram removidos da análise, não houve diferença na mortalidade entre os grupos, indicando que os indivíduos com insuficiência cardíaca aguda e covid-19 tinham um prognóstico pior. “Isso pode sugerir uma interação direta ou suscetibilidade a resultados piores para pacientes com insuficiência cardíaca aguda com infecção por covid”, diz Dastidar. “É digno de nota que nossa região (Bristol) teve taxas muito baixas de infecção por Sars-CoV-2 durante o estudo e, ainda assim, a conexão com a maior mortalidade ainda era aparente”.

Dastidar aponta que os testes de rotina para detectar o novo coronavírus não estavam disponíveis no momento do estudo. “Seria informativo revisar as admissões mais recentes, quando o teste já estão mais amplamente implementados, para dar suporte às nossas descobertas. Como esse foi um estudo de centro único, uma análise nacional seria valiosa. Além disso, nós estamos ansiosos para revisar os dados de longo prazo e, então, procurar padrões de prognóstico nessa população de pacientes.”

Até oito meses de memória protetiva

A memória imunológica de pacientes que se recuperaram da covid-19 pode durar até oito meses, descobriram pesquisadores da Universidade da Califórnia, em San Diego, nos Estados Unidos. Em um artigo publicado na revista Science, eles relatam os resultados de um estudo feito com mais de 180 homens e mulheres infectados pelo Sars-CoV-2. De acordo com o artigo, todas as células responsáveis pela defesa contra o vírus ainda estavam ativas depois desse período.

Estudar a natureza da resposta humoral ao vírus — ou seja, a resposta de anticorpos e das células, incluindo as B e T — por períodos superiores a seis meses após o início dos sintomas pode ajudar a informar a duração da imunidade protetora. Para fazer isso, a equipe liderada por Jennifer Dan recrutou mais de 180 homens e mulheres dos Estados Unidos que se recuperaram da doença. A maioria apresentou sintomas leves que não exigiram hospitalização, embora 7% tenham sido hospitalizados.

A maior parte dos indivíduos forneceu uma amostra de sangue em um único momento, entre seis dias e oito meses após o início dos sintomas. Quarenta e três amostras foram fornecidas também seis meses ou mais depois dos primeiros sinais da doença.

Em 254 amostras totais, referentes a 188 casos de covid-19, Dan e seus colaboradores rastrearam anticorpos, células B (que produzem mais anticorpos) e dois tipos de células T (que matam as células infectadas). Os anticorpos, incluindo os componentes da proteína spike, exibiram apenas declínios modestos entre seis a oito meses após o início dos sintomas.

As células T, por sua vez, tiveram ligeira deterioração, enquanto as B, que reconhecem características do Sars-CoV-2, aumentaram em número em alguns casos. Embora os pesquisadores alertem que “conclusões diretas sobre a imunidade protetora não podem ser feitas com base em suas descobertas porque os mecanismos de imunidade protetora contra o vírus não estão definidos em humanos,” eles também dizem que várias “ interpretações razoáveis” podem ser feitas a partir de seu estudo.

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