Antárdida

Cientistas descobrem vida nas profundezas da Antártida

Descoberta, na Antártida, de seres vivos complexos a 1,5 mil quilômetros de profundidade de uma fonte de fotossíntese intriga cientistas, que cogitam que elas possam funcionar em outros planetas

Paloma Oliveto
postado em 21/02/2021 06:00 / atualizado em 21/02/2021 11:29
 (crédito: Peter Bucktrout, British Antarctic Survey/Divulgação)
(crédito: Peter Bucktrout, British Antarctic Survey/Divulgação)

Enquanto agências espaciais buscam a vida a milhões de quilômetros da Terra, alguns cientistas têm procurado por ela aqui mesmo, mas em locais tão inóspitos que, teoricamente, seriam incapazes de abrigar formas biológicas complexas. Essas expedições nos subterrâneos gelados da Antártida não apenas têm revelado espécies desconhecidas, mas podem contribuir com a astrobiologia — afinal, muitos desses ambientes se assemelham ao clima de planetas e satélites, como os de Júpiter e Saturno.

Atualmente, as teorias sobre a vida sob as plataformas de gelo da Antártida sugerem que, à medida que se afasta do mar aberto e da luz do Sol, a probabilidade de sobrevivência das criaturas se reduz drasticamente. Alguns pesquisadores já detectaram, nas profundezas escuras e gélidas do continente polar, vermes, peixes e águas-vivas. Porém, um novo estudo, divulgado na semana passada, causou estranheza até mesmo em seus autores. Sem querer, eles flagraram esponjas e outros animais que se alimentam de organismos da superfície a 260km de onde deveriam estar. Sob o gelo, acreditava-se, não seriam capazes de sobreviver.

A equipe, integrante da organização científica Pesquisa Britânica na Antártida, não estava lá para procurar por essas criaturas. Em um experimento exploratório, com objetivo de estudar amostras de sedimentos, os cientistas perfuraram 900m de gelo na plataforma Filchner-Ronne, situada no sudeste do mar de Weddell. Em um momento, os geólogos sentiram que o equipamento usado atingiu uma rocha, em vez da esperada lama, no fundo do oceano. As imagens flagradas pela câmera acoplada à sonda, então, revelaram uma pedra coberta por criaturas marinhas familiares e outras completamente desconhecidas.

Trata-se do primeiro registro de uma comunidade de substrato duro (ou seja, uma rocha) nas profundezas de uma plataforma de gelo. A descoberta parece ir contra todas as teorias anteriores sobre quais tipos de vida poderiam sobreviver nesse mundo gelado — a 2,2ºC negativos — e sombrio. Considerando as correntes marinhas na região, os pesquisadores calculam que os animais flagrados podem estar até 1,5 mil quilômetros de profundidade da fonte de fotossíntese mais próxima.

“O que descobrimos foi surpreendente porque jamais esperávamos esse tipo de animal — que filtra seus alimentos da coluna de água (na superfície) — ser encontrado tão longe da fonte de alimentação e da luz do Sol”, comenta o biogeólogo Huw Griffiths, da Pesquisa Britânica na Antártida e principal autor de um artigo publicado na revista Frontiers in Marine Science. “Tudo o que sabemos sobre esses ambientes sob o gelo vem de alguns poucos buracos drenados por pesquisadores, com câmeras acopladas. Então, tudo o que sabemos sobre eles corresponde a uma área do tamanho de uma bola de tênis.”

Griffiths destaca que esse mundo sob o gelo é, provavelmente, o habitat menos conhecido da Terra. “Por isso, não sabemos o que tem por lá. Mas nós pensávamos que animais que vimos, como esponjas, não seriam encontrados nesses locais. Para mim, o mais empolgante sobre nossas descobertas é que elas levantam mais dúvidas que respostas. Não temos ideia sobre a espécie de muitos dos animais que vimos, não sabemos como lidam com essas condições extremas, e a única forma que teremos para responder a essas perguntas é encontrar uma nova forma de investigar o mundo deles.”

Água misturada

Também nos lagos da Antártida, pesquisadores, incluindo os da expedição britânica, além de cientistas do Imperial College de Londres e da Universidade de Lyon, na França, descobriram que esses ambientes podem ser mais convidativos à vida do que parecem à primeira vista. O estudo foi publicado na revista Science Advances.

Sem acesso à luz solar, os micro-organismos nesses ambientes não obtêm energia por meio da fotossíntese, mas pelo processamento de produtos químicos. Eles estão concentrados em sedimentos nos leitos dos lagos, onde a vida é considerada mais provável. Porém, para que os organismos sejam abundantes e, portanto, mais fáceis de serem detectados, a água dos lago gélidos deve ser misturada — ou seja, precisa se mover para que os sedimentos, nutrientes e oxigênio possam ser distribuídos de maneira mais uniforme.

Nos lagos da superfície da Terra, essa mistura é causada pelo vento e pelo aquecimento do Sol, causando correntes de convecção. Como nenhum desses elementos existe em lagos subglaciais, os cientistas supõem que essa mistura não ocorra. No entanto, a equipe descobriu que outra fonte de energia é suficiente para causar correntes de convecção na maioria dos lagos subglaciais: a geotérmica, que vem do interior da Terra e é gerada pela combinação do calor que sobra da formação do planeta e da decadência dos elementos radioativos.

Os pesquisadores calcularam que esse calor pode estimular correntes de convecção em lagos subglaciais que suspendem pequenas partículas de sedimento e movimentam o oxigênio, permitindo que uma parte maior do corpo d’água seja propícia à vida. “A água nos lagos isolados sob a camada de gelo da Antártida por milhões de anos não é parada e imóvel; o fluxo de água é realmente bastante dinâmico, o suficiente para fazer com que sedimentos finos fiquem suspensos”, diz o líder do estudo, Louis Couston, da Universidade de Lyon. “Com o fluxo dinâmico da água, todo o corpo d’água pode ser habitável, mesmo que mais vida permaneça concentrada no solo. Isso muda nossa apreciação de como esses habitats funcionam e como no futuro podemos planejar amostrá-los quando sua exploração ocorrer.”

As previsões dos pesquisadores poderão ser testadas em breve, já que uma equipe do Reino Unido e do Chile se prepara para explorar um lago. Amostras retiradas das profundezas mostrarão exatamente onde a vida microbiana é encontrada. As análises também poderiam ser usadas para gerar teorias sobre a vida em outras partes do Sistema Solar, explicou, em nota, o coautor Martin Siegert, do Imperial College de Londres. “Nossos olhos, agora, se voltam para prever as condições físicas em reservatórios de água líquida em luas geladas e planetas. A física das águas subglaciais é semelhante na Terra e nas luas geladas, mas o cenário geofísico é bastante diferente, o que significa que estamos trabalhando em novos modelos e teorias. Com novas missões visando luas geladas e aumentando as capacidades de computação, é um grande momento para a astrobiologia e a busca por vida fora da Terra.”

Diversidade mapeada

 (crédito: British Antarctic Survey/Divulgação)
crédito: British Antarctic Survey/Divulgação

Da Islândia aos Açores, uma equipe de cientistas marinhos a bordo do navio Sonne começou a mapear, em janeiro, a diversidade de organismos que vivem nas profundezas do Oceano Atlântico. Os 20 pesquisadores, de instituições diversas, estão recolhendo amostras a profundidades entre 4 mil e 5 mil metros com objetivo de conhecer melhor o bioma de alto-mar e estimular medidas de conservação adequadas.

O foco principal da IceDivA é estudar a distribuição de espécies de águas profundas. “Até o momento, o ecossistema do fundo do mar foi estudado menos extensivamente do que a Lua. Estou entusiasmada com a diversidade de animais marinhos, de caracóis e estrelas-do-mar, anfípodes e isópodes, que iremos encontrar, esperando algumas espécies conhecidas, mas também animais novos, ainda não descritos e não descobertos”, diz a bióloga Katrin Linse, da expedição Pesquisa Britânica na Antártida e integrante da missão científica. “O objetivo da nossa equipe é analisar as comunidades e a diversidade dos animais do fundo do mar, do norte da Islândia ao sul do Mar de Weddell, e essa expedição está preenchendo a lacuna em nosso conjunto de dados.”

Paralelamente aos estudos biológicos e à utilização de um trenó epibentônico para a coleta de amostras, a expedição leva 10 flutuadores equipados com sensores para medição de salinidade, temperatura e pressão. Eles serão lançados como um enxame em uma única posição para obter uma comparação direta inicial dos parâmetros de medição. Durante o curso da expedição, os flutuadores mergulharão repetidamente a profundidades de 2 mil metros e retornarão à superfície 48 horas depois para transmitir a um centro de dados as informações coletadas. (PO)

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