SAÚDE

Aplicação da vacina da Johnson é suspensa nos EUA por causa de coágulos

Decisão é tomada nos EUA após registro de seis casos em mulheres com 18 a 48 anos. A tecnologia usada no imunizante é a mesma da fórmula de Oxford, também suspensa em alguns países. Especialistas reafirmam que a ocorrência da complicação é rara

Paloma Oliveto
postado em 14/04/2021 06:00
Até o momento, 6,8 milhões de doses da vacina foram aplicadas no país: a expectativa é de que a investigação avance rapidamente -  (crédito: Joseph Prezioso/AFP - 4/3/21)
Até o momento, 6,8 milhões de doses da vacina foram aplicadas no país: a expectativa é de que a investigação avance rapidamente - (crédito: Joseph Prezioso/AFP - 4/3/21)

Os Centros de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos suspenderam temporariamente a aplicação da vacina da Johnson & Johnson, depois do relato de seis casos de coágulos raros associados à queda da contagem de plaquetas. As ocorrências são as mesmas que levaram alguns países a restringir o uso do imunizante da AstraZeneca/Oxford. Ambos os fabricantes utilizam a plataforma de vetor viral — um adenovírus sem potencial infeccioso é usado para levar ao organismo uma partícula parecida à da proteína que permite ao Sars-CoV-2 entrar nas células. Especialistas recomendam o monitoramento desse efeito colateral, mas alertam que o número de casos é extremamente baixo perto da quantidade de doses já aplicadas.

“Eu gostaria de enfatizar que esses eventos parecem ser extremamente raros”, disse, em uma coletiva de imprensa, Janet Woodcock, comissária interina da Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora norte-americana. Até agora, foram administradas 6,8 milhões de doses da vacina nos EUA. “No entanto a segurança da vacina covid-19 é uma prioridade para o governo federal, e levamos muito a sério todas as notificações de eventos adversos após a vacinação”. Segundo Woodcock, a investigação avançará rapidamente e pode ser concluída em dias.

Em resposta, a Johnson & Johnson divulgou um comunicado afirmando que decidiu adiar o lançamento da vacina na Europa. “Estamos cientes de um distúrbio extremamente raro envolvendo pessoas com coágulos sanguíneos em combinação com plaquetas baixas em um pequeno número de indivíduos que receberam nossa vacina”, diz o texto. Os seis casos são de mulheres com idade entre 18 e 48 anos. Uma delas morreu e outra encontra-se em estado grave. O perfil é semelhante ao dos 86 pacientes que sofreram de trombose cerebral venosa seguida de trombocitopenia (contagem baixa de plaquetas) após tomarem a vacina da AstraZeneca/Oxford: maioria de mulheres com menos de 60 anos.

“O número de casos é, mais uma vez, muito pequeno, mas a combinação de trombose grave com trombocitopenia é característica dos casos relatados anteriormente”, diz Adam Finn, pesquisador da Universidade de Bristol, na Inglaterra. “Embora seja muito cedo para tirar conclusões firmes, esses resultados levantam a possibilidade de que pelo menos alguns vetores de adenovírus sozinhos ou em combinação com o gene da proteína spike Sars-CoV-2 possam causar essa reação idiossincrática em uma proporção muito pequena de indivíduos”, afirma. “Dada a importância dessas vacinas para o controle oportuno da pandemia, a investigação desse fenômeno é, agora, uma prioridade internacional extremamente urgente.”

Segundo o imunologista Peter English, ex-editor da revista especializada Vaccines in Practice Magazine, os órgãos regulatórios, tanto dos EUA quanto da Europa, tentam, agora, estimar quantos dos casos de coágulos raros com trombocitopenia seriam esperados por acaso, o que poderá apontar para o risco real — “se houver”, destaca — da vacinação. “Mesmo se todos os casos fossem causados pela vacina, o risco de menos de 1 caso em um milhão teria que ser comparado aos benefícios da proteção contra a covid-19, uma doença que, por si só, causa coagulação em muitos casos.” English está preocupado com o impacto sobre a opinião pública. “O pedido de uma pausa pode prejudicar a confiança na vacinação. Devemos esperar que, se isso acontecer, seja temporário.”

Reação autoimune

Os mecanismos por trás dos casos de coágulos raros e trombocitopenia estão sendo estudados, e, na semana passada, um artigo publicado on-line na revista The Lancet indicou que os eventos relatados são semelhantes ao que ocorre com uma condição chamada trombocitopenia induzida por heparina, uma reação autoimune que ocorre em algumas pessoas que recebem o medicamento anticoagulante. O líder do estudo, Andreas Greinacher, da Universidade de Greifswald, na Alemanha, já havia apresentado a pesquisa em março, durante uma coletiva de imprensa. De acordo com ele, se for confirmado que a reação à vacina segue na mesma linha da trombocitopenia autoimune, essa é uma boa notícia. “Nós sabemos o que fazer: como diagnosticar e como tratá-la”, afirmou.

Para Peter English, porém, o trabalho alemão não deixa muitas respostas sobre a possível associação de vacinas de vetor viral e queda na contagem de plaquetas. “Ele fornece apenas a mais fraca das evidências. A maneira de saber se há uma relação causal é demonstrar um excesso de tais eventos em pacientes vacinados recentemente. Esse artigo não foi desenvolvido para fazer isso. Até onde posso ver, o artigo não fornece nenhuma evidência de um vínculo causal”, justifica.

 

 

 

 

Resposta imune prolongada

A formação de coágulos sanguíneos é uma preocupação em pacientes que já se recuperaram da covid-19, especialmente aqueles com doenças cardiovasculares preexistentes. Agora, um estudo da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura, sugere que o problema ocorre devido a uma resposta imunológica prolongada e hiperativa à infecção.

Em alguns casos, esses pacientes apresentam risco aumentado de ataque cardíaco, derrame ou falência de órgãos — isso ocorre quando os coágulos sanguíneos bloqueiam as artérias principais de órgãos vitais. Liderada por Christine Cheung, a equipe coletou e analisou amostras de sangue de pacientes um mês após terem se recuperado da infecção e recebido alta do hospital.

Os pesquisadores descobriram que todos os participantes do estudo tinham sinais de danos nos vasos sanguíneos, possivelmente devido a uma resposta imunológica persistente, que pode desencadear a formação de coágulos sanguíneos. A descoberta foi publicada na revista eLife.

Os pacientes recuperados tinham o dobro do número normal de células endoteliais circulantes (CECs) que haviam sido eliminadas das paredes dos vasos sanguíneos danificados. Os níveis elevados de CECs indicam que a lesão ainda é aparente após a recuperação da infecção viral. Os pesquisadores também descobriram que essas pessoas continuaram a produzir altos níveis de citocinas — proteínas fabricadas por células de defesa que ativam a resposta imunológica contra patógenos — mesmo na ausência do vírus.

Células T

Um número excepcionalmente alto de células do sistema imunológico, conhecidas como células T, que atacam e destroem os vírus, também estava presente no sangue de pacientes com covid-19 recuperados. A presença de citocinas e níveis mais elevados de células imunológicas sugerem que o sistema imune permaneceu ativado mesmo depois que o vírus foi eliminado.

Os pesquisadores levantam a hipótese de que essas respostas imunológicas persistentemente ativadas podem atacar os vasos sanguíneos de pacientes de covid-19 recuperados, causando ainda mais danos e aumentando o risco de formação de coágulos sanguíneos.

 

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