90%

Vacina Novavax é eficiente contra as novas variantes do coronavírus

Aplicada em quase 30 mil voluntários, fórmula da americana Novavax protege contra boa parte das variantes do Sars-CoV-2. Estudo britânico mostra que receber as duas doses de imunizantes aprovados evita internação por covid-19 causada por cepa descoberta na Índia

Vilhena Soares
postado em 15/06/2021 06:00 / atualizado em 15/06/2021 07:29
 (crédito: Karen Ducey/AFP)
(crédito: Karen Ducey/AFP)

A vacina da covid-19 desenvolvida pelo laboratório americano Novavax apresenta eficácia geral de 90%, com resultados positivos contra as novas variantes do coronavírus, incluindo a identificada, pela primeira vez, no Brasil. Os dados foram obtidos em um estudo feito com quase 30 mil participantes, segundo os desenvolvedores do fármaco, que ainda não realizaram um pedido às autoridades brasileiras para o uso emergencial do medicamento. Ontem também, uma pesquisa britânica mostrou que a aplicação completa (duas doses) dos imunizantes desenvolvidos pela Pfizer e pela AstraZeneca protege contra uma possível hospitalização desencadeada pela variante Delta do Sars-CoV-2, identificada, inicialmente, na Índia.

Os testes de eficácia do imunizante NVX-CoV2373 reuniram dados de 29.960 indivíduos, de 119 localidades do México e dos Estados Unidos. A cada dois voluntários que receberam o fármaco, um tomou placebo. Os pesquisadores registraram 77 casos da doença, sendo 63 em integrantes do grupo que não recebeu o imunizante. Os 14 vacinados que foram infectados desenvolveram sintomas leves da covid-19. Já todos os casos moderados (10) e graves (quatro) da doença foram registrados em quem recebeu o placebo. “Nossos resultados mostraram uma proteção de 100% contra doenças moderadas e graves e uma eficácia, em geral, de 90,4%”, informa um comunicado da empresa.

O imunizante também apresentou 91% de eficácia nas populações de alto risco: indivíduos com 65 anos ou mais e portadores de comorbidades. De acordo com a Novavax, foram registrados 75 casos de covid-19 nesse público (62 do grupo placebo e 13 imunizados). A análise mostrou ainda que o fármaco protetivo é 93% eficaz contra novas variantes do vírus — as cepas Alfa, Beta e Gama, registradas, pela primeira vez, no Reino Unido, na África do Sul e no Brasil, respectivamente. A cepa Delta, vista inicialmente na Índia, não estava em circulação no período em que o trabalho científico foi conduzido.

Diferentemente de outras fórmulas, a vacina da Novavax produz anticorpos com o uso de uma proteína, purificada em laboratório, presente na membrana do novo coronavírus. Outros imunizantes, como os de RNA mensageiro, estimulam as células humanas a produzirem justamente essa proteína. Outra vantagem do NVX-CoV2373 é o armazenamento em geladeiras comuns (entre 2°C e 8°C).

A empresa pretende solicitar a aprovação regulatória nos EUA até o terceiro trimestre deste ano e fabricar, mensalmente, 100 milhões de doses até o fim de setembro. Depois, 150 milhões de doses por mês até dezembro. “A Novavax continua trabalhando com um senso de urgência para completar nossas solicitações de autorização regulatória e oferecer essa vacina, construída sobre uma plataforma bem conhecida e comprovada, para um mundo que ainda tem uma grande necessidade de vacinas”, enfatiza, em comunicado, Stanley Erck, CEO da empresa.

Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), destaca que o fármaco é o primeiro contra a covid-19 que tem uma base proteica. “Essa é uma plataforma muito segura, usada em outros tipos de vacinas, como a do HPV e a da hepatite B. Os efeitos colaterais são poucos e a proteção gerada é alta”, detalha. Para o médico, os resultados obtidos contra as novas variantes devem ser comemorados, mas as avaliações não podem parar. “É necessário realizar mais estudos para confirmá-los. Era algo que até esperávamos, já que estamos vendo a eficiência de outros imunizantes contra essas cepas novas. Porém, é necessário se manter alerta e ficar de olho nos estudos feitos durante a aplicação no mundo real”, justifica.

Delta

Para os imunizantes já aprovados, cumprir o regime de proteção imprescindível para evitar a infecção por uma das cepas mais transmissíveis do coronavírus, alerta um novo estudo britânico. A pesquisa mostra que receber as duas doses das vacinas Pfizer/BioNTech ou AstraZeneca/Oxford gera alta proteção contra hospitalização em decorrência da infecção pela variante Delta: 96% e 92%, respectivamente.
Conduzido pela Public Health England (PHE), o levantamento foi feito com dados, colhidos entre 12 de abril e 4 de junho, de 14.019 pessoas infectadas pela nova variante — dessas, 166 foram hospitalizadas. Os resultados são “comparáveis à eficácia da vacina na prevenção da hospitalização relacionada com a variante Alfa”, identificada, em dezembro, na Inglaterra. “Isso prova como é crucial se vacinar pela segunda vez”, afirma o ministro da Saúde, Matt Hancock. Mary Ramsay, especialista do PHE e uma das autoras do trabalho, concorda: “É absolutamente fundamental receber as duas doses o mais rápido possível para obter a proteção máxima contra todas as variantes existentes e emergentes”.

Segundo Renato Kfouri, os dados são muito animadores e entram em concordância com o que especialistas observam. “O mais importante é que todas as vacinas têm protegido contra a forma mais grave da doença em relação a todas as novas variantes. Felizmente, ainda não tivemos um caso de fuga da imunidade total, mas precisamos nos manter de olho para saber lidar com isso caso aconteça.”

O especialista brasileiro também enfatiza que os resultados evidenciam a importância de tomar a segunda dose das vacinas. “No Brasil, estamos tendo dificuldade com isso, muito provavelmente porque temos como tradição o uso de imunizantes de dose única, como a da gripe, o da sarampo e o da febre amarela. Estamos trabalhando agora com algo novo”, avisa. “É importante deixar claro para a população que apenas uma dose não dá a eficiência prometida. A segunda dose não é uma opção. Você só está protegido após todo o processo.”

96%
É a proteção contra internação devido à infecção pela variante Delta quando se recebe as duas doses da vacina Pfizer

92%
É a proteção contra internação devido à infecção pela variante Delta quando se recebe as duas doses da vacina AstraZeneca

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