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Vacina contra cólera feita com arroz apresenta bons resultados

Em ensaio clínico com 60 voluntários, fórmula desenvolvida no Japão produz anticorpos contra a doença e não gera efeitos colaterais. Imunizante tem como base o cereal geneticamente modificado e, diferentemente dos atuais, não precisa de refrigeração

Correio Braziliense
postado em 26/06/2021 06:00
Imunização no Iraque: as quatro vacinas disponíveis são ministradas por meio de gotas na língua e feitas de bactéria mortas ou atenuadas -  (crédito: Haidar Mohammed Ali/AFP - 1/11/15 )
Imunização no Iraque: as quatro vacinas disponíveis são ministradas por meio de gotas na língua e feitas de bactéria mortas ou atenuadas - (crédito: Haidar Mohammed Ali/AFP - 1/11/15 )

Uma nova vacina para proteger contra a cólera foi desenvolvida por meio de grãos de arroz geneticamente modificados. O primeiro teste em humanos não mostrou efeitos colaterais e apontou uma boa resposta imunológica. A pesquisa, realizada por cientistas da Universidade de Tóquio e da Universidade de Chiba, ambas no Japão, foi publicada na revista Lancet Microbe.

Causada pela bactéria Vibrio cholerae, a cólera normalmente é transmitida pela água e pode ser fatal caso não seja tratada imediatamente. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), todos os anos, são registrados de 1,4 milhão a 4,3 milhões de casos da doença, com até 142 mil mortes. “Estou muito otimista com o futuro da nossa vacina MucoRice-CTB. Os participantes responderam nas doses baixas, médias e altas, com a maior resposta imunológica nas dosagens mais altas”, disse Hiroshi Kiyono, do Instituto de Ciências Médicas da Universidade de Tóquio, que lidera o projeto MucoRice.

Trinta voluntários tomaram placebo e três grupos, de 10 voluntários cada um, receberam um total de quatro doses, espaçadas a cada duas semanas, de 3mg, 6mg ou 18mg da vacina. Testes realizados dois e quatro meses após a última injeção revelaram que os voluntários que responderam à vacina tinham anticorpos IgA e IgG — dois tipos de proteínas que o sistema imunológico produz para combater infecções — específicos para a toxina B da cólera (CTB). Os participantes que receberam a dose mais alta eram mais propensos a ter anticorpos específicos para CTB. Um conselho de revisão independente não encontrou evidências de efeitos colaterais significativos.

Existem, atualmente, quatro vacinas para a cólera, todas ministradas por meio de gotas na língua. Mas elas requerem armazenamento refrigerado e são feitas de células de cólera inteiras mortas ou vivas atenuadas (enfraquecidas). Os cuidados dificultam o acesso e os esquemas de vacinação, especialmente em países em desenvolvimento e nas zonas rurais. O novo imunizante, por sua vez, é cultivado em plantas de arroz geneticamente modificadas, que produzem uma porção não tóxica do CTB. A estrutura do patógeno é semelhante a uma toxina produzida por alguns tipos de bactérias E. coli, causadoras de doenças. Portanto, as vacinas contra a cólera costumam fornecer proteção cruzada contra a chamada diarreia dos viajantes.

Plantação controlada

Os pesquisadores cultivam as plantas em uma fazenda hidropônica construída para esse fim, que atende aos padrões de boas práticas de fabricação de medicamentos estabelecidos pela OMS, o que garante que a vacina permaneça sem contaminação e que as plantas sejam isoladas do ambiente natural. Os vegetais produzem a subunidade CTB em suas sementes — os grãos comestíveis de arroz — e armazenam os antígenos em gotículas chamadas corpos proteicos, com membranas feitas de gordura. “Os corpos das proteínas do arroz se comportam como uma cápsula natural para levar o antígeno ao sistema imunológico do intestino”, afirmou Kiyono.

Outros medicamentos já foram cultivados em plantas, mais frequentemente nas folhas — incluindo tratamentos para ebola, linfoma e gripe —, mas os remédios devem ser extraídos e purificados antes de serem usados. A vacina à base de grãos do sistema MucoRice evita essas etapas extras, dispensa a necessidade de armazenamento refrigerado e protege os antígenos conforme eles viajam através do ácido estomacal.

Quando as plantas estão maduras, o arroz é colhido e triturado em um pó fino. Depois, é selado em pacotes de alumínio para armazenamento. Quando as pessoas estão prontas para serem vacinadas, o pó é misturado com cerca de 90ml (1/3 de xícara de chá) de líquido e, depois, ingerido. Os pesquisadores testaram a vacina apenas com soro fisiológico (uma solução salina equivalente aos fluidos corporais), mas esperam que funcione igualmente bem com água pura.

“A parte bonita de nossa vacina é que ela usa, sabiamente, o sistema imunológico da mucosa do corpo, através do intestino, para a indução de anticorpos específicos para o antígeno”, disse Kiyono. Ele explica que a substância entra no organismo por meio das membranas intestinais. A estimulação das defesas produz duas classes de anticorpos, IgG e IgA, que identificam os germes e os direcionam para a remoção da ameaça. As vacinas injetadas sob a pele ou no músculo geralmente aumentam apenas os anticorpos IgG, não IgA.

Microflora intestinal

Os voluntários que responderam ao MucoRice-CTB tiveram os níveis sanguíneos de IgG e IgA específicos para o antígeno mais elevados após oito a 16 semanas. No entanto, 11 dos 30 que receberam a vacina mostraram baixa ou nenhuma resposta imunológica mensurável. Como todos eles relataram nunca ter viajado para fora do Japão, é improvável que tivessem tido qualquer exposição anterior ou imunidade natural ao V. cholerae ou à E. coli patogênica.

“Quando vimos esses dados sobre os 11 pacientes com baixa resposta, pensamos que, talvez, a microflora intestinal tenha uma influência no resultado da resposta imunológica”, relatou Kiyono. A microflora é a comunidade de micro-organismos que vivem em nosso corpo e nos beneficiam ou são inofensivos. É bem-aceito que a microflora do sistema digestivo influencia a saúde e a imunidade, mas os cientistas estão apenas começando a entender os mecanismos precisos dessa relação.

A análise genética extensiva de todas as amostras fecais de voluntários identificou as milhares de espécies bacterianas que vivem nos intestinos dos voluntários. “Em termos simplificados, os respondedores altos tinham microflora mais diversificada e, no grupo de respondentes baixos, a diversidade era muito mais restrita”, disse Kiyono.

Os pesquisadores advertem que o estudo de fase 1 foi pequeno e pouco diverso do ponto de vista populacional. No entanto, os resultados sugerem um importante papel da microflora na eficácia da vacina. “É tudo especulação agora, mas, talvez, a maior diversidade do microbioma crie uma situação melhor para uma forte resposta imunológica contra a vacina oral”, disse Kiyono. Por enquanto, os pesquisadores planejam trabalhar com parceiros da indústria farmacêutica para levar o MucoRice-CTB à próxima fase de testes clínicos no Japão e no exterior.

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