PANDEMIA

Infectados pelo Sars-Cov-2, entre 5 e 17 anos, têm menos risco de ter covid prolongada

Ao analisar quase 7 mil pacientes nessa faixa etária, cientistas não detectam casos cujos sinais da doença duraram mais de quatro meses

Paloma Oliveto
postado em 04/08/2021 06:00
 (crédito: Josep Lago/AFP)
(crédito: Josep Lago/AFP)

Os sintomas da infecção por Sars-CoV-2 são menos comuns e têm duração mais curta em crianças e adolescentes de 5 a 17 anos, segundo um estudo publicado, ontem, na revista The Lancet Child and Adolescent Health. A pesquisa constatou que, em pacientes dessa faixa etária, a cura ocorre, em média, em uma semana. Menos de um em cada 20 sintomáticos apresentou sinais da doença dentro de um mês e, em oito semanas, todos estavam completamente recuperados. Em adultos, estudos indicam que até 80% dos que testam positivo para o vírus sofrem com a forma prolongada da covid-19.

Para o estudo, pesquisadores do King’s College de Londres analisaram relatórios diários de saúde registrados por pais e responsáveis de crianças em um aplicativo chamado Zoe Covid Symptom Study. O app foi desenvolvido para a realização de pesquisas sobre a duração dos sintomas da covid-19. No intervalo entre março de 2020 e fevereiro de 2021, foram incluídos dados de 250 mil pessoas de 5 a 17 anos, sendo que, dessas, quase 7 mil tiveram covid, o que foi comprovado pela associação dos sintomas consistentes e pelo teste positivo para o vírus.

Somente 4,4% (1.734) apresentaram sintomas por quatro semanas, enquanto que, em 1,8% dos casos, as manifestações da doença chegaram a dois meses. Em média, os sintomáticos sofreram seis ocorrências diferentes da covid na primeira semana e cerca de oito na duração total da doença. Diferentemente dos estudos realizados com adultos, não houve relatos de sequelas neurológicas graves, como ataques ou convulsões, diminuição da concentração ou ansiedade.

De acordo com o estudo, adolescentes ficaram doentes por mais tempo do que as crianças pequenas — a duração média da covid foi de sete dias naqueles com 12 a 17 anos, e de cinco dias nos pacientes de 5 a 11. Os mais velhos também foram mais propensos a apresentar sintomas após quatro semanas (5,1% contra 3,1% no caso dos menores). Não houve, porém, diferença significativa no número de pessoas sintomáticas após oito semanas (2% dos adolescentes e 1,3% das crianças).

“Nós sabemos, por outros estudos, que muitas crianças que contraem o Sars-CoV-2 não apresentam nenhum sintoma; e será reconfortante para as famílias saberem que é improvável que aquelas que adoecem com covid-19 sofrerão efeitos prolongados”, comenta Emma Duncan, professora de endocrinologia clínica do King’s College. “No entanto, nossa pesquisa confirma que um pequeno número tem a doença de longa duração, embora essas crianças também, geralmente, se recuperem com o tempo. Esperamos que nossos resultados sejam úteis para médicos, pais e escolas que cuidam dessas crianças — e, claro, para as próprias crianças afetadas.”

O sintoma mais comum e mais persistente relatado por pais e responsáveis de crianças com a covid de longa duração foi a fadiga (84%). Dor de cabeça e perda do olfato também foram comuns (77,9%). A cefaleia era mais vivenciada no início da infecção, enquanto a anosmia tendia a ocorrer mais tarde e persistir por mais tempo.

Gripes e resfriados

Os pesquisadores também avaliaram as crianças com teste negativo para covid-19, mas que, devido aos sintomas, podem ter tido outras doenças comuns na infância, como resfriados e gripes. Para tanto, eles selecionaram aleatoriamente um grupo de participantes da mesma faixa etária com manifestações semelhantes às descritas pelos pacientes, porém não infectadas pelo Sars-CoV-2.

Ao comparar os grupos, observou-se que as crianças com covid-19 ficaram doentes por mais tempo, comparado às que testaram negativo e tinham outros tipos de infecção (média de seis e três dias, respectivamente). Além disso, as com PCR positivo apresentaram probabilidade maior de adoecerem por mais de quatro semanas (4,4% contra 0,9%). No entanto, passado esse período, o pequeno número de participantes com outras doenças infecciosas passou a apresentar mais sintomas que as com covid (cinco e dois sintomas, respectivamente).

“Essa pesquisa ressalta que outras doenças infecciosas, como resfriados e gripes, também podem levar ao desenvolvimento de sintomas prolongados em crianças, e é importante considerar isso ao planejar os serviços de saúde pediátrica durante a pandemia e depois dela”, observa Michael Absoud, autor sênior do estudo e professor do Kings’s College de Londres. “Isso será particularmente importante, dado que a prevalência dessas doenças tende a aumentar quando as medidas de distanciamento físico implementadas para prevenir a disseminação de covid-19 são relaxadas”, diz.

Os autores observam, porém, que não puderam comparar os sintomas relatados pelos pais e responsáveis com os registros de saúde dessas crianças, podendo “haver inconsistências na maneira como as pessoas interpretam os sintomas em nome de seus filhos”. Caroline Relton, professora de epidemiologia epigenética da Universidade de Bristol, na Inglaterra, que não participou dessa pesquisa, observa que estudos sobre covid prolongada em crianças ainda têm limitações por falta da própria compreensão sobre essa condição.

“Não se sabe quantas crianças têm ou desenvolverão covid por muito tempo. Até o momento, os estudos que tentaram medir isso sugerem que é raro. No entanto, a falta de compreensão clínica da covid longa, incluindo nenhuma definição acordada, torna isso difícil”, opina.

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