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Cientistas apontam a necessidade de novos cuidados com os prematuros

Abordagens que deixam os procedimentos nas UTIs neonatais menos dolorosas e que indicam um risco maior de comprometimentos sociais e cognitivos estão entre as estratégias estudadas por cientistas para melhorar o bem-estar de bebês nascidos antes do tempo

Vilhena Soares
postado em 05/09/2021 06:00
Presença da mãe nas intervenções médicas é bom para o bebê, sinaliza estudo suíço -  (crédito: HANNAH MCKAY)
Presença da mãe nas intervenções médicas é bom para o bebê, sinaliza estudo suíço - (crédito: HANNAH MCKAY)

O parto prematuro é comum nas maternidades, o que faz com que os profissionais de saúde o conduzam sem grandes dificuldades. Ainda assim, o nascimento precoce pode gerar transtornos aos recém-nascidos, que não estão completamente fortalecidos para a nova fase da vida. Pesquisadores internacionais buscam alternativas para proteger esses bebês e impedir problemas mais graves durante o seu desenvolvimento. Biomarcadores cerebrais que podem ajudar a prever complicações psicossociais e um teste que indica a possibilidade de nascimento antes do prazo normal são algumas das ferramentas criadas com esse objetivo, assim como a busca por tratamentos para deixar os exames pediátricos menos dolorosos.

Um bebê que nasce prematuramente muitas vezes precisa ser levado a uma unidade de tratamento intensivo (UTI), onde é submetido a procedimentos médicos regulares. Especialistas suíços decidiram investigar uma abordagem capaz de aliviar incômodos durante esses exames sem a prescrição de medicamentos. “O uso de muitos analgésicos pode prejudicar o desenvolvimento infantil. Então, como podemos ajudá-los de outra forma? Resolvemos apostar na presença e, principalmente, na voz da mãe”, relata, em comunicado, Didier Grandjean, professor do Centro Suíço de Ciências Afetivas da Universidade de Genebra, na Suíça, e autor de um estudo sobre o trabalho, publicado recentemente na revista Scientific Reports.

No experimento, Grandjean e sua equipe acompanharam 20 bebês prematuros durante três dias, no ambiente hospitalar. As mães foram orientadas a permanecerem perto dos filhos durante a coleta diária de sangue, feita com a extração de algumas gotas do calcanhar. Também tinham que falar com os bebês ou cantar para eles durante os procedimentos.

Por meio de análises do batimento cardíaco, expressões faciais e outros parâmetros fisiológicos, os investigadores avaliaram o nível de dor nas crianças e descobriram que a voz das mães aliviou o sofrimento delas. “Quando a mãe falava com o bebê no momento da intervenção médica, os sinais físicos mostravam uma diminuição da dor. Também registramos um nível alto de ocitocina, hormônio que está relacionado a um melhor controle da dor”, detalha Manuela Filippa, também pesquisadora da instituição suíça.

Segundo Marcos Guimarães, coordenador médico das UTIs Neonatal e Pediátrica do Hospital Santa Marta, em Brasília, os dados refletem a realidade dos atendimentos em maternidades. “É muito interessante ver como apenas a voz das mães já auxilia os bebês, e faz sentido com o que observamos logo após o parto. Assim que nasce, a criança para de chorar quase que instantaneamente após ser posta junto à mãe”, afirma.

Guimarães conta que esse mesmo tipo de análise tem sido feito na instituição em que trabalha, onde também já se percebeu como a música ambiente pode acalmar os bebês — fenômeno observado em outros estudos internacionais. “Nós utilizamos medicamentos, mas temos tentado também manter a mãe o mais perto possível do bebê, seja no colo, seja durante uma coleta de sangue”, diz o médico. “Quanto ao uso da música, os resultados dessa análise serão publicados futuramente, mas já podemos adiantar que vimos benefícios aos bebês com esse tipo de intervenção.”

Até os 7 anos

Além do longo tratamento médico, bebês prematuros podem enfrentar problemas neurológicos cujos desdobramentos merecem atenção. “Cerca de 10% de todos os nascimentos são prematuros, e todas essas crianças correm um risco maior de desenvolver problemas sociais e emocionais”, afirma Chiara Nosarti, pesquisadora de neurodesenvolvimento e saúde mental da Universidade Kings College London, no Reino Unido.

Em busca de ferramentas que ajudem a identificar precocemente esse tipo de problema, Nosarti e sua equipe acompanharam o desenvolvimento cerebral de 151 crianças com 4 a 7 anos — todas haviam nascido prematuramente. Elas foram submetidas a exames de ressonância magnética e testes de habilidades emocionais e sociais. As análises mostraram que aquelas com um desenvolvimento mais lento do fascículo uncinado — uma “peça” do cérebro que conecta regiões envolvidas na regulação emocional — demonstraram deficits sociais na pré-escola.

Os investigadores avaliam que análises com um número maior de participantes são necessárias para validar os dados obtidos e acreditam que estão no caminho certo. “Atualmente, não há uma maneira clara de identificar quais as crianças que desenvolvem deficiências. Encontrar um biomarcador com essa tarefa permite que as mais suscetíveis recebam apoio e as intervenções de que precisam mais cedo”, afirma Nosarti.

Canções de ninar personalizadas

Pesquisadores do Centro Médico Beth Israel, nos EUA, pediram para que musicoterapeutas ajudassem pais a transformarem suas músicas favoritas em canções de ninar. Em seguida, colocaram as composições de fundo musical para 30 crianças nascidas antes da hora e assistidas em UTIs de 11 hospitais. As análises, divulgadas na revista Pediatrics, indicam que a música ajudou a desacelerar os batimentos cardíacos dos bebês, acalmar a respiração e gerou melhoras no sono e em comportamentos relacionados à alimentação, como a sucção de líquidos.

Palavra de especialista

Opções ainda limitadas

“Essa busca por marcadores biológicos que ajudem a identificar precocemente problemas médicos já na primeira infância é muito relevante, pois eles podem nos ajudar a evitar problemas mais graves principalmente em grupos mais suscetíveis, como os prematuros. Hoje, o que temos de parecido com isso são exames de ecografia, em que conseguimos identificar hemorragias cerebrais, mas isso ainda é muito pouco. Também temos um tipo de calculadora que, por meio dos fatores de risco, aponta os riscos de uma mãe ter um parto prematuro, mas os resultados não são muito exatos. Todo o investimento feito nessa área é importante, pois essas novas ferramentas podem nos auxiliar a tratar melhor esses bebês.”

Marta Rocha, neonatologista do Hospital Santa Lúcia, de Brasília, e diretora da Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências e Saúde.

 

Prevenção antes do parto

A intenção de um grupo de cientistas dos EUA é começar a prevenção às consequências da prematuridade antes mesmo do nascimento das crianças. “Se soubermos que a mãe corre o risco de ter um parto antes do tempo normal, o médico pode monitorá-la mais de perto e evitar complicações”, afirma, em um comunicado, Hanne Hoffmann, professora da Universidade de Michigan.

Na pesquisa publicada no Journal Biology of Reproduction, a cientista e sua equipe avaliaram amostras sanguíneas de 157 grávidas saudáveis sem histórico de partos prematuros — sendo que 51, ao longo do estudo, deram à luz antes do previsto. As análises indicaram que, durante o segundo trimestre da gravidez, grande parte do grupo de mães com partos prematuros demonstrou níveis mais baixos de mRNA dos genes CRY2 e CLOCK, que são algumas das estruturas genéticas responsáveis pela regulação do relógio biológico de grande parte das células humanas.

Os cientistas acreditam que esses níveis mais baixos de mRNA podem estar relacionados a riscos maiores de nascimento prematuro. Dessa forma, exames de sangue capazes de identificar essas alterações poderiam ser inseridos facilmente no pré-natal. Os pesquisadores também estão interessados em avaliar melhor outros genes relacionados ao relógio circadiano, pois suspeitam que muitos deles podem indicar outras complicações da gravidez, como pré-eclâmpsia e diabetes gestacional.

Mais estudos

Renata de Souza Reis, ginecologista e obstetra da clínica Luz do Candeeiro, em Brasília, avalia que o estudo é voltado para um tema pouco explorado cientificamente e que, por isso, merece mais investigações. “Ainda serão necessários mais estudos, com maior quantidade de análises, para se estabelecer a relevância clínica dessas descobertas”, justifica.

Para a médica, enquanto não existe um exame que ajude a prever os riscos de um parto prematuro, é necessário prestar atenção a fatores de risco já conhecidos. “Histórico de partos anteriores, uso de álcool, de tabaco e de outras drogas são alguns dos fatores que podem contribuir para o nascimento precoce”, lista. “Por enquanto, é na identificação e no manejo adequado desses fatores que os profissionais que prestam assistência a mulheres grávidas devem concentrar seus esforços”, defende.

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