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Boris Johnson na COP26: Falta um minuto para a meia-noite do relógio do juízo final

Anfitrião da COP26, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, pede aos colegas que se empenhem para que a conferência não fracasse e usem s recursos para desativar o "relógio da marcação do fim do mundo"

Paloma Oliveto
postado em 02/11/2021 06:00
O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, anfitrião da COP26, pediu aos colegas que não deixem a conferência fracassar -  (crédito:  AFP)
O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, anfitrião da COP26, pediu aos colegas que não deixem a conferência fracassar - (crédito: AFP)

Com um discurso duro endereçado a líderes de mais de 120 países, o secretário executivo da Organização das Nações Unidas (ONU) abriu a reunião de cúpula da COP26 afirmando que os governantes têm como missão "salvar o planeta". Na semana que antecede as negociações decisivas do evento, António Gutérres afirmou que a humanidade está "cavando a própria cova". "Chega de nos matarmos com o carbono, chega de tratar a natureza como lixo", afirmou, no primeiro dia de trabalhos da conferência climática.

A abertura da reunião de cúpula ocorreu um dia depois de a Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgar mais um relatório destacando recordes de extremos climáticos em 2021. No domingo, o órgão da ONU publicou um documento, o Estado do Clima 2021, com o registro detalhado de fenômenos como as ondas de calor excepcionais no Hemisfério Norte, acompanhadas de incêndios, a seca e as inundações na porção sul do planeta. Os últimos sete anos foram os mais quentes desde que se começou a registrar a temperatura global, aponta a OMM.

"Como cientista que estuda principalmente enchentes e ondas de calor, acredito que 2021 deve se destacar como uma espécie de annus horribilis", afirma Hannah Cloke, professora de hidrologia na Universidade de Reading, na Inglaterra. "As inundações devastadoras na Europa, China e América do Sul, e as ondas de calor e os incêndios assassinos na América do Norte e no sul da Europa, por exemplo, deveriam servir para estimular uma ação mais rápida para adaptar a sociedade à realidade de um clima em mudança. Só espero que, nos próximos dias, em Glasgow, esses fatos, que resumem o destino de milhões de pessoas, estejam em primeiro lugar nas mentes dos líderes políticos mundiais."

Segundo maior emissor de CO2, atrás apenas da China, os Estados Unidos prometeram que serão "o exemplo" para as outras nações. O país havia se retirado do Acordo de Paris na administração Donald Trump e, agora, com Joe Biden, quer mostrar empenho na liderança da luta contra as mudanças climáticas. "Vamos demonstrar ao mundo que os EUA não só estão de volta à mesa, mas também liderando pelo poder de nosso exemplo", disse o presidente norte-americano, em seu discurso. "Eu sei que não foi o caso (na era Trump), e é por isso que meu governo está trabalhando horas extras para mostrar que nosso compromisso com o clima é a ação, não as palavras."

Considerado por especialistas em políticas climáticas o protagonista da COP26, Biden chegou a Glasgow com o discurso afiado, mas abalado pelo Congresso. A oposição o fez deixar de lado um programa ambicioso de substituição da matriz energética que recompensaria empresas que migrassem dos combustíveis fósseis e puniria as que não o fizessem. Em contrapartida, apresentou um projeto de lei destinando US$ 555 bilhões em incentivos fiscais para empresas que adotem energia limpa.

Em seu discurso, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, anfitrião da COP26, pediu aos colegas que não deixem a conferência fracassar. "A raiva e a impaciência do mundo serão incontroláveis, a menos que façamos desta COP26 o momento em que abordamos seriamente a mudança climática", afirmou. "Falta um minuto para a meia-noite do relógio do juízo final, e precisamos agir agora (...) Temos a tecnologia para desativar esse dispositivo de marcação do fim do mundo."

Ausências

Além do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que está na Europa, mas não foi a Glasgow, a reunião de cúpula começou desfalcada, com a ausência do maior emissor mundial: o presidente chinês Xi Jiping não foi ao evento. O governante mandou uma mensagem por escrito, pedindo aos países desenvolvidos que "forneçam apoio para ajudar os em desenvolvimento a enfrentar a crise climática". Na semana passada, Pequim enviou à ONU seus compromissos nacionalmente determinados (NDCs), a lista com as tarefas de casa que os signatários do Acordo de Paris se dispõe a fazer para evitar que os termômetros subam mais que 2°C acima dos níveis pré-industriais. O documento decepcionou quem esperava metas explícitas, o que não aconteceu. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, e seu colega da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, também não participaram da reunião.

Se a primeira semana da COP é marcada por discursos, reuniões regionais, fóruns de debates e eventos paralelos, na próxima, os delegados dos 196 signatários do Acordo de Paris se desdobrarão para avançar com o documento de 2015, que visa limitar, até o fim do século, o aquecimento a 2°C e, se possível, até 1,5°C. Para se atingir esse objetivo, é preciso cortar as emissões de gases de efeito estufa, mas o mundo está na contramão, segundo relatórios científicos divulgados pela ONU. Houve recorde de emissões no ano passado e, se a tendência for mantida, o aumento da temperatura chegará a 2,7°C.

De acordo com a OMM, as atividades humanas produzem mais de 50 gigatoneladas anuais de gases de efeito estufa (uma gigatonelada representa um bilhão de toneladas). "Nossos estudos indicam que acontecerá um aumento de emissões de 16% em 2030, quando deveríamos registrar uma redução de 45%", disse a secretária executiva do organismo da ONU para a mudança climática, a mexicana Patricia Espinosa, citada pela agência France-Presse (AFP) de notícias. "Realmente, é preciso que os líderes globais aumentem a ambição coletiva, não podem deixar de agir ainda nesta década", ressalta a especialista em políticas climáticas do Observatório do Clima Stela Herschmann.

Carbono

Ontem, o primeiro-ministro da Índia anunciou que alcançará a neutralidade de carbono em 2070. O país é o último a apontar uma meta para o equilíbrio entre emissões e retenções, o que é possível atingir com medidas de proteção ao meio ambiente. Na semana passada, a China, que também estava devendo o compromisso, fixou como limite o ano de 2060. Estados Unidos e União Europeia já anunciaram que sua meta é 2050.

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, explicou também que seu país vai aumentar o objetivo anterior de energia limpa — não dependente de combustíveis fósseis — de 450 para 500 megawatts em 2030. E acrescentou que 50% das necessidades energéticas virão de fontes renováveis nesse mesmo período. O líder, contudo, reiterou que os novos compromissos climáticos da Índia e de outros países em desenvolvimento vão precisar do financiamento das nações ricas.

Segundo o Acordo de Paris, de 2015, os países ricos devem doar US$ 100 bilhões para um fundo de mitigação e adaptação dos em desenvolvimento. Essa quantia já deveria ter sido repassada em 2020, mas ainda faltam US$ 20 bilhões.

Reforço da monarca

 (crédito:  AFP)
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Em uma mensagem de vídeo, a rainha Elizabeth II exortou os líderes mundiais reunidos na COP26 em Glasgow, na Escócia, a formarem uma "frente comum" para enfrentar as mudanças climáticas e "resolver os problemas mais insuperáveis". "A história tem mostrado que quando as nações se unem por uma causa comum, a esperança sempre" chega, disse a soberana de 95 anos, cujo estado de saúde a impediu de participar presencialmente da cúpula. "Trabalhando lado a lado, temos a capacidade de resolver os problemas mais insuperáveis e triunfar diante da maior das adversidades".

 

Equador propõe trocar dívida por conservação

 (crédito:  AFP)
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O presidente do Equador, Guillermo Lasso, anunciou, em Glasgow, a ampliação em 60.000 quilômetros quadrados da reserva marinha das ilhas Galápagos e propôs a troca da dívida externa nacional para sua conservação. Estabelecida em 1998, área tem, atualmente, 130.000 quilômetros quadrados.

A reserva crescerá ao norte, na cordilheira subaquática de Los Cocos — que começa no arquipélago e se estende até o México. "Essa decisão do Equador fará com que propostas financeiras sejam feitas para trocar a dívida pela conservação", disse o líder equatoriano em uma coletiva de imprensa.

O Equador, com 17,7 milhões de habitantes, enfrenta uma crise econômica agravada pela covid-19 — a dívida externa é de cerca de US$ 46 bilhões, o equivalente a 45% do PIB. "Estimamos que será a maior quantidade de troca de dívida que já foi realizada no mundo", acrescentou Lasso. Do total do passivo equatoriano, 15,6% correspondem a outros países, como Inglaterra, Espanha, Estados Unidos, entre outros, segundo o Banco Central do país. 

Galápagos, que leva o nome das gigantescas tartarugas endêmicas que habitam aquele arquipélago, fica a mil quilômetros da costa do Equador, no Pacífico Sul, e inspirou a teoria da evolução das espécies do inglês Charles Darwin. A área protegida, onde a pesca industrial é proibida, é a segunda maior do mundo. Mais de 2,9 mil espécies marinhas existentes foram registradas lá. Conta, ainda, com o Parque Nacional de Galápagos (PNG), que tem uma área de 8.000 quilômetros quadrados e é considerado pelos especialistas como o arquipélago de origem vulcânica em melhor estado de conservação do mundo.

"Teremos muito cuidado em avaliar cada uma das propostas de forma a maximizar os efeitos da conservação ambiental nessa área de reserva marinha", disse Lasso, qualificando Galápagos como um "tesouro nacional que deve ser protegido devido a sua inestimável riqueza natural para o planeta". O presidente equatoriano insistiu em que "a nova reserva marinha também servirá como um laboratório vivo para a pesquisa científica que tanto contribui para o progresso do mundo".

 

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