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'Muitas mulheres morrem sem confessar que se arrependeram de ter filhos'

Socióloga afirma que ainda é muito difícil não ter filhos, explica por que isso ocorre e fala sobre a estigmatização das mulheres que decidem não engravidar

BBC
Norberto Paredes - @norbertparedes - BBC News Mundo
postado em 25/11/2021 10:12
Querer ter filhos e depois se arrepender?

Essa é a trajetória de muitas mulheres que optam por levar esse "segredo" para o túmulo, diz a socióloga israelense Orna Donath, autora do livro Mães arrependidas: Uma outra visão da maternidade (Editora Civilização Brasileira).

Donath, que não é mãe, nasceu e foi criada em Tel Aviv, em Israel, um país que tem de longe a maior taxa de natalidade entre os países considerados desenvolvidos, com uma média de três filhos por mulher.

Para efeito de comparação, as mulheres nos Estados Unidos tinham em média 1,70 filhos em 2019. Já no Reino Unido essa taxa é de 1,65 e, na Alemanha, 1,54.

A sociedade israelense é ainda muito mais pró-natalista do que as da América Latina, região que foi um dos motores do crescimento populacional mundial no século passado e cujas mulheres tiveram em média dois filhos em 2019, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).

Apesar da estigmatização social que enfrentou, Donath não se preocupou em ser rotulada como "louca" ou "egoísta", como muitas mulheres que optam por não ter filhos são tratadas, diz ela.

Seu livro é um ensaio feminista com entrevistas com mais de uma dezena de mulheres. O objetivo era quebrar um dos maiores tabus do mundo hoje.

Em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, a socióloga israelense afirma que ainda é muito difícil não ter filhos, explica por que isso ocorre e fala sobre a estigmatização das mulheres que decidem não engravidar. Confira a entrevista abaixo.

Orna Donath
Hadas Eldar.
Orna Donath entrevistou dezenas de mães que se arrependeram de terem engravidado

BBC - É difícil ouvir uma mulher dizer que se arrepende de ter tido filhos, mas isso é mais comum do que a gente imagina. Por que esse tema ainda é um tabu?

Orna Donath - A maternidade é vista como algo sagrado em nossa sociedade. Em muitas sociedades e culturas, acredita-se que ser mãe é a essência da vida de uma mulher.

É difícil para nós levar em conta que a maternidade é um tipo de relação humana e, como em qualquer relação, pode haver todo tipo de emoções e sentimentos.

Sempre foi dito que a maternidade muda nossas vidas para sempre. E isso é verdade. Mas, para muitas mulheres, ela não muda para melhor.

Ter o mesmo órgão biológico não torna todas as mulheres iguais.

Suponho que, em uma sociedade patriarcal e heteronormativa, a intenção é "manter as mulheres em seu lugar". Se arrepender de ser mãe é uma história totalmente diferente sobre o que as mulheres podem sentir.

BBC - Você acha que idealizamos a maternidade?

Donath - Sim. Não sou contra a maternidade nem contra as mulheres que querem ter filhos.

No entanto, acho que toda essa ideia de maternidade foi levada além do que é possível nas diferentes experiências de relações humanas. E é muito difícil para muitas mulheres ter de lidar com isso.

BBC - Você estudou profundamente esse assunto. Você diria que é comum as mulheres se arrependerem de ser mães?

Donath - Acho que nunca saberemos o quão comum é esse arrependimento. Há mulheres que se arrependem de ser mães e nunca diriam isso em voz alta. Muitas acham difícil até mesmo dizer a si mesmas.

Muitas mulheres morrem sem confessar que se arrependeram de ter filhos.

Mulher segurando bebê chorando
Getty Images
Orna Donath acredita que uma das causas de arrependimento é que mulheres percebem mais tarde que não estavam dispostas a levar estilo de vida imposto pela maternidade

BBC - Muitas das mulheres que você entrevistou disseram que, se tivessem outra chance, não seriam mães novamente. Quais são os motivos mais comuns pelos quais as mães se arrependem?

Donath - Um dos motivos mais comuns é que, retrospectivamente, elas percebem que a maternidade não é para elas e que teriam preferido viver suas vidas sem ser mães, viver outro tipo de vida.

Muitos reclamam das grandes responsabilidades que a maternidade acarreta.

Mas mesmo sem responsabilidades, algumas das mulheres que se arrependem têm companheiros que cuidam dos filhos.

Outras me disseram que já são avós e não têm mais responsabilidades cotidianas, mas mesmo assim confessam que se arrependeram.

E isso porque ser mãe é uma coisa que está sempre na cabeça, existe uma espécie de consciência de quando você é mãe e de quando não é. Muitas mulheres querem simplesmente voltar aos dias quando não tinham filhos.

As pessoas podem pensar que as mulheres que se arrependem acabam tendo vidas horríveis ou dificuldades particulares, ou por causa dos filhos que têm, mas não é o caso.

Algumas mulheres acham que ser mãe, em última análise, não vale a pena.

BBC - Muitas mulheres consideram a maternidade um obstáculo ao desenvolvimento pessoal. O que você pensa disso?

Donath - Isso é subjetivo. Para muitas mulheres essa relação é verdadeira, mas para outras a maternidade também as ajudou a se desenvolver em várias áreas.

A verdade é que a maternidade definitivamente não é para todas as mulheres.

Mulher olhando por uma janela
Getty Images
Orna Donath lamenta que as mulheres que não querem ter filhos sejam estigmatizadas: 'São tratadas como egoístas'

BBC - Você acredita no chamado 'instinto maternal'?

Donath - Não acredito que biologicamente exista um instinto maternal, mas o que existe é uma história social em torno do chamado instinto maternal.

Ele tem sido usado para nos empurrar para a maternidade. Algumas mulheres simplesmente não ouvem aquele relógio biológico e querem ter outro tipo de relacionamento com as crianças, como tias, por exemplo.

Dar à luz e criar um filho não é a única maneira de nós, mulheres, termos um relacionamento com uma criança.

BBC - Você diz que existe muita pressão social para a maternidade. Como essa pressão se manifesta?

Donath - Nós, mulheres, somos criadas desde criança com a ideia de que a maternidade é a essência da nossa existência.

Ao mesmo tempo, estigmatizam quem expressa o desejo de não ter filhos. Essas mulheres são tratadas como egoístas, loucas, imaturas, como se não fossem mulheres de verdade.

Essa estigmatização causa muito sofrimento.

BBC - Você também sente essa pressão social? Como lida com ela?

Donath - Sim, eu senti isso. Mas não me considero um bom exemplo porque conheço muito bem o assunto, estudei e sou conhecida por isso.

No entanto, tenho lido coisas horríveis nas redes sociais.

Na minha vida pessoal não sinto mais essa pressão, mas, antes, a sociedade esperava que eu fosse uma mãe, como se espera de qualquer outra mulher israelense.

Por algum tempo pensei que esse desejo não era normal e que havia algo de errado comigo.

BBC - Por que as mulheres que não querem filhos são tão duramente criticadas?

Donath - Porque elas são uma ameaça à sociedade patriarcal e heteronormativa. A sociedade e até o governo querem que você tenha filhos para evitar problemas demográficos no futuro.

Outra razão é que o capitalismo precisa de nós para gerar crianças. É preciso controlar essa capacidade que as mulheres têm.

Quando as mulheres dizem que são donas e amantes de seus corpos, vidas, sonhos e escolhas, gera-se um medo de perder esse controle.

BBC - Atualmente, com tantos métodos contraceptivos disponíveis, como você explica que ainda existam mulheres que decidiram ser mães e depois se arrependeram?

Donath - Ainda é muito difícil não ser mãe. Há mulheres que decidem ser mães porque socialmente não podem nem pensar em não ser.

E aqui falo da sociedade ocidental. Em outras sociedades, as mulheres nem mesmo têm a opção de decidir por si mesmas.

BBC - As mulheres que você entrevistou vivem a vida inteira com esse arrependimento ou aprendem a valorizar a maternidade depois de um tempo?

Donath - Não tenho certeza se é possível aprender a valorizar a maternidade.

Acho que elas simplesmente não podem fazer nada mais além de aceitar o fato de que tiveram filhos e se arrependem por isso, mas ainda precisam criar os filhos e fazer o melhor possível, sem ferir nenhum sentimento.


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