Alerta

Refeição noturna pode elevar risco de diabetes

A ingestão aumenta os níveis de glicose no corpo e, quando frequente, desregula o funcionamento do relógio biológico

Correio Braziliense
postado em 04/12/2021 06:00
O hábito também deixa a pessoa mais vulnerável ao surgimento de doenças cardíacas e obesidade -  (crédito: Hector Retamal/AFP)
O hábito também deixa a pessoa mais vulnerável ao surgimento de doenças cardíacas e obesidade - (crédito: Hector Retamal/AFP)

Realizar refeições durante a noite pode causar desequilíbrios significativos à saúde, aumentando principalmente o risco de desenvolvimento do diabetes. Isso porque ingestões de alimentos nesse período aumentam os níveis de glicose do corpo, mostra um estudo publicado na revista Science Advances. Para os autores do estudo, o resultado pode ajudar a criar estratégias de prevenção da doença metabólica, além da obesidade e de doenças cardíacas, entre pessoas que têm o hábito de se alimentar em horários alternativos ou precisam seguir esse regime.

O grupo — formado por cientistas dos Estados Unidos e da Alemanha — avaliou 19 jovens saudáveis (sete mulheres e 12 homens), que foram submetidos a uma bateria de exames para a análise inicial de suas condições clínicas. Depois, os participantes foram aleatoriamente designados para seguir uma rotina controlada em laboratório durante 14 dias, envolvendo condições simuladas de trabalho noturno, com dois horários de refeição. Parte dos analisados comeu durante a noite, e o outro grupo se alimentou durante o dia.

A intenção dos cientistas era observar os efeitos dos horários das refeições no relógio biológico, também chamado de ritmos circadianos, dos voluntários. "Esse é o processo que o nosso corpo usa para regular o ciclo do sono/vigília e também o ciclo de 24 horas de praticamente todas as funções corporais", explicam os autores, no artigo.

Constatou-se que comer à noite aumentou os níveis de glicose dos voluntários, efeito não observado em quem seguiu o regime contrário. "Especificamente, os níveis médios de glicose para aqueles que comeram à noite aumentaram 6,4% durante o trabalho noturno simulado, enquanto os indivíduos que se alimentaram durante o dia não mostraram aumentos significativos", detalham.

Os cientistas acreditam que os efeitos da alimentação noturna sobre os níveis de glicose foram causados pelo desalinhamento circadiano. A hipótese é de que ocorre um erro de cronometragem entre o relógio circadiano central, localizado no hipotálamo do cérebro, que acaba influenciando outros relógios periféricos do corpo.

"Esse estudo reforça a noção de que o horário em que você come é importante para a sua saúde. O corpo é regido por ciclos de luz e de escuridão, de jejum e de alimentação. Quando trocamos essa ordem, podemos interferir na forma como ele se comporta, o que pode acarretar danos em todo o organismo", explica, em comunicado, Sarah L. Chellappa, coautora do estudo e pesquisadora do Departamento de Medicina Nuclear da Universidade de Colônia, na Alemanha.

Uso clínico

Os responsáveis do estudo avaliam que, apesar de a análise ter sido feita com poucos voluntários, os dados podem ser considerados pela área médica e auxiliar pessoas que trabalham durante a noite a cuidarem da saúde. "O nosso trabalho sugere ainda que aqueles que trocam o dia pela noite podem se beneficiar se comerem durante o período diurno. Isso pode contribuir para que seus relógios internos sejam mais bem alinhados", enfatiza Chellappa.

Segundo os autores, esse é o primeiro estudo em humanos a demonstrar o uso do horário das refeições como uma medida contra efeitos negativos do desalinhamento dos ritmos circadianos. "Essa descoberta pode ser usada de forma bastante benéfica", afirma Frank Scheer, professor de medicina na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e um dos cientistas participantes.

No entanto, para confirmar os dados, são necessários mais estudos. As investigações futuras devem incluir pessoas que trabalham por turnos e acompanhá-las na rotina diária e no ambiente de trabalho, pondera o grupo. "Esse é um estudo laboratorial rigoroso e altamente controlado que demonstra uma intervenção potencial para os efeitos metabólicos adversos associados ao trabalho por turnos, que é um problema de saúde pública conhecido. Esperamos que estudos adicionais confirmem os resultados e ajudem a desvendar ainda mais detalhes das bases biológicas dessas descobertas", afirma Marishka Brown, diretora do Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue (NHLBI), nos EUA.

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