arqueologia

Rede social de 50 mil anos

Correio Braziliense
postado em 21/12/2021 00:01
 (crédito:  Hans Sell/Divulgação )
(crédito: Hans Sell/Divulgação )

Os humanos são criaturas sociais, mas pouco se sabe sobre quando, como e por que diferentes populações se conectaram no passado. Responder a essas perguntas é crucial para interpretar a diversidade contemporânea. Embora o DNA seja uma ferramenta poderosa para o estudo de interações genéticas, o mesmo não se pode falar sobre as trocas culturais entre os povos. Agora, cientistas do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana se voltaram para uma fonte inesperada de informação — contas de casca de ovo de avestruz — para lançar luz sobre redes sociais antigas.

Em um novo estudo, publicado ontem, na revista Nature, os pesquisadores Jennifer Miller e Yiming Wang relatam 50 mil anos de conexão e isolamento populacional, impulsionados pela mudança nos padrões de chuva, no sul e no leste da África. Contas de casca de ovo de avestruz (OES, sigla em inglês) são artefatos ideais para entender as relações sociais do passado remoto. Elas são os mais antigos ornamentos totalmente manufaturados do mundo, o que significa que, em vez de usar essas peças do jeito em que foram encontradas na natureza, os humanos as transformaram completamente para produzir contas.

Essa extensa modelagem cria amplas oportunidades para variações de estilo. Como culturas distintas produziram contas diferentes, os acessórios pré-históricos fornecem aos pesquisadores uma maneira de rastrear conexões culturais. "É como seguir uma trilha de migalhas de pão", diz Miller, principal autor do estudo. "As contas são pistas, espalhadas no tempo e no espaço, apenas esperando para serem notadas."

Para procurar sinais de conectividade da população, Miller e Wang reuniram o maior banco de dados de contas de casca de ovo de avestruz já feito. Inclui dados de mais de 1,5 mil peças individuais descobertas em 31 locais no sul e no leste da África, abrangendo os últimos 50 mil anos. A coleta desses dados foi um processo lento e meticuloso que levou mais de uma década.

Ao comparar as características do grânulo OES, como espessura da casca e diâmetros total e da abertura, Miller e Wang descobriram que, entre 50 mil e 33 mil anos atrás, as pessoas no leste e no sul da África usavam grânulos OES quase idênticos. A descoberta sugere uma rede social de longa distância que abrange mais de 3 mil quilômetros e conectou humanos nas duas regiões. "O resultado é surpreendente, mas o padrão é claro", diz Wang, coautor do estudo. "Ao longo dos 50 mil anos que estudamos, esse é o único período em que as características do cordão são as mesmas."

Mudança no clima

Essa conexão leste-sul em 50-33 mil anos atrás é a rede social mais antiga já identificada e coincide com um período particularmente úmido na África oriental. No entanto, os sinais da sua existência desapareceram há 33 mil anos, provavelmente devido a uma grande mudança no clima global. Quase ao mesmo tempo em que a rede social se desintegrou, o leste da África experimentou uma redução dramática na precipitação, conforme o cinturão de chuva tropical se deslocou para o sul. Isso aumentou a chuva na grande área que conecta as áfricas oriental e meridional (a bacia hidrográfica do Rio Zambeze), inundando, periodicamente, as margens dos rios e, talvez, criando uma barreira geográfica que interrompeu as redes sociais regionais.

"Por meio dessa combinação de proxies paleoambientais, modelos climáticos e dados arqueológicos, podemos ver a conexão entre as mudanças climáticas e o comportamento cultural", diz Wang. "Essas minúsculas contas têm o poder de revelar grandes histórias sobre nosso passado", completa Miller. "Nós encorajamos outros pesquisadores a construir sobre esse banco de dados e continuar explorando evidências de conexão cultural em novas regiões."

buraco de ozonio em 2021 é um dos maiores

O Programa de Observação da Terra da União Europeia (Copernicus) informou que o buraco da camada de ozônio na Antártida está perto de fechar, fazendo dele um dos maiores e mais duradouros já registrados. A camada do ozônio na estratosfera protege a Terra de radiações ultravioletas potencialmente nocivas. Os gases CFC e HFC, emitidos por produtos como sprays, liberam cloro ao serem atingidos pelas radiações ultravioletas, causando a destruição do ozônio. 


 

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