'Coquetel tóxico' ajuda o vírus

À espera de dados mais substanciais sobre a variante ômicron, previstos para os próximos dias, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou ontem que há um cenário global que facilita o surgimento de outras novas cepas. Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral do órgão, voltou a afirmar que os baixos índices de vacinação e de testagem são extremamente favoráveis ao novo coronavírus. "Temos, mundialmente, um coquetel tóxico com baixa cobertura vacinal e pouquíssimos testes, uma combinação ideal para a reprodução e aumento de variantes", afirmou.

A agência de saúde das Nações Unidas considera elevada "a probabilidade de que a ômicron se espalhe a nível mundial". Por isso, a classificou como uma "preocupação" do mais alto nível. O primeiro caso foi anunciado pela África do Sul há uma semana, de uma amostra coletada no último dia 9. Já há registros de infectados nos cinco continentes (Leia mais na página 9).

O surgimento da cepa intensificou o debate sobre a desigualdade vacinal na pandemia. Segundo a OMS, apenas 0,6% de todas as vacinas contra a covid-19 foi direcionada aos países de baixa renda, a maioria deles localizados na África. "O fim da pandemia não é uma questão de sorte, mas de escolha", enfatizou Tedros.

A variante preocupa especialistas pelo excesso de mutações, o que pode deixá-la mais contagiosa e, sobretudo, potencialmente mais resistente à imunidade proporcionada pelas vacinas atuais. A expectativa é de que os resultados dos primeiros estudos científicos sobre esses efeitos saiam em duas semanas.

Pfizer

Dados preliminares divulgados pelo Ministério da Saúde de Israel indicam que a vacina da Pfizer — a mais aplicada no país — é ligeiramente menos eficaz na prevenção da infecção com a variante ômicron do que com a delta — 90% e 95%, respectivamente, e que é tão eficaz quanto — cerca de 93% — na prevenção de sintomas graves. O relatório mostra ainda que a capacidade de infecção da nova variante é maior do que a da delta, mas não tanto quanto se temia — cerca de 1,3 vezes maior.

"Há indícios de que os indivíduos totalmente vacinados contra o coronavírus, em seis meses ou com o reforço, também estejam protegidos contra a variante ômicron", disse, na terça-feira, o ministro da Saúde do país, Nitzan Horowitz. Um dia antes, porém, a Pfizer havia divulgado que os resultados sobre o impacto da eficácia devem ser descobertos "em poucas semanas". Segundo o diretor executivo da farmacêutica, Albert Bourla, foram iniciados, na sexta-feira, os processos para o possível desenvolvimento de uma nova versão do imunizante caso a fórmula atual não seja suficientemente eficaz.

Tratado sobre pandemias

Os países-membros da OMS iniciaram, ontem, negociações em busca de um acordo internacional para a criação de um tratado para melhorar a prevenção e o combate a futuras pandemias. A decisão foi tomada por unanimidade após uma reunião extraordinária de três dias na Assembleia Mundial da Saúde, órgão de tomada de decisões da agência. Uma fonte diplomática francesa disse à agência France-Presse de notícias (AFP) que uma das expectativas desse tratado é reforçar "o poder de pequisa da OMS", melhorando sua "capacidade de monitorar e avaliar a situação sanitária nos países". Agora, as nações devem se debruçar sobre a elaboração do arcabouço legal e decidir se esse instrumento internacional será obrigatório ou não.