Fortes evidências

Vírus do beijo pode causar esclerose múltipla, mostra estudo

Correio Braziliense
postado em 14/01/2022 06:00
 (crédito: LOIC VENANCE)
(crédito: LOIC VENANCE)

A esclerose múltipla (EM), uma doença progressiva que afeta 2,8 milhões de pessoas em todo o mundo e para a qual não há cura definitiva, provavelmente é causada pela infecção pelo vírus Epstein-Barr (EBV), responsável pela chamada doença do beijo. A constatação é resultado de um estudo liderado por pesquisadores da Escola de Saúde Pública TH Chan, de Harvard, nos Estados Unidos, e foi publicada na edição on-line da revista Science.

"A hipótese de que o EBV causa EM tem sido investigada por nosso grupo e por outros há vários anos, mas esse é o primeiro estudo que fornece evidências convincentes de causalidade", disse Alberto Ascherio, professor de epidemiologia e nutrição e autor sênior do artigo. "Esse é um grande passo, porque sugere que a maioria dos casos de esclerose múltipla pode ser evitada interrompendo a infecção pelo EBV, e que direcionar (as pesquisas) ao vírus pode levar à descoberta de uma cura".

A EM é uma doença inflamatória crônica do sistema nervoso central que ataca as bainhas de mielina que protegem os neurônios do cérebro e da medula espinhal. Sua causa não é conhecida, mas um dos principais suspeitos é o EBV, um vírus do herpes que pode causar mononucleose infecciosa, a doença do beijo, e estabelecer uma infecção latente e vitalícia do hospedeiro.

Estabelecer uma relação causal entre o vírus e a doença tem sido difícil, porque o EBV infecta, aproximadamente, 95% dos adultos — a EM é uma doença relativamente rara, e o início dos sintomas começa cerca de 10 anos após a infecção pelo vírus. Para determinar a conexão, os pesquisadores realizaram um estudo com mais de 10 milhões de jovens adultos que estavam na ativa nas Forças Armadas dos EUA. Desses, 955 foram diagnosticados com esclerose múltipla durante o período de serviço.

A equipe analisou amostras de soro coletadas a cada dois anos dos militares e determinou o status de EBV no momento da primeira amostra e a relação entre a infecção pelo vírus e o início da EM. Nessa coorte, o risco de esclerose múltipla aumentou 32 vezes após a infecção pelo EBV, mas permaneceu inalterado considerando o contágio por outros vírus. Os níveis séricos da cadeia leve do neurofilamento, um biomarcador da degeneração nervosa típica da EM, aumentaram apenas após a infecção pelo EBV. As descobertas não podem ser explicadas por nenhum fator de risco conhecido para EM e sugerem o vírus como a principal causa da doença.

Ascherio diz que o atraso entre a infecção pelo EBV e o início da EM pode ser parcialmente devido aos sintomas da doença não serem detectados durante os estágios iniciais e parcialmente devido à evolução da relação entre o EBV e o sistema imunológico do hospedeiro, que é repetidamente estimulado sempre que o vírus latente é reativado. "Atualmente, não há como prevenir ou tratar efetivamente a infecção pelo EBV, mas uma vacina contra o vírus ou medicamentos antivirais específicos para ele poderiam prevenir ou curar a esclerose múltipla", disse Ascherio.

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