Jornal Correio Braziliense

Duas perguntas para

Duas perguntas para Clarice Lisboa, diretora da Sociedade de Infectologia do DF e médica da Secretaria de Saúde do DF

Para os laboratórios, parece não ser lucrativa a pesquisa de novos medicamentos e vacinas para doenças negligenciadas. Especialmente no caso do mundo em desenvolvimento, qual o papel do Estado e das instituições públicas nesses casos?


As doenças negligenciadas estão muito associadas a condições de pobreza. Como as pessoas pobres não têm condições de comprar medicamentos caros (muitas vezes, nem mesmo os baratos), as empresas farmacêuticas não demonstram interesse em investir, já que não seria lucrativo. O Estado precisa assumir esse papel e investir em pesquisa para elaboração de novos remédios e vacinas contra essas doenças. Do contrário, continuaremos lidando com um número elevado de pessoas adoecendo, necessitando de internação e até perdendo a vida como consequência da estagnação da produção científica sobre esse tema. Em 2020, por exemplo, cerca de 1,5 milhão de pessoas morreram de tuberculose (incluindo 214 mil entre pessoas que vivem com HIV).

Cientistas climáticos e pesquisadores da área médica têm alertado que as mudanças climáticas agravarão o cenário das doenças tropicais, muitas delas consideradas negligenciadas. A senhora acredita que o mundo está se preparando adequadamente para enfrentar essa realidade próxima?


Acredito que não. As mudanças climáticas são uma realidade, por mais que os negacionistas insistam no contrário. Após períodos de enchentes, observamos o aumento na incidência de enfermidades como leptospirose, doenças diarreicas, dengue, entre outras. Catástrofes climáticas provocam desemprego, piora da desigualdade social e, por conseguinte, mais pessoas se encontrarão na faixa de pobreza, onde prevalecem as doenças negligenciadas. Não estamos cuidando do planeta como deveríamos, nem tão pouco investindo suficientemente no desenvolvimento de vacinas e nos tratamentos contra as doenças negligenciadas.