SAÚDE E COVID

Com tratamentos específicos modestos, terapia anticovid é desafio

O surgimento de tratamentos específicos para a doença causada pelo Sars-CoV-2 não acompanha o ritmo da produção de vacinas. Cientistas seguem mobilizados para ampliar o arsenal farmacológico contra a enfermidade que, acreditam, veio para ficar

Paloma Oliveto
postado em 03/04/2022 06:00 / atualizado em 03/04/2022 09:14
Profissional de saúde toma conta de uma paciente com covid-19 em uma unidade de terapia intensiva do Hospital Albert Einstein -  (crédito: Nelson Almeida/AFP)
Profissional de saúde toma conta de uma paciente com covid-19 em uma unidade de terapia intensiva do Hospital Albert Einstein - (crédito: Nelson Almeida/AFP)

Dois anos depois de a pandemia da covid-19 ser declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), houve avanços significativos na prevenção, graças ao desenvolvimento, em tempo recorde, das vacinas. Porém, apesar de centenas de compostos serem testados em laboratórios de todo o globo, a descoberta de tratamentos específicos para a infecção foi bem mais modesta. Enquanto a imunização garantiu a redução de casos e da mortalidade, a busca de terapias que ataquem o Sars-CoV-2 e a doença causada por ele continuam mobilizando a ciência.

Segundo o rastreador de desenvolvimento de terapias para Bio Covid-19 — a maior associação mundial representante de companhias biotecnológicas, instituições acadêmicas e organizações relacionadas —, hoje, há 857 compostos sendo pesquisados, sendo 270 antivirais, que impedem a entrada e a replicação do vírus nas células, e 353 tratamentos voltados a pessoas já infectadas. O restante, 234, são vacinas. Do total, 452 encontram-se no estágio pré-clínico, ou seja, ainda não foram testados em humanos, e 405, na fase clínica.

Dos compostos antivirais investigados, 71% estão sendo desenvolvidos especificamente para a covid-19. Vinte e dois por cento são tentativas de direcionar ao Sars-CoV-2 medicamentos do tipo, criados para outros vírus, e 7%, de aproveitar uma droga existente, mas de outra classe, para testar seu potencial em combater o micro-organismo responsável pela pandemia. Já a busca por novos compostos para tratar a doença é menor: 12% dos 353 pesquisados. O redirecionamento corresponde a 65%, e o reaproveitamento, a 23%. "Além de cara, a pesquisa de antivirais é demorada e envolve diversas fases", lembra Milton Monteiro, enfermeiro infectologista do Hsanp, hospital de São Paulo.

Zucai Suo, professor de ciências biomédicas da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual da Flórida, pesquisa as diferentes vias de infecção das células pelo Sars-CoV-2 e diz que, especialmente com a emergência de variantes que fogem da proteção imunológica conferida por vacinas ou contágios prévios, a busca de medicamentos continua fundamental. "A covid-19 tem afetado negativamente o trabalho e a vida das pessoas desde o fim de 2019. Atualmente, existe a aprovação de vacinas e de diversos anticorpos monoclonais e pequenas moléculas para tratar a infecção. Embora o número de pessoas infectadas com covid tenha diminuído significativamente agora, ainda precisamos desenvolver drogas mais potentes, de amplo espectro e de rápida ação, para tratar pacientes infectados por novas variantes no futuro", destaca.

Drogas combinadas

As linhas de ataque investigadas atualmente são diversas — 31, segundo a Bio Covid-19 —, e vão de estimuladores do sistema imunológico a reguladores hormonais. Lideram o ranking de abordagens os anticorpos específicos para o Sars-CoV-2, os anti-inflamatórios e as drogas que impedem a replicação viral.

Recentemente, muitos estudos têm buscado a combinação de compostos para atacar o coronavírus e tratar a covid-19. Foi assim que se chegou ao primeiro medicamento específico para a doença, recém-aprovado para uso emergencial no Brasil. O Paxlovid, da Pfizer, é um coquetel oral que combina as substâncias antivirais nimatrelvir e ritonavir. Indicado para infecções com risco de progressão para doença grave, o remédio reduziu em até 89% a hospitalização, segundo estudos apresentados pela farmacêutica.

A abordagem de juntar substâncias está sendo empregada em um estudo conjunto do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde da Fiocruz e do Instituto Oswaldo Cruz, com cientistas de três instituições norte-americanas. Em um artigo publicado recentemente na revista Communications Biology, a equipe relatou que, ao combinar dois tipos de inibidores de enzimas que permitem a reprodução do Sars-CoV-2 nas células, a redução de replicação viral foi 10 vezes maior que a obtida pelo medicamento remdesivir, que usa apenas uma dessas frentes.

As substâncias, testadas em células pulmonares infectadas, já existem comercialmente. Uma delas, inclusive, é o remdesivir, um inibidor da polimerase. "Escolhemos propositalmente inibidores já aprovados como medicamentos para o tratamento de outras infecções virais comuns, como as causadas por vírus HIV e hepatites, com o objetivo de poder avançá-los rapidamente para a clínica", observa Thiago Souza, pesquisador do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde do Instituto Oswaldo Cruz e um dos líderes do estudo.

Agora, os pesquisadores estudam se os efeitos antivirais vistos na cultura celular se repetirão em um modelo animal com covid e apresentem propriedades farmacológicas aceitáveis. Se os resultados forem positivos, os medicamentos podem ser rapidamente incluídos em ensaios clínicos, com humanos, pois já foram aprovados previamente para tratamentos de doenças como hepatites virais e HIV.

Na Universidade de Maryland, nos EUA, pesquisadores também apostam na combinação de medicamentos para uma resposta mais eficaz contra o vírus. Depois de rastrear 122 drogas com atividade antiviral contra o Sars-CoV-2, eles descobriram que duas davam origem a um coquetel poderoso. Assim como no estudo brasileiro, uma das substâncias é o remdesivir. A outra é o molnupiravir, que age mutando a sequência genética do micro-organismo, o que evita que ele se desenvolva.

Sozinho, o molnupiravir, uma droga experimental da Merck Sharp & Dohme (MSD), elimina o vírus em três dias, conforme um estudo com humanos divulgado, na semana passada, no The New England Journal of Medicine. Na pesquisa norte-americana, os cientistas usaram células pulmonares humanas em camundongos e verificaram que, em combinação com a substância brequinar, que vem sendo investigada para o câncer, tanto o molnupiravir quanto o remdesivir inibe a reprodução do coronavírus de forma mais potente que o uso individual.

Antiviral também trata inflamações

 (crédito: Cedars-Sinai/Divulgação )
crédito: Cedars-Sinai/Divulgação

Embora ainda em estágio inicial, um estudo do Centro Médico Cedars-Sinai, nos EUA, abre caminho para um novo tratamento para covid que atua em duas frentes: além de impedir a reprodução do vírus, ele protege a integridade do tecido infectado, ou seja, é um antiviral e, também, um tratamento. A substância biológica foi criada a partir de células retiradas da pele humana, reprojetadas.

Nos testes, realizados em células pulmonares humanas, a substância impediu a replicação do Sars-CoV-2, além de reparar os estragos feitos pelo vírus. Ahmed G. Ibrahim, primeiro autor do estudo, lembra que, atualmente, existem poucos tratamentos para a covid, especialmente aqueles que se concentram na prevenção da reprodução viral. "O novo tratamento potencial inibe a replicação, mas, também, protege ou repara o tecido, o que é importante porque a covid pode causar sintomas que afetam os pacientes muito tempo após a infecção viral ter sido eliminada", explica.

A terapia foi criada usando células da pele chamadas fibroblastos dérmicos. Os pesquisadores as projetaram para produzir vesículas extracelulares terapêuticas (VCs) — nanopartículas que servem como um sistema de comunicação entre células e tecidos. A engenharia dessas estruturas permitiu que elas secretassem VCs — que os pesquisadores apelidaram de Astex — com a capacidade de reparar os danos provocados pela infecção.

Núcleo celular

Em testes anteriores, os pesquisadores demonstraram que o Astex pode reparar tecido cardíaco, pulmonar e danos musculares em camundongos. Quando a pandemia começou, em 2020, a equipe questionou se o método poderia ser usado como tratamento contra o Sars-CoV-2.

Colaborando com o estudo, pesquisadores da Universidade da Califórnia, câmpus de Los Angeles, testaram o Astex, aplicando-o a células epiteliais pulmonares humanas. Essas estruturas revestem o pulmão e são alvos da infecção pelo coronavírus. Eles descobriram que a abordagem impedia o início de um processo inflamatório que poderia levar à morte celular.

As células tratadas com Astex também produziram em menor quantidade um tipo de proteína chamada ACE, que o vírus pode usar para infectar o núcleo celular. A equipe, então, comparou o tratamento potencial com o remdesivir, antiviral atualmente usado para covid, e descobriu que este último não inibia a produção proteica. Em vez disso, a droga impede o vírus de se conectar a ela. O Astex, portanto, pode apresentar outra forma de impedir que o Sars-CoV-2 entre nas células, diz Ibrahim.

"Essa potencial terapia biológica anticovid é nova, pois tem duas facetas: protege as células infectadas, o que o remdesivir não faz, e também inibe a replicação viral", disse, em nota, o autor sênior, Eduardo Marbán, diretor executivo do Instituto do Coração Smidt, de Cedars-Sinai. O artigo sobre a fase inicial da pesquisa foi publicado na revista Biomaterials and Biosystems.

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