Pandemia

Genes ligam vírus da gripe comum ao da espanhola

Patógenos têm, no genoma, ao menos oitos segmentos de RNA semelhantes, mostra estudo alemão. Segundo cientistas, a descoberta pode ajudar no entendimento da evolução de outros micro-organismos, incluindo o causador da covid-19

Vilhena Soares
postado em 11/05/2022 06:00
 (crédito: Navena Widulin/Divulgação)
(crédito: Navena Widulin/Divulgação)

Em 1918, uma gripe desconhecida provocou a morte de cerca de 100 milhões de pessoas, tornando-se a maior catástrofe de origem viral da história recente. Agora, graças a ajuda do mapeamento genético, especialistas do Instituto Robert Koch, na Alemanha, concluíram que o patógeno da influenza comum pode ser um descendente direto do vírus responsável pela gripe espanhola. Os dados obtidos no estudo ajudam na compreensão de um capítulo do passado ainda repleto de segredos e, segundo os pesquisadores, podem ampliar a compreensão sobre como micro-organismos evoluem à medida que se espalham pelo mundo.

Apesar de ter ficado conhecida como gripe espanhola, até hoje, é impossível determinar onde essa gripe começou. Os primeiros casos confirmados da doença vieram dos Estados Unidos, mas especialistas acreditam que ela tenha se espalhado, por meses ou anos, antes de ter sido detectada. A causa dessa enfermidade também demorou a ser desvendada, e ela chegou a ser atribuída à disseminação de bactérias, a mosquitos e até a tiros de canhão. "Já era especulado, em 1918, que a pandemia foi desencadeada por um vírus, mas isso só foi finalmente comprovado na década de 1930, quando foram obtidas evidências mais ricas em laboratório", destacaram os autores do artigo, publicado na última edição da revista Nature Communications.

Acredita-se que o pico dessa pandemia se deu no outono de 1918, e ela continuou até o inverno de 1919. Segundo os pesquisadores da Alemanha, a análise genômica do patógeno que se espalhou nesse período histórico é difícil de ser feita devido à raridade de sequências virais daquela época disponíveis. "A gripe espanhola ainda é um enigma na virologia. Existem muitas questões em aberto para as quais não sabemos as respostas", afirma, em comunicado, Thorsten Wolff, coautor do estudo e pesquisador do Instituto Robert Koch.

Quando a equipe de cientistas iniciou o estudo, havia apenas 18 espécimes desse patógeno com sequências genéticas disponíveis e apenas dois genomas completos. "A maioria deles era de origem americana, e apenas dois eram de Londres. Também não havia informações amplas sobre o genoma relacionado à fase inicial da pandemia", disse, em coletiva on-line, Sébastien Calvignac-Spencer, também coautor do estudo.

O grupo saiu, então, em busca de novos dados que ajudassem a revelar os segredos da gripe espanhola. Ao vasculhar a coleção do Museu de História Médica de Berlim, eles encontraram duas sequências genéticas parciais coletadas na capital alemã, em junho de 1918, e um genoma completo de 1918, com origem na cidade de Munique.

O material foi submetido a uma análise chamada modelagem do relógio molecular, em que são feitas comparações entre materiais genéticos de vírus distintos, com o objetivo de identificar semelhanças e diferenças, considerando também a evolução ao longo do tempo. O método mostrou que os oitos segmentos de RNA que compõem o genoma do vírus da hoje gripe comum podem ter descendido diretamente do patógeno da gripe espanhola.

As análises genéticas também revelaram as mutações sofridas ao longo do tempo pelo patógeno mais antigo, que coincidiram com as datas de pico da pandemia. Isso, segundo os autores, sugere uma ação ainda mais devastadora da enfermidade quando o vírus se adaptou ao organismo humano. "As mudanças relacionadas aos processos adaptativos mostraram o patógeno otimizando a sua replicação", explicam.

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Análises anteriores já haviam ligado a gripe espanhola ao vírus sazonal atual, mas por outros mecânismos. "Nossas descobertas contradizem outras hipóteses que sugerem que o patógeno da gripe sazonal surgiu por meio de rearranjo, que é a troca de segmentos genômicos entre diferentes vírus", comparam os autores.

Segundo Calvignac-Spencer, a nova investigação não derruba completamente essa possibilidade. Por isso, ele enfatiza a necessidade de novas análises sobre o fenômeno. Um dos planos do grupo alemão é avaliar mais espécimes antigas do patógenos. "Tivemos a sorte grande em achar esses no Museu de História Médica de Berlim, ao virar nossa esquina (...) Na verdade, é muito, muito difícil encontrar esses espécimes", frisa.

Salmo Raskin, médico pediatra e geneticista e diretor do Laboratório Genetika, em Curitiba, também destaca a singularidade do trabalho alemão. "É sensacional ver que esses cientistas utilizaram uma tecnologia que já foi usada com esse objetivo em estudos anteriores, mas que, desta vez, permitiu avaliar um material genético extremamente antigo, rendendo dados riquíssimos mesmo 100 anos depois", diz. "Não que fosse necessário, mas esses resultados reforçam a teoria de Darwin ao revelar a evolução desse patógeno. É impressionante que o conhecimento que temos de virologia nos permita fazer esse tipo de análise, mostrando como é promissora essa área de arqueologia molecular."

O especialista brasileiro destaca também o quanto esses trabalhos são minuciosos. "Esse tipo de investigação é como um quebra-cabeças, precisamos unir pedaços de um material bastante antigo. Vemos, agora, que eles são bem compreendidos mesmo com a degradação sofrida com o passar do tempo. Isso mostra o tanto que esse trabalho é espetacular."

Raskin acredita que o método usado pelos cientistas poderá ajudar na melhor compreensão da evolução de outros patógenos."É uma análise que pode avaliar melhor também o novo coronavírus", sugere. "É interessante pensar que, naquela época da gripe espanhola, pouco se sabia sobre essa área, tínhamos dados reduzidos. Hoje, com ferramentas tão evoluídas, há a esperança de que surgirão projetos ainda mais elaborados, que revelarão ainda mais detalhes e em um tempo ainda mais reduzido."

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