Dormir menos nas fases profundas do sono pode estar associado a alterações estruturais no cérebro que aumentam o risco de doença de Alzheimer. A conclusão é de um estudo da Faculdade de Medicina de Yale, nos Estados Unidos, publicado no Journal of Clinical Sleep Medicine. Segundo os autores, caso pesquisas futuras confirmem a descoberta, há "oportunidades potenciais" para reduzir o risco desse mal neurodegenerativo, que afeta 55 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
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A pesquisa acompanhou 270 adultos de meia-idade e idosos participantes do estudo norte-americano Atherosclerosis Risk in the Communities. Os resultados indicaram uma associação entre menor proporção de sono de ondas lentas — o profundo — e de sono REM, a fase ligada aos sonhos, com a redução do volume de regiões cerebrais consideradas vulneráveis ao Alzheimer.
Os pesquisadores analisaram dados de polissonografias realizadas entre 1996 e 1998, quando os participantes tinham em média 61 anos, e compararam esses resultados com exames de ressonância magnética feitos de 13 a 17 anos depois. O objetivo era avaliar áreas do cérebro que costumam apresentar atrofia precoce na doença de Alzheimer, como o hipocampo, o pré-cúneo, o cúneo e, especialmente, a região parietal inferior.
Volume
As imagens mostraram que as pessoas que passaram menos tempo em sono profundo tinham volumes menores da região parietal inferior e do cúneo. Já a menor proporção de sono REM estava relacionada a volumes reduzidos da região parietal inferior e do pré-cúneo. Todas essas áreas do cérebro exercem importantes funções na memória e no processamento de informações.
Após ajustes estatísticos para idade, sexo, escolaridade, fatores cardiovasculares, apneia do sono e desempenho cognitivo, a associação mais consistente permaneceu na região parietal inferior, envolvida em funções cognitivas complexas e frequentemente afetada nas fases iniciais do Alzheimer. Segundo os autores, estudos anteriores apontam que essa região é sensível à privação do repouso e à redução da atividade cerebral associada ao descanso inadequado.
O trabalho também investigou a relação entre a arquitetura do sono — estrutura e sequência dos diferentes estágios — e a presença de micro-hemorragias cerebrais, pequenas lesões vasculares que podem ocorrer em fases iniciais de demências. Nesse caso, não foi encontrada associação, sugerindo que os efeitos de dormir mal observados na pesquisa têm maior relação com a atrofia do cérebro do que com alterações no sistema circulatório.
Modificável
Embora os resultados não permitam afirmar uma relação de causa e efeito, os autores observam que o sono é um fator potencialmente modificável, sugerindo estratégias preventivas. "Nossos resultados fornecem evidências preliminares de que a redução da neuroatividade durante o sono pode contribuir para a atrofia cerebral, aumentando potencialmente o risco de doença de Alzheimer", disse o autor principal, Gawon Cho, doutor em saúde pública. "Esses resultados são particularmente significativos porque ajudam a caracterizar como a privação de sono, um distúrbio prevalente entre adultos de meia-idade e idosos, pode estar relacionada à patogênese de Alzheimer e ao comprometimento cognitivo."
"Mesmo que por apenas uma noite, a privação do sono tem efeitos imediatos sobre a atenção, a concentração e a memória. Qualquer tarefa cognitiva passa a ser mais difícil", lembra o psiquiatra Ricardo Assmé, de Curitiba (PR). "Quando o sono é interrompido várias vezes, o corpo não consegue fazer reparos importantes, nem organizar a memória ou equilibrar os hormônios. Com o tempo, isso abre espaço para problemas mais sérios", complementa o otorrinolaringologista de Goiânia (GO) Paulo Reis, especialista em medicina do sono.
Toxinas
Diversos estudos sugerem que dormir mal tem impactos negativos para a saúde do cérebro ao longo prazo, com doenças neurodegenerativas. Uma pesquisa recente publicada na revista Neurology, da Academia Norte-Americana de Neurologia, encontrou evidências de que a dificuldade de dormir ou de permanecer dormindo está associada ao envelhecimento acelerado do cérebro. "O sono não é um descanso qualquer", destaca Danielle de Lara, neurocirurgiã de Blumenau (SC). "Ele é o momento em que o cérebro organiza aprendizados, remove toxinas e se regenera. Por isso, os estudos mostram que dormir mal aumenta o risco de declínio cognitivo."
Segundo Larissa Hermann, clínica médica no Hospital São Marcelino Champagnat, de Curitiba, pessoas que têm dificuldade para dormir precisam investir na chamada higiene do sono. Ela explica que as práticas associadas a esse conceito incluem desde uma rotina regular do repouso a criar um ambiente propício, como um quarto escuro e silencioso.
"O que se pode fazer é adotar medidas de higiene, como dormir e acordar no mesmo horário sempre que possível, evitar bebidas estimulantes que tenham cafeína ou álcool próximo do horário de dormir, além de reduzir o uso de telas e iluminação no período noturno", diz. Hermann também recomenda que, no período da manhã, logo após o despertar, haja exposição à luz solar. "Isso ajuda o corpo a entender que amanheceu e regular o ciclo circadiano, que melhora a qualidade do sono, resultando em um organismo mais funcional e saudável."
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