Rayanne Marques, nutricionista em Brasília
Quais mecanismos nutricionais ou biológicos podem explicar a associação entre dieta vegetariana e menor risco de alguns cânceres?
Como nutricionista, avaliamos esse tipo de resultado olhando para o padrão alimentar como um todo. Dietas vegetarianas costumam ser naturalmente mais ricas em fibras, antioxidantes, fitoquímicos e compostos anti-inflamatórios presentes em frutas, verduras, leguminosas e grãos integrais. Esses nutrientes ajudam a modular processos metabólicos importantes, como controle glicêmico, microbiota intestinal e inflamação crônica, fatores que sabemos estar relacionados ao desenvolvimento de diversos tipos de câncer. Outro ponto relevante é a menor ingestão de carnes processadas e, muitas vezes, de carnes vermelhas, que estão associadas a compostos potencialmente carcinogênicos formados no processamento e em métodos de cocção em altas temperaturas. Além disso, pessoas vegetarianas frequentemente apresentam menor índice de massa corporal, e o excesso de gordura corporal é um fator de risco conhecido para vários tumores, especialmente os hormonais, como o câncer de mama.
O estudo também encontrou maior risco de alguns tumores em vegetarianos e veganos. Isso pode estar ligado a deficiências nutricionais?
Esse é um ponto que precisa ser interpretado com cautela. Em alguns casos específicos, como o carcinoma escamoso de esôfago observado em vegetarianos e o maior risco de câncer intestinal em veganos, os próprios pesquisadores destacam que o número de casos foi pequeno, o que limita conclusões definitivas. Do ponto de vista nutricional, é plausível que dietas restritivas mal planejadas apresentem ingestão insuficiente de certos micronutrientes, como cálcio, vitamina B12, zinco ou riboflavina, que participam de funções importantes para integridade celular, imunidade e manutenção de tecidos. Por exemplo, no caso dos veganos, uma ingestão baixa de cálcio pode ocorrer se não houver consumo adequado de alimentos fortificados ou fontes vegetais ricas nesse mineral. Ou seja, não é a ausência de carne em si que determina risco, mas sim a qualidade e o equilíbrio nutricional da dieta.
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É possível afirmar que é a alimentação, e não outros hábitos, que explica a diferença de risco em alguns tipos de câncer?
Não totalmente. Estudos desse tipo mostram associação, não causalidade direta. Pessoas que seguem dietas vegetarianas muitas vezes também têm outros comportamentos de saúde positivos, como praticar mais atividade física, consumir menos álcool, fumar menos e ter maior cuidado com exames preventivos. Mesmo com ajustes estatísticos, sempre existe a possibilidade de fatores de estilo de vida influenciarem os resultados. Portanto, a principal leitura clínica é que padrões alimentares ricos em vegetais e com menor presença de ultraprocessados tendem a ser protetores. Mas isso não significa que apenas retirar carne seja suficiente, o mais importante continua sendo a qualidade global da alimentação. (PO)
