Por que o período de 2 a 6 anos é considerado tão crítico para o desenvolvimento do cérebro?
Os primeiros 1 mil dias de vida, que hoje estudamos muito, são uma fase fundamental, em que as condições ambientais podem interferir no desenvolvimento cerebral. Sabemos que tanto a alimentação quanto o ambiente em que a criança é criada fazem grandes diferenças no cérebro do bebê futuramente. Por exemplo, estudos mostram que, nas crianças que mamam e que recebem colo dos pais, o cérebro fica mais pesado e mais desenvolvido, comparado com as que não recebem leite materno, colo, afeto e segurança do ambiente familiar. Então, até os 2 anos é a época de maior desenvolvimento, quando o cérebro está formando conexões e aprendizados — a primeira infância é um dos focos da pediatria, porque, se você cuida dessa fase, cuida do adulto que terá lá na frente.
O que a senhora percebe de possíveis impactos da pandemia no desenvolvimento das crianças?
Nós percebemos desde março de 2020 a tendência a um aumento de diagnósticos do transtorno de hiperatividade e déficit de atenção. Também existe um aumento da ansiedade em geral nas crianças. Nós tentamos excluir outros fatores, como uso excessivo de tela e desorganização de rotina, mas percebemos, no geral, um aumento desses diagnósticos. É alteração de foco, de comportamento; muita distração durante a aula e até com impacto na capacidade de aprendizagem. A rigidez cognitiva, que é uma inflexibilidade da criança em negociar e ceder, também aumentou: na primeira infância, entre 1 e 5 anos, a criança que não teve socialização terá uma dificuldade maior de negociar. E isso acaba dificultando muito a convivência e também acaba impactando no futuro dessa criança, nas suas relações, no seu trabalho e até na sua capacidade de se organizar na vida.
Qual as principais implicações do estudo britânico?
O que a gente planta hoje a gente colhe amanhã. O cérebro da criança é como se fossem conexões elétricas e quanto mais as conexões que ela cria, maior a capacidade dela conseguir lidar com problemas complexos. Então, quanto mais a gente conversa com a criança, explica para criança, trata ela como um ser pensante, mas ela vai compreendendo o mundo e vai tendo maior capacidade no futuro de compreender o mundo e de produzir trabalhos, habilidades que vão construir cada vez mais. Então, o que a gente faz na infância tem, sim, o impacto para o resto da vida. Vai aumentando a complexidade, mas a base é na primeira infância. (PO)
