MISSÃO ARTEMIS II

EUA mudam plano espacial, e data para sobrevoo lunar é definida

Nasa abandona ideia de construir estação espacial na órbita da Lua e decide que apostará em base permanente no solo do satélite da Terra. Depois de adiamentos, sobrevoo lunar, na missão Artemis II, deve ocorrer a partir de 1º de abril

Quase 60 anos depois de a tripulação da Apollo 8 sobrevoar a Lua, os americanos Reid Wiseman, Victor Glover e Christina Koch, e o canadense Jeremy Hansen se preparam para uma missão semelhante. A aguardada Artemis II da Nasa, agência espacial norte-americana, está programada para decolar da Flórida a partir de 1º de abril. A viagem é a primeira a incluir uma mulher, um astronauta negro e um não americano em uma viagem ao satélite natural da Terra. A tripulação ficará no espaço cerca de 10 dias, mas não pousará na Lua. Será feito apenas um sobrevoo, o primeiro passo antes da sonhada volta de humanos ao solo lunar. Essa também será a inauguração do novo foguete da Nasa, o SLS, para voos tripulados.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Astronomia, Helio Jaques Rocha Pinto, se a missão for bem-sucedida, será um grande passo para viabilizar um pouso lunar no futuro. “Será uma grande novidade, pois os astronautas estarão em contato com a Terra usando recursos de comunicação que não existiam nos anos 1960, quando fizeram uma missão similar pela primeira vez.”

A missão foi adiada para o início de abril em razão de problemas técnicos localizados no foguete SLS, incluindo vazamentos de hidrogênio e falhas no fluxo de hélio. Por conta das falhas e da necessidade de conserto em um chicote elétrico no sistema de terminação de voo, a Nasa foi obrigada a descartar as janelas de fevereiro e março para o lançamento.

Base na Lua

Além de divulgar o calendário de lançamento da Artemis II, a Nasa está reformulando profundamente sua estratégia de exploração espacial. Esta semana a agência informou o cancelamento dos planos de implantar a estação Lunar Gateway na órbita da Lua e afirmou que vai redirecionar os recursos para a construção de uma base permanente no solo lunar. O novo administrador da agência, Jared Isaacman, anunciou que cerca de US$ 20 bilhões serão investidos ao longo dos próximos sete anos para viabilizar essa infraestrutura na superfície do satélite, com o objetivo de permitir operações contínuas de astronautas. Uma das metas é que a unidade sirva para missões sonhadas a Marte.

Conforme Naelton Araújo, astrônomo da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, essa mudança foi consequência da decisão da China de pousar no polo lunar e construir uma base no satélite até 2030. “A estação Gateway seria um ponto intermediário entre a Terra e a Lua. Uma estação orbital é algo bem diferente de uma base de superfície. Não deve ser nada fácil essa mudança para os fabricantes. Além disso, é uma mudança drástica nas estratégias de acesso à Lua. Os planos anteriores — tanto usando Starships da Spacex quanto as naves Orion — previam usar a Gateway como ponto de apoio e translado.”

Ele completa: “Com a nova corrida espacial e a dinâmica internacional do governo norte-americano é de esperar muitas mudanças nos projetos espaciais. O programa Artemis já sofreu alguns adiamentos. O mês que vem é a nova janela para lançar o foguete SLS”.

A mudança marca uma reorientação importante do programa Artemis, que atualmente é a principal iniciativa lunar dos Estados Unidos. Em vez de usar a estação orbital como ponto de apoio, a agência pretende reaproveitar componentes já desenvolvidos por empresas como Northrop Grumman e Intuitive Machines para acelerar a construção da base. Apesar dos desafios técnicos e logísticos envolvidos na adaptação desses equipamentos, a Nasa avalia que isso pode encurtar prazos e otimizar recursos.

O plano também inclui o aumento de missões robóticas à Lua, com a meta de realizar pousos mensais para transporte de cargas e instrumentos científicos. Essas viagens trabalharão em conjunto com voos tripulados, como a Artemis II. A expectativa é de que astronautas retornem à superfície lunar até 2028 e que, posteriormente, os pousos se tornem mais frequentes.

Além disso, Isaacman vem pressionando por mudanças nos contratos e na relação com empresas privadas, após anos de atrasos e custos elevados em projetos como a cápsula Orion e o foguete Space Launch System. Companhias como SpaceX e Blue Origin continuam na disputa para desenvolver módulos de pouso lunar, mas enfrentam prazos apertados e maior cobrança por resultados.

Outro destaque da nova estratégia é o desenvolvimento de uma missão a Marte até 2028, utilizando um sistema inédito de propulsão elétrica nuclear. O projeto, chamado SR-1 Liberdade, quer testar tecnologias mais eficientes para viagens ao espaço profundo e poderá também apoiar futuras iniciativas.

As inovações incluem ainda planos para instalar um reator nuclear na Lua até 2030, capaz de fornecer energia constante para a base, inclusive durante a longa noite lunar. Apesar dos desafios técnicos, a agência afirma que os sistemas são seguros e essenciais para sustentar a presença humana fora da Terra.

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