Adolescentes estão em fase muito sensível do desenvolvimento cerebral. A construção da percepção do mundo está ligada a tudo que o adolescente vê, ouve, tem de experiência no seu mundo real. A mente entra em contato com a realidade e aprende sobre como sentir, pensar, reagir e responder às demandas da vida.
O uso das redes sociais permite que o adolescente veja, perceba e aprenda novas formas de reagir a suas angústias e se comportar para além daquilo que aprende no eixo familiar. O comportamento do outro visto e percebido nas redes sociais também ensina sobre como sentir e nomear emoções pela simples projeção que o adolescente faz quando identifica semelhanças.
Quando o adolescente consome conteúdos onde ele identifica situações semelhantes com as suas dores e angústias, e vê como resposta a automutilação, e até outros comportamentos como isolamento, silêncio, ideação suicida, o cérebro aprende, ainda que de forma inconsciente, que essa é uma resposta adequada ao meio diante da dor. Isso é muito invisível, mas acontece o tempo todo e contribui de forma poderosa para construção emocional no psiquismo dos adolescentes.
As redes sociais criaram um ambiente psicologicamente hostil para adolescentes e vale entender como esses mecanismos funcionam clinicamente. Sabemos que os humanos tendem a se avaliar em relação aos outros. As redes transformaram isso em uma vitrine permanente de comparação assimétrica — o jovem compara sua vida inteira com os melhores momentos editados da vida alheia.
Para um adolescente ainda construindo identidade e a regulação emocional, essa comparação crônica alimenta vergonha, inadequação e desesperança. A autolesão, clinicamente, funciona muitas vezes como tentativa de regular emoções insuportáveis que a pessoa não consegue nomear nem expressar de outra forma.
E o cyberbullying tem uma característica que o torna mais destrutivo que o bullying presencial: ele não tem fim. O adolescente chega em casa e o bullying continua no celular, à meia noite, no quarto que deveria ser espaço seguro, está lá a ofensa e s vergonha exposta. A humilhação pública e os comentários cruéis somados a uma audiência cada vez mais “sanguinária” produzem uma dor emocional que o jovem frequentemente não sabe processar. A autolesão entra como tentativa de transformar dor emocional em dor física — porque a dor física, paradoxalmente, parece mais controlável e passível de alívio.
O cérebro adolescente é neurologicamente orientado para aprovação social — o córtex pré-frontal está em desenvolvimento, e o sistema de recompensa responde intensamente à validação dos pares. Curtidas e comentários ativam dopamina, criando dependência de validação externa para regular o senso de valor próprio. Quando a validação não vem ou vem rejeição, o colapso emocional pode ser severo. O que vemos no consultório é que a autolesão, para alguns, funciona como regulador emocional imediato diante do desamparo gerado por essa rejeição digital.
Cassiana Tardivo, psicóloga, pedagoga, especialista em neuroaprendizagem e dependência tecnológica e autora do livro: Resgate seu filho das telas (Editora Vida)
