Inovação

Procedimento aumenta a segurança no tratamento de aneurismas complexos

Nova técnica foi desenvolvida por pesquisadores brasileiros, incluindo um cirurgião endovascular que atua em Brasília, com colaboração norte-americana. Ela poderá ajudar pacientes com anatomias difíceis ou fora do padrão, que correm risco de morte

Desenvolvida por pesquisadores brasileiros — incluindo um médico que atua em Brasília — e norte-americanos, uma técnica descrita na revista Journal of Endovascular Therapy tem o potencial de revolucionar o tratamento de aneurismas complexos da aorta — dilatações perigosas que, quando não tratadas, podem levar à ruptura do vaso e à morte. A abordagem, que será apresentada em 22 de abril no Congresso Europeu de Cirurgia Endovascular, em Londres, na Inglaterra, propõe uma solução inovadora para um dos principais desafios da cirurgia endovascular: preservar o fluxo sanguíneo em múltiplos vasos em pacientes com anatomias consideradas difíceis ou fora do padrão.

O procedimento, chamado de BIS2T (sigla em inglês para “técnica bifurcada in situ dentro de stent”), permite a criação de uma bifurcação artificial em uma prótese vascular, possibilitando a conexão de dois vasos sanguíneos a partir de uma única ramificação do dispositivo principal. Na prática, isso amplia as possibilidades de tratamento minimamente invasivo, especialmente em casos em que as variações anatômicas impedem o uso das técnicas convencionais.

“A técnica BIS2T permite preservar vasos que antes precisavam ser sacrificados durante o tratamento do aneurisma. Isso é algo impactante, porque essas perdas muitas vezes levavam a sequelas importantes”, explica o cirurgião vascular Gustavo Paludetto, do Hospital Santa Lúcia, e um dos autores do estudo. “Agora conseguimos tratar alguns aneurismas de forma minimamente invasiva, segura e mais inteligente, mantendo a circulação de áreas fundamentais do corpo. Isso significa menos complicações e melhores resultados para o paciente.”

Evolução 

A correção endovascular de aneurismas tem evoluído significativamente nas últimas décadas e hoje é uma alternativa menos invasiva à cirurgia aberta. No entanto, o sucesso da técnica depende de condições anatômicas específicas, como o tamanho, a posição e o formato dos vasos sanguíneos. 

Quando essas condições não estão presentes, o procedimento pode se tornar inviável ou exigir soluções menos ideais. De acordo com o estudo, variações como artérias renais duplicadas, alterações nas artérias que irrigam o fígado ou o intestino e aneurismas que se estendem para dentro dos próprios vasos são relativamente frequentes e representam um obstáculo importante. Nesses casos, muitas vezes os médicos precisam optar por sacrificar um dos vasos para viabilizar o tratamento, o que pode comprometer a circulação e aumentar riscos ao paciente.

Segundo os autores do estudo, a técnica BIS2T pode contornar esse problema. O procedimento começa com a implantação de um primeiro stent conectado a uma ramificação do dispositivo principal. Em seguida, os médicos criam uma pequena abertura nesse stent — chamada de fenestração — que permite acessar um segundo vaso. 

Por essa abertura, é introduzido um novo stent, que se conecta ao segundo vaso-alvo. Um terceiro stent é então utilizado para reforçar a estrutura e garantir estabilidade, formando uma configuração descrita pelos autores como um “duplo D”. O arranjo permite manter o fluxo sanguíneo adequado para dois vasos distintos, mesmo em anatomias complexas. 

Testes

A técnica foi testada em dois pacientes com condições desafiadoras. No primeiro caso, um homem de 70 anos apresentava um aneurisma toracoabdominal envolvendo múltiplos vasos, incluindo duas artérias renais do lado esquerdo. No segundo, um paciente de 78 anos tinha aneurismas nas artérias ilíacas, responsáveis pela irrigação da pelve, com envolvimento de ramificações importantes.

Em ambos os casos, a aplicação da BIS2T permitiu preservar os vasos comprometidos sem complicações imediatas. Exames de imagem realizados após o procedimento e no acompanhamento mostraram que os stents permaneceram funcionando adequadamente, sem sinais de vazamento, obstrução ou outras intercorrências.

Os autores do estudo destacam que o principal impacto da nova técnica está na possibilidade de ampliar o uso de dispositivos já disponíveis no mercado, sem a necessidade de próteses personalizadas — que podem levar semanas para serem produzidas — ou de cirurgias mais invasivas. Isso é particularmente relevante em situações de urgência, quando o tempo é um fator crítico. Ao evitar a necessidade de sacrificar vasos importantes, a técnica também pode reduzir complicações relacionadas à perda de irrigação, como disfunções orgânicas e prejuízos à qualidade de vida.

Apesar dos resultados promissores, os autores ressaltam que a BIS2T ainda é uma técnica em fase inicial de avaliação. O estudo envolve apenas dois casos clínicos, e são necessários mais dados para confirmar sua segurança e eficácia a longo prazo. Entre os possíveis riscos estão falhas estruturais do stent, obstrução dos vasos ou dificuldades técnicas em anatomias muito tortuosas. Outro ponto importante é que a técnica representa uma adaptação fora das indicações originais dos dispositivos utilizados, o que exige experiência avançada das equipes médicas e deve ser realizado em centros especializados.


Arquivo pessoal - Gustavo Paludetto, do Hospital Santa Lúcia
Três perguntas para Gustavo Paludetto, um dos autores do estudo, cirurgião endovascular e coordenador da linha NeuroCardioVascular do Grupo Santa Tratamentos 

Quais pacientes podem se beneficiar mais desse procedimento?
Os pacientes que mais se beneficiam são aqueles com anatomias complexas, onde antes era necessário “fechar” alguns vasos para conseguir tratar o aneurisma. Com a BIS2T, conseguimos preservar especialmente os ramos pélvicos e hipogástricos, que são fundamentais para a qualidade de vida. Isso evita problemas como impotência sexual e a claudicação do quadril, que é aquela dor ou cansaço ao caminhar por falta de circulação. Ou seja, além de tratar o aneurisma, a técnica mantém a qualidade de vida do paciente — algo que antes não era possível na maioria dos casos.

Como ainda foi testada em poucos pacientes, quais são as principais dúvidas ou riscos que os médicos precisam esclarecer antes de usar essa técnica em mais pessoas?
A técnica BIS2T é feita totalmente por cateterismo, sem necessidade de abrir o abdome ou interromper o fluxo sanguíneo, o que já representa uma grande vantagem. Ela não traz riscos adicionais em relação às técnicas endovasculares já consagradas, principalmente em relação a sangramento, porque o sangue continua circulando dentro dos stents.O principal ponto de atenção é a precisão na criação da ramificação dentro do stent, que precisa ser bem planejada para alcançar corretamente os vasos que queremos preservar.

Para o Sistema Único de Saúde (SUS), quais as vantagens da técnica em relação à tradicional?
A tecnica BIS2T permite tratar aneurismas complexos usando materiais que já existem e estão disponíveis no SUS, sem depender de próteses feitas sob medida, que na maioria das vezes não estão acessíveis. Isso é um avanço enorme, porque possibilita tratar pacientes que antes simplesmente não tinham opção de tratamento adequado. Além disso, ao preservar vasos importantes, a técnica reduz sequelas como impotência sexual, o que impacta diretamente na qualidade de vida — sem custo adicional para o sistema de saúde. 

 

 

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