A redução no uso de cosméticos pode diminuir substancialmente, em poucos dias, a presença de substâncias químicas potencialmente nocivas no organismo. É o que aponta um estudo divulgado ontem, conduzido por pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm), na França. A pesquisa acompanhou pouco mais de 100 estudantes, entre 18 e 30 anos, que foram orientados a modificar temporariamente seus hábitos de higiene e beleza.
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Durante cinco dias, os voluntários reduziram o uso de cosméticos convencionais e passaram a utilizar produtos alternativos livres de compostos como fenóis sintéticos, parabenos, ftalatos e éteres de glicol — substâncias frequentemente associadas a possíveis efeitos adversos à saúde. Para medir o impacto da mudança, os cientistas coletaram amostras de urina antes e após o período de intervenção.
A comparação dos resultados revelou uma queda significativa na concentração de diversos contaminantes químicos. Entre os destaques, houve redução de 22% no ftalato de monoetila, composto utilizado, entre outras funções, na fixação de fragrâncias, e de até 30% no metilparabeno, conservante classificado por autoridades europeias como potencial desregulador endócrino, que interfere na regulação hormonal.
Outro dado relevante foi a diminuição de 39% nos níveis de bisfenol A (BPA), substância associada a distúrbios hormonais e a doenças como infertilidade e câncer de mama. Embora o BPA já seja proibido em diversos países, incluindo membros da União Europeia, sua presença ainda pode ocorrer devido a contaminações durante processos de fabricação ou por meio de embalagens, segundo o Inserm.
Os resultados, publicados na revista científica Environment International, também indicaram quedas expressivas em outros compostos, como fenoxidoacético, cuja redução chegou a cerca de 64%. Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que nem todas as substâncias foram completamente eliminadas, sugerindo a existência de múltiplas fontes de exposição no cotidiano.
Disfunções hormonais
Conforme Dhiãnah Santini, endocrinologista, professora e pesquisadora do Instituto de Educação Médica (Idomed), no Rio de Janeiro, essas substâncias nocivas atuam de diversas maneiras no organismo. "Podem agir imitando, bloqueando ou alterando a ação hormonal. Nesse sentido, podem, por exemplo, imitar o estrogênio e acelerar a puberdade em uma criança, ou produzir uma ação androgênica, fazendo as vezes da testosterona", explica.
"Além disso, quando bloqueiam receptores, podem alterar a síntese hormonal. Essas substâncias são chamadas de desreguladores endócrinos porque, mesmo em doses baixas e até mesmo através da pele, podem funcionar como hormônios ou toxinas, afetando a função do organismo", completa a especialista.
Além da análise direta, o estudo incluiu uma avaliação de impacto em saúde para estimar possíveis benefícios em larga escala. Modelos indicam que a redução da exposição ao BPA durante a gravidez poderia evitar cerca de 4% dos casos de asma e chiado no peito em crianças, além de prevenir uma leve perda média de quociente de inteligência (QI).
Os autores destacam que produtos de cuidado pessoal representam uma fonte relevante — e modificável — de exposição a químicos potencialmente prejudiciais. Para eles, a rápida diminuição observada em apenas cinco dias reforça que mudanças individuais podem ter efeito imediato. No entanto, eles ponderam que medidas regulatórias mais amplas seriam necessárias para garantir uma redução mais eficaz e equitativa da exposição na população.
Resposta veloz
Segundo a endocrinologista Fernanda Parra, de São Paulo, mesmo exposições breves podem desencadear alterações epigenéticas persistentes. "O organismo responde rapidamente a esses estímulos, especialmente durante janelas críticas de desenvolvimento. Reduzir a exposição nos primeiros dias já começa a restaurar o equilíbrio hormonal, embora os efeitos consolidados levem semanas para se reverterem completamente."
Além disso, a especialista detalha que a exposição crônica a esses disruptores está associada a ganho de peso, resistência insulínica, disfunção reprodutiva, puberdade precoce em crianças, infertilidade, alterações na tireoide e aumento do risco de câncer hormônio-dependente. "Ademais, esses compostos podem comprometer a função imunológica e aumentar processos inflamatórios sistêmicos."
O tema ganha relevância no cenário europeu, onde o Parlamento Europeu deve discutir, no fim de abril, possíveis mudanças na regulamentação de cosméticos. A expectativa é que novas regras possam restringir ainda mais o uso de substâncias consideradas de risco, ampliando a proteção à saúde pública, especialmente entre grupos mais vulneráveis, como gestantes e crianças.
