Um astrolábico produzido há mais de quatro séculos voltou ao centro das atenções nesta quarta-feira (29/4), ao alcançar um valor inédito em um leilão realizado por uma das maiores e mais antigas casas de arrematação, a Sotheby’s, na Inglaterra. A peça é um instrumento astronômico fabricado no início do século XVII e foi vendida por US$ 2,75 milhões, cerca de R$ 13,7 milhões, destacando o interesse do público por objetos que unem ciência, arte e história.
O recorde superado foi do astrolábio otomano, que foi vendido em 2014 por pouco menos de US$ 1 milhão. Desenvolvido pelos artesãos Qa’im Muhammad e Muhammad Muqim, o artefato foi criado por volta de 1621, na cidade de Lahore, que na época integrava o Império Mogol, e se destacava com um importante polo de produção intelectual. O que mais chama atenção no objeto, além do valor histórico, são as dimensões incomuns.
Em entrevista à BBC News, a historiadora Federica Gigante, do Centro de História da Ciência, Medicina e Tecnologia de Oxford afirma: “Não é apenas grande, bonito e pesado, é tão incrivelmente preciso que pode dar o grau exato de altitude de um corpo celeste.” O artefato tem mais de 8 quilos, cerca de 30 centímetros de diâmetro e quase meio metro de altura, ultrapassando o tamanho padrão desses dispositivos, tradicionalmente portáteis.
Especialistas apontam que o instrumento apresenta um nível de detalhamento técnico raro até mesmo para os padrões atuais, reunindo dezenas de marcações geográficas, além de divisões angulares minuciosas. Durante séculos, os astrolábios foram ferramentas essencias para o estudo do céu, permitindo calcular horários, localizar estrelas, identificar posições celestes e até orientar práticas religiosas, como a direção de Meca.
Um outro fato que mostra a diversidade cultural da peça são as inscrições que combinam diferentes tradições linguísticas, com registros em persa e sânscrito, refletindo a circulação de conhecimento entre regiões e povos naquele período. Esse cruzamento evidencia o papel do mundo islâmico como um importante elo na preservação e no avanço da ciência ao longo da história.
Antes de chegar ao mercado, o astrolábio passou por coleções privadas e teve ligação com a realeza indiana, o que contribuiu para sua valorização. O preço final, foi impulsionado pela sua trajetória somada ao estado de conservação e a complexidade técnica.
*Estagiária sob supervisão de Paulo Leite
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