O geneticista norte-americano J. Craig Venter, um dos principais responsáveis pela revolução da genômica no fim do século 20, morreu em 29 de abril de 2026, aos 79 anos, em San Diego, nos Estados Unidos. A morte foi confirmada oficialmente ontem (30) pelo J. Craig Venter Institute, organização fundada pelo próprio cientista. Segundo a instituição, Venter morreu após uma breve internação hospitalar causada por efeitos colaterais inesperados do tratamento de um câncer diagnosticado recentemente.
Nascido em 1946, Venter foi uma figura central na corrida científica para decifrar o genoma humano — o conjunto completo de instruções genéticas que define o funcionamento do organismo. À frente da empresa Celera Genomics, ele liderou uma iniciativa privada que competiu diretamente com o consórcio público internacional do Projeto Genoma Humano. Essa disputa acelerou significativamente o processo de sequenciamento, culminando, em 2000, no anúncio do primeiro rascunho do genoma humano.
O cientista também foi responsável por popularizar técnicas inovadoras, como o sequenciamento “shotgun”, que permitiram analisar grandes volumes de DNA com mais rapidez e menor custo, mudando definitivamente o ritmo da pesquisa genética.
Biologia sintética
Após sua contribuição decisiva para o genoma humano, Venter voltou-se para outro campo emergente: a biologia sintética. Em 2010, sua equipe criou a primeira célula bacteriana controlada por um genoma sintético — um marco que abriu caminho para novas aplicações, como a produção de biocombustíveis e microrganismos capazes de capturar carbono.
Além disso, ele liderou projetos de metagenômica marinha, identificando milhões de novos genes em microrganismos oceânicos e ampliando o entendimento da biodiversidade microbiana global.
Controverso
Ao longo da carreira, Venter foi visto tanto como um inovador audacioso quanto como uma figura controversa. Sua decisão de privatizar parte da corrida pelo genoma humano gerou críticas, mas também impulsionou avanços tecnológicos e debates sobre o acesso aos dados genéticos.
Colegas e instituições científicas o descrevem como um “visionário” que ajudou a transformar a biologia em uma ciência orientada por dados em larga escala, com impactos diretos na medicina, na farmacologia e na biotecnologia.
“J. Craig Venter foi um pioneiro destemido e inquieto do sequenciamento de genomas e da biologia sintética. Eu estava trocando e-mails com ele há poucas semanas sobre um novo projeto de escrita. Ele mencionou um novo diagnóstico, mas a notícia ainda assim foi um choque”, contou Roger Highfield, diretor científico do Science Museum Group.
“Craig Venter era uma força da natureza e uma figura realmente importante, embora controversa. Quando estava no Instituto de Pesquisa Genômica (TIGR), ele foi responsável pelo primeiro rascunho do genoma humano no âmbito do Projeto Genoma Humano”, narrou John Hardy, Professor de Neurociência e Líder de Grupo no Instituto de Pesquisa em Demência do Reino Unido, University College London (UCL). “A corrida para completar a sequência humana foi uma competição acirrada entre os consórcios dos EUA e do Reino Unido, com as grandes personalidades de Francis Collins e Eric Lander de um lado e a equipe de Craig do outro. Não há dúvida de que essa competição acelerou enormemente o processo, que terminou em um empate técnico, com ambos os lados publicando simultaneamente na Science e na Nature”, complementou.
Com mais de 200 publicações científicas e uma trajetória marcada por descobertas pioneiras, Venter deixa um legado profundo. Ele foi um dos primeiros cientistas a demonstrar que a leitura e a manipulação do DNA poderiam ser ferramentas centrais para compreender — e até reprogramar — a vida.
Saiba Mais
