Presente nas embalagens de alimentos, cosméticos, produtos de higiene pessoal, brinquedos e até em artefatos médicos, uma substância química chamada di-2-etilhexilftalato (DEHP), do grupo dos ftalatos, pode estar associada a quase 2 milhões de partos prematuros registrados em 2018, o equivalente a quase 9% de todos os nascimentos antes do tempo ocorridos globalmente naquele ano. Segundo um estudo publicado ontem na revista EBioMedicine, o resultado lança um alerta sobre os impactos negativos desses aditivos plásticos, praticamente onipresentes, na saúde materno-infantil.
Os ftalatos são químicos usados para tornar o plástico mais flexível e, assim como outras substâncias industriais, pertencem a um grupo conhecido como desreguladores endócrinos. Isso significa que podem interferir no funcionamento normal dos hormônios, fundamentais para regular processos como crescimento, metabolismo e reprodução. O químico pode entrar no organismo por ingestão, inalação e absorção pela pele quando há exposição às fontes, como cosméticos e alimentos industrializados (devido à embalagem).
Os autores do estudo, da Faculdade de Medicina do NYU Langone Health, em Nova York, também afirmam que os nascimentos prematuros associados aos ftalatos podem ter contribuído para a morte de aproximadamente 74 mil recém-nascidos no mesmo período, além de milhões de anos de vida perdidos ou vividos com algum grau de incapacidade. O impacto mais intenso foi registrado em regiões como o Sul da Ásia, Oriente Médio e África, onde se concentram mais da metade dos casos estimados.
Wandky Alisson, médico com pós-graduação em endocrinologia, metabologia, fisiologia e nutrição clínica, explica que, durante a gestação, o corpo depende de um equilíbrio hormonal extremamente ajustado, o que pode ser prejudicado pelos desreguladores endócrinos. "Os ftalatos podem alterar a placenta, reduzir a eficiência de troca materno-fetal, prejudicar os nutrientes e a oxigenação. Também aumentam a inflamação sistêmica, porque ativa as vias pró-inflamatórias, o que está relacionado ao parto prematuro." Alisson também destaca que essas substâncias podem induzir o estresse oxidativo, danificando o tecido placentário e afetando o desenvolvimento fetal.
"Além da exposição direta, essas substâncias podem causar alterações epigenéticas", diz a endocrinologista pediátrica Thais Milioni Luciano, da plataforma Inki. Um exemplo é a mudança na metilação do DNA em genes responsáveis pelo controle hormonal. "Isso significa que, embora a sequência genética do bebê não seja alterada, a forma como os genes 'se expressam' é modificada, podendo silenciar ou ativar funções biológicas de maneira indevida." Segundo a especialista, essas interferências ocorrem frequentemente em períodos críticos do desenvolvimento. "O fenômeno, conhecido como 'programming fetal' (programação fetal), sugere que estímulos ou agressões sofridas no útero têm o potencial de gerar efeitos permanentes, moldando a saúde e o sistema endócrino do indivíduo por toda a vida adulta."
Complicações
O parto prematuro — aquele que ocorre antes das 37 semanas de gestação — é hoje uma das principais causas de morte em crianças menores de 5 anos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Mesmo quando sobrevivem, muitos bebês enfrentam complicações respiratórias, neurológicas e metabólicas ao longo da vida, argumentam os pesquisadores do NYU Langone Health.
"Ao estimarmos o quanto a exposição aos ftalatos pode contribuir para o parto prematuro em todo o mundo, nossas descobertas destacam que a redução da exposição, especialmente em regiões vulneráveis, pode ajudar a prevenir partos prematuros e os problemas de saúde que frequentemente os acompanham", explica a autora principal, Sara Hyman. Estudos anteriores associaram a exposição ao DEHP a câncer, doenças cardíacas e infertilidade, entre outros problemas de saúde, acrescenta Hyman, pesquisadora associada da Escola de Medicina Grossman da Universidade de Nova York.
No estudo, os cientistas estimaram a exposição ao DEHP em 2018 em 200 países e territórios, reunindo dados de grandes pesquisas nacionais nos Estados Unidos, Europa e Canadá. A escolha daquele ano justifica-se por ser a data mais recente com uma quantidade robusta de dados. Os pesquisadores também usaram informações de pesquisas anteriores para preencher as lacunas de regiões que não tinham informações próprias atualizadas.
Em seguida, os autores coletaram dados de artigos que avaliaram a relação de ftalatos e parto prematuro e fizeram projeções da exposição global. Por fim, combinaram as informações com estatísticas mundiais sobre nascimentos e mortes precoces para descobrir qual parcela desses desfechos poderia estar relacionada ao DEHP.
Os mesmos passos foram repetidos com outra substância química, o ftalato de diisononilo (DiNP), um substituto comum do DEHP. Os resultados indicam que o DiNP pode representar um risco semelhante: a toxina teria contribuído para cerca de 1,88 milhão de partos prematuros em todo mundo. Segundo os autores, os custos econômicos associados às mortes dos bebês que nasceram antes da 37ª semana variaram de milhões a centenas de bilhões de dólares, para ambas as substâncias avaliadas.
"Nossa análise deixa claro que regular os ftalatos um de cada vez e substituí-los por substâncias pouco compreendidas provavelmente não resolverá o problema maior", comentou, em nota, o autor sênior do estudo, Leonardo Trasande. "Estamos jogando um jogo perigoso de 'acertar a toupeira' com produtos químicos nocivos, e essas descobertas destacam a necessidade urgente de uma supervisão mais rigorosa e abrangente dos aditivos plásticos para evitar a repetição dos mesmos erros."
Cautela
A endocrinologista pediátrica Thais Milioni Luciano destaca que os resultados exigem uma leitura cautelosa, porque não é possível afirmar com toda certeza que a exposição diária aos ftalatos provoque efeitos no organismo. "Atualmente, a ciência ainda não permite uma resposta definitiva e segura sobre o tema. Enquanto alguns estudos apontam riscos claros, outros ressaltam a onipresença dessas substâncias, o que tornaria a convivência com elas inevitável", diz.
Segundo a especialista, embora seja possível detectar esses compostos no organismo, faltam informações sobre como eles interagem com os hormônios ou se geram consequências graves a longo prazo. "Por isso, a recomendação de evitar o contato está mais ligada à cautela diante do desconhecido do que, propriamente, a um risco já totalmente mapeado", explica.
Os pesquisadores reconhecem as limitações no estudo, como a falta da inclusão de outros tipos de ftalatos na análise e a margem de incerteza das análises estatísticas. Porém, a autora principal, Sara Hyman, acredita que a pesquisa estabelece uma base importante para investigações futuras que confirmem e refinem esses resultados. "É fundamental avançar em políticas públicas que regulem o uso dessas substâncias e incentivem alternativas mais seguras", aponta.
