O Instituto Nacional do Câncer indica que, anualmente, são diagnosticados cerca de 780 mil casos de diferentes tumores no país. Diante desse cenário, a ciência brasileira tem avançado no desenvolvimento de tratamentos de ponta. Universidades, hospitais e institutos trabalham em conjunto para desenvolver versões nacionais da técnica CAR-T, uma imunoterapia na qual células de defesa do paciente são extraídas, reprogramadas e reintroduzidas no organismo. Essa abordagem é considerada mundialmente uma das maiores revoluções contra carcinomas hematológicos, utilizada quando outras tentativas mais tradicionais de tratamento falham.
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A tecnologia CAR-T começou a ser desenvolvida nos Estados Unidos no início da década de 2010. Não demoraria para tornar-se uma das maiores inovações da medicina. Os resultados dos estudos levaram à aprovação da terapia pela Food and Drug Administration (FDA), uma espécie de Anvisa dos EUA, em 2017. Um ano depois, as pesquisas em imunoterapia renderam o Prêmio Nobel de Medicina aos cientistas James P. Allison e Tasuku Honjo. No Brasil, desde 2019 estudos são feitos para desenvolver uma versão nacional, e uma dessas abordagens foi aprovada para uso em 2022. É a única autorizada ainda hoje no país.
Recentemente, o Hemocentro de Ribeirão Preto, ligado à Universidade de São Paulo (USP), foi escolhido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para conduzir o projeto-piloto brasileiro de produtos de terapia avançada voltados ao tratamento de pacientes com leucemia e linfoma por meio do CAR-T. A Anvisa aprovou o relatório de segurança da primeira fase do estudo clínico, chamado Carthedrall, e autorizou a realização da segunda etapa, que já está em andamento.
Passo decisivo
Ao Correio, o diretor-presidente do Hemocentro de Ribeirão Preto e coordenador do Centro de Terapia Celular da USP, Rodrigo Calado, frisou que o Carthedrall é um avanço importante para a produção nacional de terapia celular CAR-T. "A aprovação do relatório de segurança da primeira fase foi um passo decisivo. No momento, estamos conduzindo o estudo em si. Precisamos atingir os objetivos de número de pacientes recrutados para leucemia e linfoma, aguardar o tratamento, fazer as análises interinas e submeter esses resultados à Anvisa."
O estudo clínico pretende tratar 81 pacientes com leucemia linfoide aguda de células B e linfoma não Hodgkin de células B refratários. A pesquisa é multicêntrica e envolve cinco locais de referência: Hemocentro de Ribeirão Preto, Hospital das Clínicas da USP, Hospital Sírio-Libanês, Beneficência Portuguesa e Hospital de Clínicas da Universidade de Campinas (Unicamp).
Conforme Calado, o Brasil pode se tornar uma referência nesse tipo de tratamento. "Recentemente foi promulgada pelo governo federal uma lei facilitando os passos para que tecnologias, como terapias avançadas contra o câncer, possam ser incorporadas mais rapidamente. Além disso, estamos dialogando com países vizinhos para troca de experiências e para colaborarmos com essas nações, de forma que elas possam desenvolver terapêuticas semelhantes."
Logística complicada
No Brasil, os primeiros resultados clínicos de estudos surgiram em 2019, um ano após a dupla de cientistas ser laureada com um Nobel por conta da tecnologia. Na época, um paciente com linfoma terminal tratado experimentalmente no Hemocentro de Ribeirão Preto entrou em remissão. Desde então, mais pessoas apresentaram respostas positivas.
Hoje, abordagens com CAR-T podem custar cerca de R$ 2,5 milhões por pessoa. Apesar de estar disponível no Brasil para pacientes com mieloma múltiplo, tumor considerado incurável, o material coletado deve ser transportado para os Estados Unidos e enviado de volta para a reinfusão, processo que leva mais de um mês. Assim, a produção nacional é considerada estratégica para reduzir custos e tempo, ampliando o acesso.
Futuro promissor
Recentemente, o Instituto Butantan fechou uma parceria internacional com a biofarmacêutica chinesa Iaso Bio para desenvolvimento local de uma nova terapia CAR-T. O acordo prevê a produção local do tratamento no Núcleo de Terapias Avançadas de São Paulo (Nutera-SP).
Coordenador do Nutera-SP e professor titular de hematologia da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), Vanderson Rocha destaca que o acordo visa reduzir significativamente o custo, por conta da produção e do desenvolvimento locais. "Um dos principais desafios é que essa terapia seja produzida em larga escala no Brasil. Cada paciente tem a sua própria 'fabricação' das células que serão trabalhadas. Inicialmente, temos que demonstrar que o produto funciona no Brasil como funciona na China."
Ao Correio, Rocha reforçou que a parceria pode abrir caminhos para tratar vários outros tipos de tumores. "Atualmente, existem diversos trabalhos e estudos sendo realizados pela Iaso sobre tumores sólidos e também em doenças autoimunes. Isso mostra que a colaboração pode ser muito frutífera nos próximos anos para tentar aumentar o acesso dessa terapia para os pacientes do SUS."
Outro destaque nacional é o projeto Carthiae, conduzido pelo Einstein Hospital Israelita. O estudo foi o primeiro do país aprovado pela Anvisa com processamento integral em território nacional. O modelo, chamado "point of care" (ponto de cuidado), permite que a coleta, a edição celular e a reinfusão sejam realizadas dentro da instituição, descartando a necessidade de transporte do material e reduzindo o tempo entre as etapas para cerca de 12 dias.
Conforme a coordenadora do Centro de Excelência em Terapia Celular do Einstein, Lucila Kerbauy, há várias iniciativas brasileiras na busca por inovação de tratamentos para diferentes condições. "No hospital por exemplo, não temos só CAR-T, mas outras, como as células CAR-NK, para diversas doenças, incluindo mieloma múltiplo, leucemia mieloide aguda e alguns tipos de tumores sólidos, como glioblastoma, câncer de pâncreas e de intestino."
Resultados prévios dos estudos brasileiros indicam taxas de resposta de aproximadamente 80% em pacientes cujos tratamentos iniciais não obtiveram sucesso, reforçando o potencial da ciência nacional no desenvolvimento de abordagens eficientes e acessíveis contra o câncer.
