Uma das principais causas de hospitalização infantil em todo o mundo, o vírus sincicial respiratório (VSR) pode provocar doenças graves em bebês, incluindo bronquiolite e pneumonia. A infecção na primeira infância também está associada a potenciais efeitos a longo prazo, como sibilância e asma. Mas uma estratégia simples — a vacinação de gestantes — tem potencial de mudar esse cenário. No maior estudo já realizado sobre o impacto do imunizante, cientistas do Reino Unido constataram que a abordagem reduz em mais de 80% o risco de internação de recém-nascidos quando administrada pelo menos duas semanas antes do nascimento.
Altamente contagioso, o VSR representa uma ameaça para o ainda imaturo sistema imunológico do bebê que, além disso, nasce com as vias aéreas muito estreitas. Os dados de monitoramento mais recentes da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostram que todos os estados brasileiros registram alta incidência de síndrome respiratória grave, especialmente em crianças menores de 2 anos, impulsionada pelo vírus sincicial. "As formas mais importantes de mitigar a vulnerabilidade do bebê são a vacinação da mãe, a amamentação e a imunização do recém-nascido", diz Ariane Melaré, médica infectologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.
No estudo britânico, apresentado no Congresso da Sociedade Europeia de Microbiologia Clínica e Doenças Infecciosas 2026, os pesquisadores da Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido (UKHSA) usaram conjuntos de dados cruzados, incluindo informações sobre imunização e hospitalizações. A análise incluiu 289.399 bebês nascidos entre 2 de setembro de 2024 e 24 de março de 2025, representando cerca de 90% dos nascimentos na Inglaterra durante esse período.
Eficácia
Na população estudada, foram registradas 4.594 hospitalizações associadas ao VSR. Embora os bebês nascidos de mulheres não vacinadas representassem 55% da amostra total, eles foram responsáveis por 87,2% das internações. Por outro lado, crianças cujas mães foram imunizadas pelo menos 14 dias antes do parto tiveram um risco significativamente menor de serem internados com infecção respiratória. Segundo os autores, a eficácia estimada da substância foi de 81,3%, comparado ao grupo não protegido.
"Sendo o maior estudo até o momento a examinar o impacto dessa vacina na hospitalização infantil, as descobertas fornecem evidências robustas de que a vacinação oferece proteção substancial contra doenças graves em bebês", comentou Matt Wilson, epidemiologista da UKHSA e principal autor do trabalho. "Encontramos uma relação clara entre o momento da vacinação e a proteção, com a eficácia aumentando à medida que o intervalo entre a vacinação e o nascimento se estende, chegando perto de 85% quando a vacinação ocorre pelo menos quatro semanas antes do parto."
Wilson esclarece que, embora normalmente sejam necessárias pelo menos duas semanas para a proteção ideal, mesmo os bebês nascidos entre 10 a 13 dias após a vacinação tiveram 50% menos internações hospitalares, comparados àqueles cujas mães não foram imunizadas. "Isso reforça a importância da vacinação o mais cedo possível dentro do período recomendado, demonstrando também que, mesmo quando administrada mais tarde na gravidez, alguma proteção ainda é possível a partir de cerca de 10 dias antes do nascimento, embora a vacinação mais precoce continue sendo preferível."
SUS
No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece, desde novembro de 2025, a vacina para VSR dentro do Calendário de Vacinação da Gestante. A substância, disponível nas unidades básicas de saúde, é recomendada a partir da 28ª semana gestacional, sem restrição de idade materna. O imunizante não contém o vírus vivo, nem atenuado: a substância é formulada a partir de uma proteína retirada do micro-organismo, que estimula a produção de anticorpos maternos neutralizantes.
Uma vez que a mãe é vacinada, os anticorpos atravessam a placenta e conferem imunidade ao feto. "A vacina é extremamente segura", garante Moacyr Silva, médico infectologista do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo. "Como é feita de proteína recombinante, não há vírus, apenas partículas, por isso não existe risco nem da gestante desenvolver uma infecção, nem de ocorrer parto precoce. Em vez disso, a mãe vai ficar protegida", esclarece.
"Os dados dos estudos já realizados sobre a vacinação de VSR em gestantes são robustos e consistentes, mostrando grande eficiência no contexto real", concorda André Bon, coordenador de infectologia do Hospital Brasília e presidente da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal. Segundo o médico, dados sobre a implementação de estratégias de combate às infecções respiratórias em crianças chilenas mostraram uma redução de 85% das internações em unidades de terapia intensiva (UTI) associadas ao VSR e queda de 66% nas hospitalizações relacionadas a infecções das vias aéreas por qualquer causa. "Portanto, a estratégia de imunização contra VSR tem grande impacto no combate a esse vírus, com especial impacto na redução da lotação das UTI no período de sazonalidade", diz.
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