Um estudo publicado nesta quarta-feira (20/5) na Agência FASESP, conduzido por cientistas do Universidade de São Paulo (USP), revelou que microplásticos e poluentes químicos persistentes já estão presentes em regiões profundas do oceano Atlântico Sul, na Bacia de Santos, a cerca de 140 quilômetros da costa brasileira. A pesquisa analisou sedimentos, peixes e invertebrados coletados entre 400 e 1.500 metros de profundidade e identificou sinais de contaminação em um dos ambientes mais remotos do país.
O trabalho desenvolvido por meio do Instituto Oceanográfico (IO-USP), em parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, foi publicado na revista científica Marine Pollution Bulletin. Segundo os pesquisadores, o estudo amplia o entendimento sobre como resíduos produzidos pela atividade humana conseguem alcançar áreas consideradas de difícil acesso e altamente preservadas
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A pesquisa apontou a presença de microplásticos e de poluentes orgânicos persistentes, conhecidos como POPs, substâncias químicas que permanecem no ambiente por longos períodos e podem causar impactos à fauna marinha.
Entre os compostos identificados estão os PCBs, que foram encontrados nos sedimentos do fundo do mar e também em peixes analisados pelos cientistas e o PBDEs, aplicados como retardantes de chama em produtos industriais, aparecendo apenas nos organismos marinhos.
As amostras incluíram espécies de peixes de profundidade, como Parasudis truculenta, Hoplostethus occidentalis, Coelorinchus marinii e Neoscopelus macrolepidotus. O material foi coletado em 2019, durante expedições realizadas pelo navio oceanográfico Alpha Crucis da USP.
Além dos contaminantes químicos, a pesquisa analisou a presença de microplásticos em invertebrados marinhos. Das nove espécies avaliadas, três apresentaram partículas plásticas no sistema digestório.
O caso mais preocupante foi o do pepino-do-mar Deima validum, animal que vive no fundo oceânico e se alimenta de matéria orgânica acumulada nos sedimentos. Os pesquisadores encontraram fibras de materiais como poliamida, poliestireno e poliacrilonitrila, frequentemente usados pela indústria têxtil e na fabricação de plásticos resistentes.
Parte desses resíduos pode estar associada à atividade offshore na região da Bacia de Santos, onde plataformas de exploração de petróleo operam atualmente.
Para evitar interferências nos resultados, os cientistas adotaram protocolos rigorosos contra contaminação das amostras durante as análises laboratoriais. O controle incluiu o uso de equipamentos sem fibras sintéticas e monitoramento do ar e das superfícies do ambiente de pesquisa.
Os autores destacam que este é um levantamento inicial e que novos estudos serão necessários para entender os impactos desses poluentes sobre a biodiversidade marinha profunda. Apesar da distância da costa, os resultados reforçam que o oceano profundo não está isolado das ações humanas.
“Esse é mais um passo para entendermos a ocorrência desses poluentes no mar profundo do Brasil. O maior desafio, porém, é determinar a origem dos compostos, já que tanto microplásticos quanto POPs são transportados na atmosfera, e como eles impactam a fauna de profundidade”, conta Gabriel Stefanelli-Silva, primeiro autor do estudo à Agência Fapesp.
De acordo com os pesquisadores, o alto custo e a dificuldade de acesso ao mar profundo tornam o monitoramento limitado, mas essencial para compreender os efeitos da poluição nos ecossistemas oceânicos brasileiros.
*Estagiária sob supervisão de Mariana Niederauer
