O aquecimento global continua avançando em ritmo preocupante, e o planeta está cada vez mais próximo de ultrapassar o limite crítico de 1,5°C, estabelecido pelo Acordo de Paris. O alerta foi reforçado nesta quinta-feira (11), por um grupo internacional de mais de 70 cientistas de 17 países, responsáveis pela quarta atualização anual dos principais indicadores do estado do sistema climático global. A pesquisa foi publicada na revista Earth System Science Data.
O estudo, liderado por Piers Forster, da Universidade de Leeds, no Reino Unido, atualiza dados fundamentais utilizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). A análise reúne informações de quase 40 conjuntos de dados obtidos por satélites, estações meteorológicas, navios, boias oceânicas e balões-sonda.
De acordo com o relatório, as atividades humanas elevaram o aquecimento global para 1,37°C, em 2025, em relação ao período pré-industrial, entre 1850 e 1900. Considerando a variabilidade natural do clima, o aquecimento observado alcançou 1,39°C. Mantido o atual ritmo de emissões, os pesquisadores estimam que o limite de 1,5°C deverá ser ultrapassado por volta de 2030.
"A velocidade do aquecimento provocado pelo ser humano permanece em seu nível mais elevado já registrado", destacam os autores. Atualmente, a temperatura média global aumenta cerca de 0,27°C por década devido às atividades antropogênicas.
Segundo Marco Moraes, divulgador científico, autor do livro Planeta Hostil e colunista da Sler, a ultrapassagem da marca de 1,5°C não é um mero cruzamento de uma linha imaginária, mas o acionamento de gatilhos críticos na estabilidade do planeta. "Para a população global, as consequências mais imediatas se manifestarão na forma de extremos climáticos acentuados. A frequência e a intensidade de ondas de calor excepcionais, secas severas e precipitações torrenciais aumentarão substancialmente, afetando a segurança alimentar e hídrica de centenas de milhões de pessoas."
"O que a ciência nos mostra de forma clara é que não estamos apenas alterando o clima. Estamos reconfigurando as condições fundamentais de habitabilidade da Terra. A constatação de que a Amazônia pode cruzar um ponto de não retorno, ou de que os oceanos estão acidificando a taxas não vistas em 65 milhões de anos, deve servir como um chamado à ação", completa o especialista.
O estudo aponta que as emissões globais de gases de efeito estufa atingiram um novo recorde em 2024, alcançando 56,8 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e). A principal causa da liberação continua sendo a queima de combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, as concentrações atmosféricas dos três principais gases também bateram recordes em 2025: 425,6 partes por milhão (ppm) de CO2, 1.936,3 partes por bilhão (ppb) de metano (CH2) e 339,4 ppb de óxido nitroso (N2O).
Outro indicador que preocupa os pesquisadores é o chamado "desequilíbrio energético da Terra", diferença entre a energia solar absorvida pelo planeta e aquela devolvida ao espaço. Segundo o relatório, esse indicador atingiu níveis sem precedentes, evidenciando o contínuo acúmulo de calor e sugerindo um aquecimento ainda maior nas próximas décadas.
Os cientistas atribuem essa aceleração não apenas ao aumento das emissões de gases de efeito estufa, mas também à redução da poluição por aerossóis. Essas partículas, apesar de prejudiciais à saúde, possuem efeito temporário de resfriamento ao refletirem parte da radiação solar de volta ao espaço.
Extremos climáticos
O aquecimento acelerado reflete-se em eventos extremos. Pela primeira vez, o relatório incluiu um indicador específico para ondas de calor marinhas. A ocorrência desse fenômeno mais que triplicou desde 1991, alcançando 65 dias em 2025. As temperaturas extremas em áreas continentais também aumentaram significativamente: a média das máximas registradas foi de 1,92°C na última década, quase meio grau acima do período anterior.
O nível médio global do mar também atingiu um novo recorde. Desde 1901, a elevação acumulada chegou a 23 centímetros. Atualmente, o oceano sobe a uma taxa próxima de 3,84 milímetros por ano, ritmo que vem acelerando rapidamente devido ao derretimento de geleiras e à expansão térmica das águas.
Além dos dados climáticos, os pesquisadores demonstraram preocupação com o enfraquecimento dos sistemas globais de monitoramento. Cortes orçamentários ameaçam programas de observação da Terra, especialmente nos Estados Unidos. O relatório cita ainda a redução de recursos destinados à Organização Meteorológica Mundial (OMM), ao Programa Mundial de Pesquisa do Clima e ao Sistema Mundial de Observação do Clima.
Para os especialistas, o monitoramento contínuo é essencial para acompanhar a evolução das mudanças climáticas. "Os indicadores representam um acompanhamento vital dos sinais de um paciente que apresenta sintomas cada vez mais preocupantes", afirmou Peter Thorne, professor da Universidade de Maynooth, na Irlanda, e integrante do IPCC.
Ronaldo Christofoletti, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), detalha que, quando há cortes em sistemas de monitoramento e os dados deixam de estar disponíveis para quem faz ciência, as informações necessárias passam a ser estimadas. "Porém, a cada estimativa adicional, perde-se precisão. A previsão fica mais sujeita a erros. Por isso, o investimento na área é essencial em todas as escalas e em todos os países. Por exemplo, todos municípios brasileiros — ou, se não todos, pelo menos alguns de cada estado — deveriam contar com monitoramento do nível do mar, atmosférico, de temperatura e das chuvas", explica Ronaldo.
Os dados atualizados serão disponibilizados em uma nova plataforma desenvolvida em parceria com o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), permitindo que pesquisadores, governos e a sociedade acompanhem em tempo real a influência das atividades humanas sobre o clima do planeta.
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