Saúde bucal

Bruxismo deixa de ser doença: veja quando tratar a condição

Consenso internacional de especialistas muda a definição do bruxismo, um comportamento caracterizado pela atividade repetitiva dos músculos responsáveis pelos movimentos da mandíbula. Em artigo, autores defendem que tratamento só é necessário quando há danos

Ranger ou apertar os dentes nem sempre significa que há uma doença instalada. Um consenso internacional de especialistas em odontologia e dor orofacial propõe uma mudança na maneira como o bruxismo é definido e avaliado: o comportamento passa a ser compreendido principalmente como uma atividade repetitiva dos músculos responsáveis pelos movimentos da mandíbula — que pode ocorrer tanto durante o sono quanto em vigília — e não necessariamente como uma enfermidade.

A atualização foi publicada no Journal of Oral Rehabilitation por um grupo internacional de especialistas que se reuniu no encontro da International Association for Dental, Oral and Craniofacial Research (IADR). O objetivo foi revisar definições que vinham sendo utilizadas desde consensos anteriores, de 2013 e 2018, e esclarecer dúvidas que persistiam entre profissionais, pesquisadores e pacientes. 

Com a mudança na linguagem, o bruxismo não significa mais automaticamente uma doença. “O fato de o paciente apertar ou ranger os dentes não quer dizer, por si só, que exista um problema a ser tratado. Na consulta, avaliamos se esse comportamento está provocando desgaste dos dentes, dor ou fadiga nos músculos da face, sobrecarga da articulação temporomandibular ou outros sintomas. É a presença e a intensidade dessas consequências que ajudam a definir a necessidade de intervenção”, explica Leonardo Acioli, dentista e fundador da SorriaMed. 

Noturno e diurno

A definição atual separa duas manifestações. O bruxismo do sono corresponde à atividade dos músculos da mastigação durante o período de sono, que pode ser rítmica ou não rítmica. Já o bruxismo em vigília ocorre quando a pessoa está acordada e pode envolver contato repetitivo ou prolongado dos dentes, contração da mandíbula ou movimentos de projeção da mandíbula.

Segundo o painel de especialistas que publicou o consenso, a distinção é importante porque o comportamento durante o dia pode passar despercebido. Algumas pessoas mantêm os dentes encostados enquanto trabalham, dirigem, estudam ou enfrentam situações de concentração, sem necessariamente ranger os dentes. Em outros casos, podem perceber que apertam a mandíbula em determinados momentos.

O consenso também ressalta a necessidade de compreender melhor a relação entre o bruxismo e outras condições. Os autores apontam que ainda são necessárias pesquisas sobre possíveis associações entre o bruxismo do sono e problemas relacionados ao sono, como apneia obstrutiva, síndrome das pernas inquietas, doença do refluxo gastroesofágico relacionada ao sono, transtorno comportamental do sono REM, doença de Parkinson e epilepsia relacionada ao sono. 

Estresse

Segundo Leonardo Acioli, uma associação importante do bruxismo é com a saúde mental, o que ajuda a explicar por que o comportamento pode se tornar mais frequente em períodos de ansiedade e estresse. O dentista cita um estudo publicado na revista Frontiers in Neurology, segundo o qual adultos sob estresse têm 97% mais risco de manifestar o bruxismo. “Muitas vezes, precisamos entender como está o sono, quais são os níveis de desgaste da rotina e se existe algum fator psicológico associado. Em alguns casos, a pessoa passa o dia inteiro em estado de tensão e mantém a musculatura da mandíbula contraída sem perceber”, relata.

Leonardo Acioli esclarece que, quando o bruxismo provoca desgaste dentário, dor muscular ou sobrecarga da ATM, uma das alternativas mais utilizadas é a placa oclusal, confeccionada sob medida a partir da arcada dentária e usada durante o sono. Ajustes e restaurações dentárias são necessários quando existe perda significativa de estrutura, enquanto procedimentos restauradores podem recuperar dentes fraturados ou comprometidos. 

Quando há dor e alterações musculares ou na ATM, a fisioterapia orofacial também pode integrar o tratamento, com técnicas voltadas ao fortalecimento da face e da mandíbula, exercícios e medidas para melhorar a mobilidade. Já em quadros associados a ansiedade, estresse ou alterações do sono, o cuidado pode envolver terapia cognitivo-comportamental, técnicas de relaxamento e mudanças na rotina. “O tratamento precisa olhar para a pessoa e não apenas para o bruxismo. A ideia é identificar o que está causando impacto e atuar diretamente nesses pontos”, resume o especialista da SorriaMed.


 

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