A paisagem da música contemporânea, moldada por plataformas de streaming e consumo digital incessante, impõe desafios e oportunidades inéditas para a gestão de direitos autorais.
Longe dos discos de vinil que um dia dominaram o cenário, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) emerge como um protagonista tecnológico, redefinindo sua infraestrutura para lidar com um volume assombroso de dados.
De acordo com uma reportagem do Valor Econômico, em 2023, a organização não apenas processou 5,8 trilhões de execuções digitais e 50 bilhões de exibições audiovisuais, mas também orquestrou a distribuição de R$ 1,7 bilhão para criadores, em um montante total arrecadado de R$ 2,1 bilhões.
Essa performance impressionante não é por acaso; é fruto de uma profunda modernização que posiciona o Ecad na vanguarda da tecnologia.
"Tudo que você escuta de música hoje é computado e bilhetado pelo sistema do Ecad, que é acessado por mais de 640 mil usuários ativos", ressalta Thiago Spósito, sócio-fundador da Add Value. A consultoria foi a força motriz por trás da metamorfose tecnológica que consolidou sistemas antes dispersos, erradicou gargalos operacionais e elevou exponencialmente a capacidade de processamento em nuvem da entidade. A transição é radical: de um throughput limitado a 1 gigabit por segundo, o Ecad agora opera com 10 Gbps, com potencial para escalar até mil gigas, um salto que reflete a ambição e a necessidade de acompanhar o ritmo frenético do consumo musical global.
Ricardo Loureiro, diretor da Citrix Latam para o Brasil, parceira tecnológica do Ecad há mais de duas décadas, enfatiza a magnitude dessa evolução. A migração para a nuvem ganhou força há dois anos, marcando o início de uma nova era para a gestão de direitos autorais. Valéria Pessôa, gerente executiva de TI do Ecad, descreve a entidade como uma empresa de tecnologia disfarçada de órgão setorial.
A adoção de ferramentas como Kubernetes, para automatizar a operação de aplicações em nuvem, e NetScaler, que distribui o tráfego de dados e previne sobrecargas, foi crucial. "O balanceador antigo não aguentava mais a carga necessária. Estávamos pilotando na mão para não deixar o servidor cair", revela a executiva, ilustrando a urgência da modernização.
Essa estrutura híbrida, combinando servidores físicos e processamento em nuvem, é o alicerce de uma operação que hoje identifica gravações inteiramente no ambiente digital. Embora os valores do contrato de renovação trienal sejam confidenciais, a expectativa de crescimento anual de 15% nos processamentos digitais sinaliza a crença na eficácia do novo modelo. É importante notar que, apesar do avanço digital, uma parcela significativa da arrecadação ainda provém de fontes "analógicas" como shows, eventos, rádio e televisão, o que demonstra a complexidade e a abrangência da atuação do Ecad.
Com um acervo de aproximadamente 25 milhões de obras nacionais e internacionais e 5 milhões de áudios cadastrados, a modernização do Ecad se materializa de forma mais visível ao público através do EcadNet. Lançada em 2005 e integrada aos sistemas de arrecadação e identificação automática, essa plataforma aberta de consulta ao repertório musical é um marco na busca por transparência.
As antigas críticas sobre a lentidão e a falta de clareza nas consultas são coisa do passado. "Quando alguém consultava uma obra em um banco de dados enorme sem estrutura balanceada, dependendo da consulta, havia drop e a pessoa ficava esperando muito tempo. Hoje, a resposta vem rápida, independentemente da forma de consulta", celebra Valéria Pessôa.
Mais do que apenas arrecadar e distribuir, os sistemas do Ecad agora processam boletos, relatórios de uso de plataformas digitais, canais de TV e estações de rádio, reforçando seu papel central na engrenagem da indústria musical.
