No pátio do centro comunitário da Comunidade Quilombola Malhadinha, em Brejinho de Nazaré, será dado o ponto de partida de uma nova fase na relação entre tradição e tecnologia no norte do Brasil. No sábado, 28, é ali que a jornalista, comunicadora e ativista antirracista Maju Cotrim chega com o celular na mão, cruzando o espaço onde acontecem festas, reuniões e celebrações ancestrais, para lançar o projeto “Conexão Quilombola: mulheres que conectam saberes” e aproximar o mundo digital dos sonhos e lutas das mulheres quilombolas.
Baiana, tocantinense de coração e filha de trabalhadora doméstica, Maju construiu sua trajetória profissional no estado que escolheu para viver, rompendo barreiras sociais até se formar em jornalismo em Palmas. Ao longo dos anos, consolidou-se como comunicadora, empresária e liderança antirracista, à frente de um veículo que aposta em jornalismo humanizado, voltado a direitos humanos, enfrentamento ao racismo e escuta de povos tradicionais, periferias e, em especial, mulheres negras quilombolas. Sua atuação ultrapassa a redação: está em debates, formações, palestras e, agora, nos espaços comunitários das comunidades rurais, levando a comunicação para dentro dos territórios.
“Quando a comunicação chega, a autoestima cresce. Quando o acesso digital se organiza, as oportunidades se multiplicam. O Conexão Quilombola nasce para conectar histórias, fortalecer vozes e abrir caminhos”, resume Maju Cotrim, sintetizando a proposta do projeto.
O que é quilombo e por que isso importa para quem está fora do Tocantins
Para quem lê a partir de outras regiões do país, entender o que é um quilombo é fundamental para compreender a dimensão do Conexão Quilombola. Quilombos são comunidades formadas historicamente por descendentes de pessoas negras escravizadas que resistiram à escravidão e, ao longo de gerações, criaram territórios próprios, baseados em laços de parentesco, organização coletiva, defesa do território, preservação de saberes ancestrais e práticas culturais próprias. Hoje, essas comunidades são reconhecidas em lei como grupos étnico raciais específicos, com direitos territoriais e culturais, embora ainda enfrentem enormes desafios para que esses direitos sejam efetivados.
No Brasil, essas comunidades estão presentes em todas as regiões, muitas vezes em áreas rurais e afastadas dos grandes centros. Elas mantêm tradições, festas religiosas, modos próprios de plantar, cozinhar, criar filhos e se organizar politicamente, ao mesmo tempo em que precisam lidar com conflitos fundiários, ausência de políticas públicas e racismo estrutural. Ser quilombola não é apenas uma condição geográfica; é uma identidade política, cultural e racial vinculada à história da população negra no país.
O mapa quilombola do Tocantins
Dentro desse cenário nacional, o Tocantins ocupa um lugar estratégico. O estado abriga uma das maiores presenças quilombolas da Região Norte. Dados recentes, a partir do recorte quilombola do Censo, indicam que o Tocantins reúne cerca de 13 mil quilombolas, distribuídos em dezenas de comunidades presentes em pelo menos 32 municípios. Isso significa que, para um estado com população relativamente pequena em comparação a outros da federação, a presença quilombola é expressiva e estruturante.
Essas comunidades se espalham por diferentes regiões, com forte concentração em áreas como Brejinho de Nazaré, Mateiros, Arraias, Muricilândia e Santa Fé do Araguaia, entre outras. Estudos e mapeamentos apontam dezenas de comunidades quilombolas já certificadas e outras em processo de reconhecimento, um movimento que revela tanto a riqueza quanto a fragilidade desses territórios. Certificação significa que o Estado brasileiro reconhece oficialmente aquele grupo como quilombola, mas não assegura, por si só, a regularização plena das terras ou o acesso automático a políticas públicas.
Em termos práticos, isso quer dizer que milhares de pessoas vivem em comunidades com forte identidade quilombola, mas ainda lutam diariamente por terra, infraestrutura, inclusão digital, saúde, educação de qualidade e reconhecimento institucional. É nesse contexto que projetos de comunicação e tecnologia ganham peso: eles entram num território em que a resistência é histórica, mas os recursos materiais e digitais ainda são desiguais.
Malhadinha: território de tradição e ponto de partida da inovação
Dentro desse mapa, Malhadinha se destaca como uma comunidade de resistência histórica e riqueza cultural, no qual as mulheres têm papel central na organização coletiva. Elas lideram associações, preservam saberes tradicionais, cuidam da família, produzem alimentos, organizam festejos, movimentam a economia local com agricultura e artesanato e mantêm viva a memória oral do território.
O centro comunitário, que agora recebe o lançamento do Conexão Quilombola, é um símbolo dessa força. Ali se realizam festas religiosas, reuniões sobre a vida da comunidade, debates sobre terra e futuro, celebrações do calendário tradicional. Não é à toa que o projeto começa ali: o espaço comunitário é o coração político e afetivo de Malhadinha, o lugar onde passado, presente e futuro se encontram.
Ao iniciar por Malhadinha, o projeto da influenciadora e jornalista também faz um gesto político claro: reconhece que a inovação não nasce apenas nas capitais, nos laboratórios ou nos grandes escritórios. Ela pode emergir do chão batido de um pátio comunitário, das mãos calejadas de uma artesã, da voz firme de uma liderança quilombola, desde que haja condições e ferramentas.
Conexão Quilombola: o que é e como vai funcionar
O Conexão Quilombola: mulheres que conectam saberes é um projeto de oficinas gratuitas de comunicação e inclusão sociodigital, voltado, prioritariamente, para mulheres quilombolas. A proposta é usar o celular e a internet: tecnologias que já fazem parte do cotidiano, como ferramentas de autonomia econômica, fortalecimento cultural e acesso a direitos.
Em vez de um curso genérico, o projeto parte da realidade de cada território. As oficinas trabalham temas como:
- Uso estratégico das redes sociais para vendas, mobilização e divulgação da comunidade.
- Produção de fotos e vídeos com o celular, incluindo stories, reels e registros do dia a dia com identidade própria.
- Comunicação comunitária, mostrando como cada mulher pode narrar a história do quilombo com seu olhar e sua voz.
- Empreendedorismo digital, com noções de marketing, organização de catálogo on-line e atendimento pelo WhatsApp.
- Acesso a serviços públicos digitais, como Gov.br, benefícios sociais, informações de saúde e educação.
- Segurança e cidadania digital, com orientações para evitar golpes, proteger dados e consumir informação de forma crítica.
Tudo isso é feito em linguagem acessível, com exemplos do cotidiano, respeito ao tempo de cada participante e acolhimento a diferentes níveis de letramento. As oficinas são presenciais, em módulos, para que haja tempo de prática e acompanhamento, garantindo que ninguém fique para trás. Jovens que já navegam nas redes, mulheres adultas com pequenos negócios e anciãs guardiãs da memória do território são convidadas a aprender juntas, numa troca de saberes em que o aprendizado sobre tecnologia também se mistura com as histórias de vida de cada uma.
Um projeto que circula pelos quilombos do Tocantins
Malhadinha é o ponto de partida, mas não o destino final. Depois do lançamento, o Conexão Quilombola foi estruturado para percorrer diferentes regiões do estado, sempre priorizando territórios que já têm algum acesso à internet, mas carecem de formação continuada em comunicação digital. Entre os quilombos já previstos no roteiro estão Mumbuca e Prata, no Jalapão; Ouro Fino, em Paranã; Barra do Aroeira, em Santa Tereza; e Dona Juscelina, em Muricilândia, além de outras comunidades quilombolas mapeadas.
Em cada comunidade, as oficinas se organizam em quatro grandes eixos:
- Alfabetização digital: uso básico de celulares e computadores, navegação segura, criação de e-mail e uso inicial de redes sociais.
- Comunicação e cultura digital: produção de vídeos, podcasts, blogs e outros conteúdos que valorizem a identidade quilombola local.
- Tecnologia para educação e trabalho: acesso a cursos on-line, plataformas de ensino, ferramentas de produtividade e oportunidades de qualificação.
- Tecnologia para empreendedorismo: comércio eletrônico, vendas on-line, meios de pagamento digitais e estratégias de marketing para produtos locais.
Além disso, há um componente transversal: direitos digitais, segurança e privacidade na internet, combate a golpes e fake news, para que as participantes não apenas “entrem” no ambiente digital, mas o ocupem com segurança, criticidade e consciência do próprio poder.
Mulheres quilombolas no centro da transformação
Ao colocar as mulheres quilombolas como público prioritário, o Conexão Quilombola dialoga com a estrutura real desses territórios. Em muitas comunidades, são elas que seguram a base da economia familiar, organizam associações, lutam por regularização fundiária, preservam as tradições, educam as crianças e articulam respostas às crises do dia a dia.
O projeto pensa cada oficina como uma oportunidade para que essas mulheres:
- fortaleçam seus negócios e ampliem vendas no ambiente digital;
- divulguem a cultura de sua comunidade com consciência e orgulho;
- acessem benefícios, políticas públicas e oportunidades com mais autonomia;
- construam redes de apoio e visibilidade com outras mulheres e outros quilombos.
Quando uma mulher quilombola domina a comunicação digital, ela não aprende apenas uma habilidade técnica; ela assume a narrativa sobre seu território, sua luta e seus saberes. Passa a ser referência para as novas gerações e fortalece a autoestima coletiva da comunidade.
Da narrativa à ação: a trajetória de Maju Cotrim
Antes de chegar ao centro comunitário de Malhadinha com o celular na mão, Maju já vinha desenhando esse caminho. Como jornalista e empresária da comunicação, ela consolidou um trabalho comprometido com pautas sociais, com atenção especial a povos tradicionais, periferias e mulheres negras. Autora do livro “Guerreiras Populares Quilombolas”, em que registra a história de dezenas de mulheres negras de resistência, ela transformou essas narrativas em visibilidade, memória e orgulho.
Agora, dá um passo além: se antes contava essas histórias, hoje colabora para que as próprias mulheres quilombolas contem, registrem e compartilhem suas vivências diretamente com o mundo. O Conexão Quilombola é a tradução prática de uma ideia que orienta sua trajetória: a comunicação não é um luxo, é um direito e, nas mãos certas, pode ser ferramenta concreta de enfrentamento ao racismo, de fortalecimento da identidade e de construção de futuro.
