Em turnê pelo Brasil com “Um Dia Muito Especial”, Maria Casadevall encontra no palco uma personagem que a coloca diante de uma história marcada pelo contraste entre o tumulto da vida pública e a intimidade dos afetos. Ao lado de Reynaldo Gianecchini, a atriz conduz uma montagem que parte de um acontecimento histórico para voltar o olhar ao que existe por trás dele: as vidas, os desejos e as solidões.
Adaptado e dirigido por Alexandre Reinecke, com tradução de Célia Tolentino, o espetáculo revisita o clássico de Ettore Scola, de 1977, eternizado no cinema por Sophia Loren e Marcello Mastroianni.
O dia é 6 de maio de 1938. Adolf Hitler desembarca na Itália de Benito Mussolini, Roma se enfeita para celebrar a aliança entre os regimes nazista e fascista, e Antonietta, interpretada por Casadevall, está em casa fazendo o que se espera dela: cuidar da família. O marido, o casamento e a sociedade já deixaram claro qual é o lugar reservado à personagem. Lá fora, a cidade controversamente festeja; dentro de casa, a vida é bem menos triunfal.
A rotina ganha uma fresta quando Gabriele, vivido por Gianecchini, aparece. Demitido de uma rádio por ser homossexual e sob ameaça de perseguição do Estado, ele conhece Antonietta por acaso. Os dois não parecem ter muito em comum, mas carregam algo parecido: a sensação de não caber direito no mundo que lhes foi imposto. Uma conversa despretensiosa começa a desmontar essa distância.
É aí que a peça encontra seu melhor jogo. O fascismo está nas ruas, nos discursos e na celebração oficial, mas também atravessa aquele apartamento, infiltrando-se naquilo que pode ou não pode ser dito, desejado e vivido.
Antonietta enfrenta o machismo e as expectativas impostas às mulheres; Gabriele, perseguido por sua orientação sexual, confronta uma sociedade que transforma a masculinidade normativa em instrumento de controle.
São experiências distintas, mas atravessadas pela mesma lógica patriarcal de vigilância sobre os corpos, os afetos e os modos de existir. Entre uma coisa e outra, o afeto aparece não como discurso grandioso, mas como uma possibilidade concreta de respirar fora das regras.
Depois das apresentações em Petrópolis, nos dias 15 e 16 de agosto, no Teatro Imperial, a montagem segue para outras cidades. E há algo de curioso nessa circulação: uma história situada em Roma, há quase 90 anos, continua encontrando espaço em salas brasileiras porque seus conflitos não ficaram presos àquela época. Machismo, preconceito, vigilância sobre a vida privada e intolerância continuam sendo matéria de discussão, e, hoje, ganham corpo diante do espectador.
A relação de Casadevall com o palco, por sua vez, antecede sua projeção na televisão e ajuda a compreender a atriz que conduz essa nova montagem. Foi no teatro que ela iniciou profissionalmente, em 2009, com o grupo Os Satyros, antes de ganhar projeção na TV Globo com a novela “Amor à Vida”. A trajetória ampliou-se para diferentes frentes do audiovisual, com trabalhos como “Coisa Mais Linda”, da Netflix, e os filmes “Depois de Tudo” e “Mulheres Alteradas”.
A próxima janela de Maria no audiovisual, aliás, é bastante literal. No ainda inédito “A Mulher ao Lado”, dirigido por André Faccioli e com codireção de Bárbara Paz, ela interpreta Victória, uma nova moradora que abre uma janela diretamente voltada para a casa dos vizinhos, gesto que desencadeia uma trama em torno da intimidade e dos limites entre o que se vive privadamente e aquilo que se deixa à vista.
Leonardo, vivido por Alejandro Claveaux, e Ana, interpretada por Bárbara Paz, levam uma vida tranquila com o filho em uma casa que se tornou referência da arquitetura brutalista brasileira. A escolha do cenário ajuda a traduzir esse universo: concreto, formas rígidas e uma arquitetura imponente que contrasta diretamente com Victória, personagem de Casadevall. Livre, divertida e pouco interessada em seguir os mesmos códigos, ela chega trazendo movimento para uma rotina cuidadosamente estruturada.
O longa faz parte dos próximos trabalhos da atriz, que também se prepara para retornar ao Globoplay em “Clube Hedonê”, série inspirada no romance “Mansão Hedonê”, de Sue Hecker. A produção marca o reencontro de Maria com a plataforma depois de sua passagem por “Ilha de Ferro”, onde interpretou Júlia, engenheira de petróleo que assume a gerência de uma plataforma e se torna uma das figuras centrais da trama.
No novo thriller, Casadevall integra um elenco que também conta com Marco Pigossi, Giovana Cordeiro, Ravel Andrade, Michel Melamed, Vitor Sampaio e Marcello Novaes.
