Por Marcelo Zago* — O chamado efeito copycat, ou efeito imitativo, parte de uma hipótese simples: a de que a exposição intensa a um comportamento violento pode influenciar sua repetição por pessoas em situação de maior vulnerabilidade psíquica ou emocional. Em outras palavras, a forma como certos crimes são narrados e repercutidos publicamente pode, em alguns contextos, produzir efeitos indesejados.
Trazer esse debate para os casos de feminicídio exige cuidado. Não se trata de culpar a imprensa, nem de defender qualquer restrição indevida à liberdade de informar. A ideia é outra: reconhecer que, em temas tão graves e sensíveis, comunicar com responsabilidade pode ser uma forma de proteger vidas.
Essa reflexão ganhou força a partir de um esforço coletivo que resultou no artigo científico Violência imitada? Evidências preliminares do efeito copycat em feminicídios no DF (2015-2025), que escrevi com a promotora de Justiça do MPDFT Gabriela Gonzalez Pinto e o advogado e colega de doutorado no IDP Ailton Ferreira Cavalcante. O estudo analisou 925 registros oficiais no DF — 230 feminicídios consumados e 695 tentados — e identificou um aumento médio de 13,45% nos casos tentados nos três meses posteriores aos picos de feminicídios.
O principal mérito do trabalho, a meu ver, não está em oferecer uma resposta definitiva, mas em colocar o tema em debate com base em dados oficiais e chamar atenção para a necessidade de prudência. Quando estamos diante da forma mais extrema da violência contra a mulher, esperar certeza absoluta para só então agir parece pouco compatível com a gravidade do problema. É aí que o princípio da precaução faz sentido: diante de um risco plausível e de um dano gravíssimo, o caminho mais responsável é aperfeiçoar práticas e construir soluções em conjunto.
Foi esse espírito que começou a orientar o debate no DF. O secretário de Segurança Pública, Sandro Avelar, acolheu a proposta e ajudou a impulsionar esse diálogo com a imprensa. A apresentação levada a esses encontros nasceu não apenas dos resultados preliminares desses estudos, mas também do trabalho de um grupo interinstitucional do qual participei, ao lado da promotora de Justiça Gabriela Gonzalez Pinto, da juíza do TJDFT Fabriziane Zapatta e da defensora pública Rafaela Mirtre, com o objetivo de construir caminhos de prevenção.
Esse talvez seja o ponto mais importante: a imprensa profissional não é problema. É parte da solução. O jornalismo sério informa, denuncia, rompe o silêncio e ajuda a sociedade a enxergar aquilo que muitas vezes ficaria invisível. E a imprensa tem algo muito poderoso: entra na casa das pessoas. Por isso, pode não apenas relatar a violência, mas também ajudar a enfrentá-la.
Nosso artigo lembra que a literatura não aponta apenas para possíveis riscos de emulação, mas também para um efeito protetivo, quando a cobertura oferece orientação, canais de denúncia, serviços de apoio e informação qualificada. Isso ganha ainda mais relevância quando olhamos para a subnotificação. Dados trabalhados pela Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios (CTMHF), da SSP/DF, mostram que, em quase 70% dos casos de feminicídio consumado, não havia registro anterior de ocorrência. Mas a análise qualificada desses mesmos casos revela algo ainda mais eloquente: em mais de 60%, a vítima já vivia um contexto de violência antes do desfecho fatal. Ou seja, a violência muitas vezes já existia, mas permanecia silenciada, invisibilizada ou bloqueada por inúmeros fatores.
Nesse cenário, a imprensa pode ter um papel decisivo. Pode funcionar como ponte entre a vítima que sofre em silêncio e a rede de proteção. Pode ajudar a transformar informação em possibilidade concreta de socorro. No fim, o que se busca não é silêncio, mas responsabilidade. Não é hostilidade à imprensa, mas cooperação. Porque, em temas como esse, a informação não apenas relata tragédias. Também pode ajudar a evitá-las.
Delegado e coordenador da Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios (CTMHF) da SSP/DF*
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