Megafone

Arnaldo Antunes fala sobre

Conversar sobre o disco e sobre a situação atual do país. Vídeo do cantor foi usado par divulgar manifestação. Conversar com ele sobre isso

postado em 12/03/2020 10:54
 (foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)

O Real resiste nasceu sob estado de perplexidade. Arnaldo Antunes não acreditava no que andava ouvindo na época das eleições. Na letra, o cantor e compositor desfila:“Autoritarismo não existe/Sectarismo não existe/Xenofobia não existe/Fanatismo não existe/Bruxa fantasma bicho papão”. É um pesadelo e todos vão acordar. A música acabou por dar nome ao 18º disco de Antunes, um conjunto de canções intimistas nascidas de um parceria que Antunes cultivava há um tempo. “Muito dessa formação desse disco veio do desejo de gravar com Cézar Mendes, porque venho compondo com ele, nos últimos meses, muitas canções e fiquei com esse desejo de gravar com ele. Ele lançou um disco com parcerias nossas e foi o trampolim para chegar nos outros músicos”, conta Antunes.

Entre os parceiros estão Carlinhos Brown e Pretinho da Serrinha, pedro Baby e MArcelo Costa, em Na barriga do vento, e o próprio Cézar Mendes, com quem assina João, uma delicada homenagem a João Gilberto. Poucos instrumentos ajudam a dar um tom intimista ao disco em uma formação que tem Daniel Jobim ao piano. “Estou vindo de dois trabalhos, Tribalista e RSTUVXZ, que eram trabalhos de banda, dançantes, de uma coisa extrovertida”, conta. “E resolvi, nesse disco, me recolher um pouco, voltar para canções mais próximas da maneira como foram compostas. Achei que era um momento em que estava precisando me recolher um pouco nesse formato mais enxuto, mais sereno.”

Sereno sim, porém com um olhar crítico. O real existe é perpassado por temas como a questão indígena, que conduz Língua índia e Dia de oca, essa última fruto de uma temporada com os índios Yawanawás, no Acre. “Foi uma experiência muito rica. E eu tinha começado essa música e levei pra lá, finalizei na aldeia. As duas canções estão relacionadas a esse universo de uma cultura tão rica e que tem que ser defendida no momento que estamos vivendo. Dia de oca é uma música festiva, fiz pra cantar com eles e retribuir de alguma forma a riqueza que tava recebendo”, conta.

Em Língua índia é sobre o idioma que nos dá identidade que Arnaldo Antunes quer falar. “A língua sempre foi algo em mutação, os falantes vão transformando. A línguas diferentes se amalgamam para formar uma língua nova. Minha questão era mais de transformação que de destruição.” São, também, duas músicas combativas, embora repletas de delicadeza serenidade. “Atualmente, só de você defender a cultura, os afetos, a natureza, os indígenas já está sendo subversivo. Nos dias de hoje, isso é ser combativo”, repara Arnaldo.

João também é uma homenagem à identidade. Cézar Mendes lançou o desafio e mandou a melodia para Arnaldo, que, num primeiro momento, ficou temeroso mas se entusiasmou e fez a letra. “E Cézar, que estava muito próximo de JOão Gilberto, cantou para ele e disse que gostou. Então ele chegou a ouvir antes de falecer”, diz Arnaldo. “Mas sou tão fã dele que me sinto íntimo”, brinca.

Para a turnê de O real existe, Arnaldo Antunes vai fazer uma coisa que nunca fez, mas que quer experimenta há tempos: terá apenas a companhia de um piano, tocado pelo compositor pernambucano Vítor Araújo. “E vou experimentar também inserir alguns poemas, vai ter uma alternância”, avisa o músico, que planeja o início da turnê para abril. Também é a primeira vez que ele não lançará o disco físico. O real existe estará disponível apenas nas plataformas digitais. O CD, ele repara, está deixando de existir, assim como o vinil nos anos 1990. “Infelizmente é assim, porque eu mesmo tenho apego, gosto do objeto, de pegar o encarte e tal. Mas é uma decisão do mercado e estou apenas me adaptando. Quero, talvez, fazer o vinil, por capricho”, diz.

O real resiste

Produzido por Arnaldo Antunes e Gabriel Leite. 10 faixas. R$ 14,90

ENTREVISTA: Arnaldo Antunes

Em O real resiste você diz que é um pesadelo. Vamos acordar, então?

Quando digo o real resiste é porque não é possível as pessoas, em geral, estejam defendendo valores que até então nos envergonhavam como censura, tortura, ditadura, preconceito, racismo. Como, de repente, tudo isso virou uma coisa descaradamente defendida e eleita? Sempre cresci prezando valores que estão sendo hostilizados que são a cultura, a educação, a diversidade, a menor desigualdade social, a preservação do meio ambiente, o respeito à diferença, aos direitos humanos e civis, à dignidade, à civilidade, o elogio à ciência, ao saber. São coisas que, a cada dia, estão sendo atacadas. Parecem pesadelos para as pessoas que defendem a socialização, que não tratam seu adversário político como inimigo mortal, que não estão nesse clima de violência e querem me convivência harmônica entre as pessoa. A música foi feita sob esse estado de perplexidade.

O real resiste pode ser entendido como uma música de protesto?

Não gosto desse termo porque ficou associado com um tipo de canção dos anos 1960 e tinha uma coisa de vitimização, de denúncia. Quando falo que real resiste estou dizendo que espero que o real resista, o presente do indicativo é como se fosse um espaço onde as coisas podem ser pesadelo e em que haja um real que está resistindo a isso. Uma dimensão utópica que a gente realiza no espaço artístico. Então acaba virando uma realidade paralela e, na hora em que todo mundo canta aquilo, passa a ser verdade para as pessoas que estão se afirmando através de um verso como esse. Tem várias coisas que diferenciam a postura da música de protesto tradicional. E, a meu ver, acaba sendo um termo ou rótulo muito redutor do papel do artista. Acho que o artista pode ser revolucionário ao falar de um fato político ou de uma relação afetiva, do cosmos ou de um mosquito que passou, depende da maneira como expressa

Seria a canção mais política que você já fez?

Essa canção é a mais política e o disco afirma questões políticas, mas não foi pensado dessa forma. É fruto de coisas que venho vivendo. Acho que, na minha carreira, há várias canções em que fica mais evidenciado o político, em que consigo expressar algum sentimento mais diretamente relacionado com o cenário político.

Qual o lugar de João Gilberto na música brasileira?

É um lugar de invenção, de uma coisa nova que sintetiza toda a tradição e, ao mesmo tempo, traz um frescor todo novo. É o intérprete mais compositor que já vi, que canta expressando o que a canção realmente quer dizer. É um inventor. É essa coisa que funda uma nação. Quando me identifico como brasileiro não é por causa dessa coisa patriótica de bandeira que acho horrorosa. Tenho horror a essa patriotada, por isso fiz a música Lugar nenhum (com os Titãs). Me sinto brasileiro quando ouço João Gilberto, quando leio Guimarães Rosa, quando vejo a poesia concreta ou ouço Dorival Caymmi. São as coisas que nos fundam como nação, e não o verde e amarelo sem sentido, aquela coisa convencional que reveste de patriotismo sem conteúdo nenhum. O que tem valor e nos forma como nação é a cultura. Um país sem cultura não tem alma

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